O laudo da necropsia de Juliana Marins, brasileira que caiu no Monte Rinjani, na Indonésia, apontou que no dia seguinte a queda, por volta das 12h local, ela já estava morta. A declaração aconteceu durante uma coletiva, nesta sexta-feira (11), feita pela família da jovem e com apoio da Defensoria Pública da União, para detalhar o exame feito no Brasil.
O médico legista da Polícia Civil, Reginaldo Franklin, explicou que larvas encontradas no corpo de Juliana foram determinantes para precisar a data em que a jovem já estava morta. O horário, no entanto, é ainda uma estimativa.
“Nós encontramos larvas no couro cabeludo e no tórax, mas foram o suficiente para levarmos ao setor de entomologia forense do IML. Conseguimos identificar a espécie da larva, o tempo de postura dos ovos e com base na biologia do inseto, conseguiu detectar até a larva chegar naquele tamanho quanto tempo leva. De forma retroativa, consegue-se determinar por estimativa que na metade do dia 22, ela já estava morta”, explicou o médico.
A publicitária morreu no mês passado, quando fazia uma trilha em um dos pontos turísticos mais famosos do país asiático. Quatro dias depois, alpinistas voluntários conseguiram resgatar o corpo. Segundo Franklin, ela deslizou de costas e a queda fatal foi de frente, com o rosto projetado para o chão.
“Ela deslizou, sobretudo, pela região posterior do corpo, deslizou pelas costas, naturalmente, no último impacto, ela caiu de frente, isso que é o que a gente vislumbra. A pelve sofreu muito, esse osso abriu, e para abrir tem que ser trauma de alta energia cinética”, detalhou.
O perito particular Nelson Massini, que também acompanhou o exame, afirmou que Juliana possivelmente sofreu um ferimento na coxa logo na primeira queda.
“Foi uma morte sofrida, o frio influencia até na possibilidade dessa hemorragia interna, mas não foi ele o principal. Os cálculos que nós fizemos do momento da morte está muito próximo da verdade. Os insetos determinaram o momento”, disse.

A irmã da vítima, Mariana Marins, apresentou uma cronologia do acidente. Ela contou que o último registro feito da brasileira, ainda viva, foi por volta das 18h, cerca de 14h depois da queda, quando ela ainda aguardava o resgate. Uma turista que estava no local manteve a família atualizada.
“Agente pediu muito para a espanhola que estava lá gritar muito para ela, manter ela acordada, falar o nome da família para ela saber que a gente sabia. Nesse momento, a Juliana grita em desespero, então a gente sabe que ela estava viva. Mas, quando escurece e todo mundo vai embora, a gente não sabe mais”, conta.
Segundo cálculos feitos por familiares e especialistas, ela deslizou cerca de 60 metros para fora da trilha e despencou mais 160 metros, caracterizando o primeiro tombo.
Depois, escorregou outros 60 metros, sofreu a segunda queda e permaneceu consciente por aproximadamente 15 minutos, enfrentando intensa dor e hemorragia antes de falecer. O corpo continuou deslizando até os 650 metros, onde foi encontrado.
Demora no resgate
A irmã de Juliana disse ainda que ela caiu por volta das 4h (horário local). O guia comunicou ao chefe sobre o acidente às 6h e a equipe da Defesa Civil só foi acionada por volta das 8h30.
“Dezoito horas depois da queda, a equipe de resgate do Basarnas [Agência Nacional de Busca e Resgate da Indonésia] conseguiu descer 150 metros de rapel, mas Juliana estava em um Ponto mais abaixo na montanha. Eles só conseguiram chegar até 150 metros e ela estava a 220 metros”, detalhou.
Mariana acredita que, se o resgate fosse mais rápido, Juliana poderia ter sobrevivido: “Só do Basarnas ter sido chamado um período longo depois do acidente já é algo a ser considerado. Já sabiam que era um acidente grave. Sem o equipamento correto para chegar até o local, são vários pontos a ser considerados”.
Laudo
O governo indonésio divulgou o laudo da primeira autópsia realizada no corpo da brasileira, durante coletiva de imprensa no Hospital Bali Mandara, em Denpasar. O relatório indicava que Juliana morreu em até 20 minutos após sofrer o trauma decorrente da queda.
A segunda autópsia foi realizada por uma equipe composta por peritos da Polícia Civil, da Polícia Federal e por um assistente técnico, além de um representante da família. O objetivo era obter respostas que não haviam sido plenamente esclarecidas no primeiro laudo feito na Indonésia.
“A segunda autópsia é totalmente contaminada, os órgãos já estão praticamente sem sangue e que, naturalmente, se fez necessário um processo de conservação cadavérico com formol. Tem um prejuízo muito maior. Mas o formol possibilitou conservar as lesões internas e os órgãos internos. Ela apresentou uma multiplicidade de lesões”, detalhou Franklin.

O novo laudo pericial elaborado pelo Instituto Médico Legal do Rio revelou que a jovem morreu em decorrência de múltiplos traumas causados por uma queda alta. A causa foi uma hemorragia interna provocada por lesões poliviscerais e politraumatismo.
Após o impacto, os especialistas estimam que ela tenha sobrevivido por, no máximo, 10 a 15 minutos.
“Ela tinha uma contusão no crânio, que causou uma hemorragia dentro da cabeça. Havia lesões na testa, fratura das costelas. Uma delas perfurou a pleura do pulmão, evoluiu para pneumotórax, e com isso um comprometimento dos dois pulmões com sangramento”, acrescentou Franklin.
Relembre o caso
Juliana era natural de Niterói, no Rio de Janeiro, e estava em um mochilão pela Ásia quando o incidente aconteceu. Ela fazia uma trilha no vulcão Rinjani, um dos pontos turísticos mais populares da Indonésia, e caiu em um precipício, na madrugada de sábado (21), no horário local — ainda sexta-feira (20) no Brasil.
O guia que acompanhava a jovem disse que ela não foi abandonada e que somente tinha parado para descansar. Ele garante que estava há 3 minutos do local onde ela descansava e chamou a equipe de resgate assim que ouviu os gritos de socorro.
No entanto, a família diz que ele se afastou para fumar, mesmo após a jovem falar que não estava bem.
Investigação
O guia foi ouvido pela polícia de Lombok Oriental. A polícia busca entender se houve negligência ou outro elemento criminoso nas circunstâncias da morte da jovem.
Também prestaram depoimento o carregador que levava as bagagens do grupo pela trilha, um policial florestal e representantes da agência de turismo responsável pelo passeio.
A Embaixada do Brasil na Indonésia acompanha o caso de perto. A Defensoria Pública da União (DPU) solicitou que a Polícia Federal investigue possível omissão de socorro por parte das autoridades indonésias. Se confirmada, a hipótese pode levar o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), em Washington.






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