A Justiça do Rio de Janeiro determinou, nesta sexta-feira (13), a soltura do vereador Salvino Oliveira (PSD), que havia sido preso durante uma operação da Polícia Civil contra a estrutura do Comando Vermelho. O parlamentar estava detido desde quarta-feira (11) no presídio de Benfica, na Zona Norte da capital.
A decisão que autorizou a liberdade do vereador foi assinada pelo desembargador Marcus Henrique Basílio, após a defesa apresentar um pedido de habeas corpus no fim da quinta-feira (12). Apesar de liberar o parlamentar, o magistrado impôs medidas cautelares, como a proibição de deixar o estado por mais de 15 dias sem autorização judicial e a proibição de manter contato com outros investigados.
Justiça aponta fragilidade nas provas
Na decisão, o desembargador afirmou que os elementos apresentados pela investigação ainda são insuficientes para sustentar a prisão do vereador por suposta ligação com a facção criminosa. Entre os pontos citados está uma conversa entre terceiros na qual o nome de Salvino aparece, mas que teria ocorrido há mais de um ano.
Um dia antes da decisão que determinou a soltura, a própria Justiça havia mantido a prisão temporária do parlamentar, entendendo que o mandado expedido estava dentro da validade legal.
A prisão ocorreu durante uma operação da Polícia Civil que mirou integrantes e aliados da organização criminosa. Ao todo, foram cumpridos 13 mandados de prisão, dos quais sete pessoas foram presas até a última atualização da operação.
Investigação aponta indícios de ligação com facção
Segundo o delegado Vinicius Miranda, titular da Delegacia de Combate ao Crime Organizado do Departamento de Combate à Lavagem de Dinheiro, a prisão de Salvino foi solicitada após a polícia identificar uma “série de indícios” que poderiam indicar ligação do vereador com o Comando Vermelho.
Sem detalhar as provas, o delegado explicou que a prisão temporária tinha como objetivo permitir o aprofundamento das investigações.
“Esses indícios foram apresentados na Justiça, que entendeu que havia prisão temporária para que se buscasse até mais elementos, mais provas, para que se entendesse melhor qual seria a participação exata dele dentro da facção”, afirmou Miranda.
De acordo com o delegado, novos elementos podem surgir a partir da análise de documentos e do celular apreendido durante as buscas realizadas na quarta-feira (11).
Suspeita envolve campanha eleitoral em área dominada pelo tráfico
No pedido de prisão apresentado à Justiça, a Polícia Civil afirma ter identificado tentativas de interferência política em áreas controladas pelo tráfico de drogas. A investigação aponta que o objetivo seria transformar esses territórios em bases eleitorais.
De acordo com a corporação, Salvino teria buscado autorização do traficante Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, para realizar campanha eleitoral na comunidade da Gardênia Azul, na Zona Oeste do Rio, região sob domínio do Comando Vermelho.
“Segundo os elementos reunidos pela investigação, o vereador Salvino Oliveira teria negociado diretamente com o traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, autorização para realizar campanha eleitoral na comunidade da Gardênia Azul”, afirma o documento policial.
Uma das evidências apresentadas é uma conversa de WhatsApp entre dois supostos integrantes do grupo criminoso. No diálogo, um homem identificado como “Dom” pergunta ao traficante se havia autorização para que Salvino atuasse politicamente na região. No entanto, segundo o próprio documento, não há registro de conversa direta entre o vereador e o traficante.
Investigação cita contrapartidas com quiosques
Outro ponto investigado envolve a construção de quiosques na Gardênia Azul. Segundo a Polícia Civil, o vereador teria articulado benefícios ao grupo criminoso em troca da autorização para circular e fazer campanha na comunidade.
O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, afirmou que parte desses quiosques teria sido destinada a pessoas indicadas por integrantes da facção.
“Foram construídos alguns quiosques, cerca de 100, se não me engano, e metade desses quiosques, 50 desses quiosques, teve um processo completamente publicizado”, disse o secretário.
Ainda de acordo com a investigação, a escolha de parte dos beneficiários teria sido feita diretamente por integrantes da organização criminosa, sem processo público transparente.
Repercussão política
A prisão do vereador provocou reações de autoridades do estado e do município. Nas redes sociais, o governador Cláudio Castro afirmou que Salvino seria o “braço direito do Comando Vermelho dentro da Prefeitura do Rio”.
Já o prefeito Eduardo Paes afirmou que, caso as suspeitas sejam comprovadas, defenderá punição.
“Vou ser o primeiro a cobrar punição e exigir que a Justiça seja feita. Aqui não se passa mão em cabeça de quem faz coisa errada”, declarou o prefeito em vídeo publicado após a prisão.
Paes também criticou o que chamou de uso político das forças de segurança e lembrou que aliados do governo estadual já foram investigados por ligação com o crime organizado.
Defesa nega envolvimento
Salvino Oliveira nega qualquer relação com o traficante Doca ou com o Comando Vermelho. O vereador também afirma não ter participação na instalação de quiosques na Gardênia Azul.
“Estou sendo vítima de uma briga política que não é minha”, declarou o parlamentar.
A Câmara Municipal do Rio informou, em nota, que acompanha o caso e que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
“A Câmara do Rio acompanha o desenrolar dos fatos e se coloca à disposição das autoridades competentes para prestar quaisquer esclarecimentos que se façam necessários. O Legislativo municipal reafirma sua confiança no trabalho das instituições e no devido processo legal”, diz o comunicado.
Quem é Salvino Oliveira
Salvino Oliveira tem 29 anos e nasceu na Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio. Na infância, trabalhou vendendo balas e água em ônibus para ajudar na renda familiar. Aos 7 anos, ingressou no Colégio Pedro II por meio de sorteio.
Antes da carreira política, trabalhou como garçom e ajudante de pedreiro. Formou-se em Gestão Pública pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Em 2021, foi escolhido pelo prefeito Eduardo Paes para assumir a Secretaria Especial da Juventude da cidade. Dois anos depois, foi eleito vereador pelo PSD com mais de 27 mil votos e atualmente cumpre seu primeiro mandato na Câmara Municipal do Rio.
Entre suas propostas mais conhecidas está um projeto que busca regulamentar o aluguel por temporada na capital fluminense.






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