Os casos de pessoas que decidem agir por conta própria diante de supostos crimes aumentaram no Estado do Rio de Janeiro. No primeiro trimestre de 2026, foram registradas 504 ocorrências de exercício arbitrário das próprias razões, número 25% superior aos 402 casos contabilizados entre janeiro e março do ano passado, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP).
A média chegou a 5,6 registros por dia nos três primeiros meses deste ano. Em todo o ano de 2025, o estado contabilizou 1.609 ocorrências desse tipo. Os números ganham peso em meio à investigação da morte do ciclista Cláudio Rafael Landeiro, espancado em Copacabana após ser acusado, sem provas, de ter roubado uma bicicleta. O veículo, conforme as investigações, pertencia à irmã dele.
O caso acabou revelando uma questão que vai além das agressões: a atuação de homens contratados para prestar segurança a estabelecimentos comerciais e que circulavam pelas ruas do bairro em aparente atividade de patrulhamento.
Informações divulgadas pelo g1 apontam que imagens anteriores ao crime mostram esses profissionais percorrendo vias de Copacabana com cassetetes. A presença deles nas ruas teria diminuído depois da morte de Cláudio.
Rondas colocam segurança privada sob investigação
O patrulhamento de vias públicas não pode ser assumido livremente por grupos particulares. Pelas normas que regulamentam o setor, empresas e profissionais de segurança privada precisam de autorização da Polícia Federal, e as atividades permitidas têm limites definidos.
Segundo informações da PF e de especialista consultado pelo g1, a proteção privada deve permanecer dentro das modalidades autorizadas e não pode substituir a atuação das forças policiais. Rondas em ruas para atender comerciantes ou associações, fora das hipóteses previstas, podem ser enquadradas como segurança privada clandestina.
A legislação também exige habilitação dos vigilantes e regularização das empresas. A prestação ou contratação clandestina do serviço pode resultar em multas tanto para pessoas físicas quanto para pessoas jurídicas.
Polícia apura quem financiava serviço
A investigação da 12ª DP (Copacabana) avançou para identificar quem contratava e coordenava os homens que atuavam no bairro. De acordo com informações repassadas pela Polícia Civil ao g1, pelo menos uma pessoa ligada à contratação já foi identificada, e comerciantes que utilizavam o serviço deverão ser ouvidos.
A polícia busca esclarecer quem pagava pelas atividades, quais orientações eram dadas aos seguranças e até que ponto os contratantes conheciam a maneira como eles atuavam nas ruas. Depoimentos reunidos na investigação também mencionam grupos de WhatsApp usados para organizar o serviço e fazem referência à possível participação de um policial militar, circunstância que ainda está sendo apurada.
Morte de ciclista expôs problema
Cláudio Rafael Landeiro foi espancado na madrugada de 12 de agosto. Segundo a investigação, depois de uma primeira abordagem na Rua Barata Ribeiro, ele foi seguido até a Rua Felipe de Oliveira, onde acabou cercado e agredido.
A investigação aponta que o ciclista sofreu pelo menos 30 pauladas, além de socos e chutes. Ele foi socorrido e levado ao Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, mas não resistiu aos ferimentos. Quatro pessoas foram identificadas como participantes diretas das agressões, entre elas dois seguranças e dois entregadores. Os dois seguranças foram presos e tiveram as prisões temporárias mantidas pela Justiça neste sábado (22).







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