Justiça determina abertura de documentos sigilosos sobre morte de Tancredo Neves após 41 anos

Decisão permitirá acesso a prontuários médicos e registros do tratamento do presidente eleito, morto em 1985; família busca esclarecer suspeitas de erro médico

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Mais de quatro décadas após a morte de Tancredo Neves, um dos episódios mais marcantes da história política brasileira poderá ganhar novos esclarecimentos. A Justiça determinou a liberação de documentos médicos mantidos sob sigilo desde 1985, abrindo caminho para que familiares tenham acesso a informações sobre o tratamento que antecedeu a morte do presidente eleito.

A decisão, tomada em 2026, atende a uma antiga reivindicação da família, que busca esclarecer suspeitas de possíveis erros médicos durante a internação. Tancredo morreu em 21 de abril de 1985, aos 75 anos, depois de enfrentar uma série de complicações de saúde que impediram sua posse na Presidência da República.

Com a determinação judicial, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) deverão disponibilizar prontuários, identificação dos profissionais envolvidos e outros registros relacionados ao atendimento.

Procuradas pelo g1, as duas entidades informaram que ainda não haviam sido oficialmente notificadas da decisão.

Suspeitas de erro médico motivaram disputa judicial

A busca por respostas ganhou força em 2010, após a publicação do livro O paciente, do escritor Luís Mir. Com autorização da família, o autor investigou os procedimentos adotados durante a internação e apontou possíveis irregularidades.

Entre os principais questionamentos estão a realização de uma cirurgia de emergência para tratar uma diverticulite, a presença de mais de 30 pessoas na sala cirúrgica e possíveis falhas nos cuidados pós-operatórios.

Outro ponto envolve advertências aplicadas pelo CRM-DF a médicos que participaram do tratamento. Os motivos dessas medidas permanecem desconhecidos pelos familiares.

Segundo a advogada Juliana Porcaro, representante da família, os conselhos profissionais haviam negado anteriormente o acesso aos documentos, alegando a necessidade de preservar o sigilo médico. A negativa levou o caso à Justiça.

Família quer esclarecer decisões tomadas durante internação

A advogada afirma que a abertura dos arquivos poderá revelar como os próprios órgãos de fiscalização avaliaram a conduta dos profissionais responsáveis pelo atendimento.

“Se há uma advertência, é porque houve um processo administrativo no conselho e algo foi considerado errado. E é a esse ‘algo’ que a família quer ter acesso”, declarou Juliana ao g1.

Ela também relatou uma conversa com o ex-presidente José Sarney, que teria manifestado preocupação com a condução do tratamento de Tancredo.

As suspeitas, entretanto, ainda dependem da análise dos documentos e não representam comprovação de erro médico.

Morte de Tancredo mudou os rumos da redemocratização

Eleito indiretamente em janeiro de 1985, Tancredo Neves deveria assumir a Presidência em 15 de março, encerrando o ciclo de governos militares iniciado em 1964.

Sua internação na véspera da posse, porém, levou o vice-presidente José Sarney a assumir o comando do país. Tancredo morreu pouco mais de um mês depois, sem chegar a exercer o cargo.

A liberação dos documentos poderá contribuir para esclarecer circunstâncias médicas ainda controversas e acrescentar informações a um capítulo decisivo da redemocratização brasileira.

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