O caso envolvendo o jovem encontrado vivo após desaparecer por cinco dias no Pico do Paraná reacendeu o debate sobre a importância da preparação antes de encarar uma caminhada em uma área de difícil acesso. A irmã da brasileira Juliana Marins, que morreu em junho de 2025 após cair de um penhasco em uma trilha na Indonésia, dá orientações para evitar imprevistos em casos do tipo. “Planejar é fundamental”.

Em entrevista à Agenda do Poder, Mariana Marins disse ainda ter se mudado com a esposa de São Paulo para Niterói dois meses após a tragédia para ficar mais perto dos pais. E deu detalhes sobre a forma como a família tem lidado com o luto. “A minha mãe tem mantido o quarto da Juliana preservado, com fotos e cama arrumada. Costumamos entrar para conversar em uma varanda que ela usava como escritório, porque ficamos com a sensação de que ela está lá de alguma forma”.

“Costumo ser a mais forte e busco voltar à rotina para seguir em frente. Mas tem dias em que a saudade da Juliana bate mais forte. Às vezes, eu me permito sentir mais, para não ficar sufocada. Em vários momentos, desabei. O caso do jovem perdido na trilha do Paraná me fez relembrar de tudo o que aconteceu com a minha irmã”.

Mariana Marins

Ao relembrar a queda durante a trilha no Monte Rinjani, disse que Juliana adotou todos os cuidados necessários. “Não teria nada que ela pudesse fazer diferente. Ela pesquisou sobre o parque, pesquisou sobre a trilha, contratou um guia de uma agência local e usou roupas adequadas”. Ela disse, ainda, que a irmã lutou pela vida até o fim.

Mariana Marins exibe foto da irmã Juliana Marins, morta na Indonésia, pelo celular / Crédito: Arquivo pessoal

“O perito disse que, pela forma como ela caiu e pelo local onde teve as fraturas, era quase impossível não estar sentindo uma dor bizarra para ficar viva, porque o corpo dá uma desligada. Não sei de onde ela tirou forças para se segurar após a queda. Ela gritou por socorro, tentou ficar em pé e colocou o corta-vento para se proteger do frio. Ela ainda ficou sem enxergar, porque perdeu os óculos na queda. Ela fez tudo o que pôde para sobreviver e esperar o resgate. Fez muito mais do que a maioria das pessoas teria feito”.

Mariana Marins, sobre a luta pela vida da irmã após queda em trilha na Indonésia

Mas Mariana não poupou críticas às autoridades durante as buscas, e diz ainda acompanhar as investigações do caso, em andamento na Indonésia. “O resgate foi muito demorado. Quando a Juliana ainda estava viva, não houve prioridade para o uso do helicóptero. Os socorristas levaram mais de nove horas para chegar no local. Também senti falta de uma posição mais efetiva do governo federal. Qual o papel da Embaixada quando um turista brasileiro precisa de ajuda em outro país?”, questiona.

As irmãs Juliana e Mariana Marins | Reprodução / redes sociais

Mas Mariana também fala sobre o carinho que tem recebido e até do poder público, já que a Prefeitura de Niterói batizou um espaço na Praia do Sossego de Mirante e Trilha Juliana Marins. “Recebo até hoje mensagens de mulheres que querem colocar os seus sonhos em prática e se espalham na minha irmã pela coragem que ela tinha para viver como queria”, disse, como quem sofre pela morte de Juliana Marins, mas ainda consegue buscar forças nas memórias que faz questão de guardar.

Juliana Marins com os pais, Estela e Manoel Marins, em foto reproduzida no Instagram – Divulgação

Dicas para os trilheiros

Mariana Marins dá dicas de segurança em meio aos casos recentes de pessoas perdidas durante essas caminhadas.

Ela diz que uma das primeiras medidas deve ser avisar a alguém de confiança qual o destino. O trilheiro também deve usar roupas e sapatos adequados.

E, caso não conheça o trajeto, o ideal deve ser contratar um guia local. Fazer a trilha na companhia de outras pessoas ou de um grupo também é uma medida de segurança importante, segundo Mariana Marins. “Também indico que a pessoa passe pela entrada oficial do parque onde a trilha fica, fazendo registro de entrada e de saída”, diz.

Com o avanço da rota, é fundamental que o grupo tenha em mente que aqueles que estão mais cansados devem ditar o ritmo do grupo, como forma de minimizar os riscos de que alguém fique para trás.

Pedra da Gávea tem uma das principais trilhas do Rio | Reprodução

Buscas online colocam Rio no topo do ranking mundial de trilhas

O crescimento de buscas online por trilhas e cachoeiras teve alta de 82% em 2025, dando indícios da maior adesão de trilheiros inexperientes, o que eleva riscos de acidentes.

Levantamento da plataforma SportsShoes, especializada em experiências outdoor, colocou o Rio no topo do ranking mundial de trilhas urbanas ao avaliar 180 destinos turísticos.

O Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro indica uma média de 20 desaparecimentos por mês em trilhas. Os principais pontos de resgate incluem a Pedra da Gávea, o Morro do Pontal, o Parque Nacional da Tijuca, o Morro da Urca e o Corcovado.

O caso mais recente ocorreu no fim de novembro de 2025, quando o advogado Paulo Fernando Bandeira da Silva, 61, morreu ao despencar de uma altura de cerca de 80 metros quando atingiu o topo de uma trilha na Floresta da Tijuca (veja a lista abaixo).

Cronologia de riscos em trilhas no RJ em 2025

17 de maio – Um homem foi resgatado após escorregar em uma rocha enquanto fazia uma trilha no Parque Nacional de Itatiaia, no Sul do Rio. O visitante sofreu uma queda e machucou o joelho, ficando impossibilitado de continuar a caminhada.

Denis Kopanev, de 33 anos, desapareceu no dia 9 de junho, um dia após desembarcar no Rio | Reprodução

9 de junho – Foi quando o turista russo Denis Kopanev foi visto pela última vez antes de entrar em uma trilha na Floresta da Tijuca, Zona Sul do Rio. O corpo dele foi encontrado mais de três meses depois, em estado avançado de decomposição

7 de julho – O Corpo de Bombeiros resgatou cinco pessoas também no Parque Nacional de Itatiaia. Perdidas, as vítimas conseguiram sinalizar a sua localização graças ao uso de lanterna em uma área de difícil acesso, que exigiu o uso de aeronave.

Turista foi resgatado em trilha em Teresópolis / Crédito: Corpo de Bombeiros

21 de julho – O turista Gabriel Pessanha foi resgatado pelo Corpo de Bombeiros na Pedra do Sino, em Teresópolis, Região Serrana do Rio. Ele havia se perdido na trilha e caiu em uma fenda entre as pedras da montanha. “Acabei escorregando, bati a cabeça e, quando fui ver, estava acordado e preso dentro de uma pedra. Aí, bateu o desespero, né? Já não imaginava sair dali com vida, porém tentei manter a calma”, disse na ocasião.

13 de setembro – A jovem Mayara Ferreira precisou ser resgatada pela Guarda Municipal em meio à Trilha Tupinambá, em Niterói, após sofrer um entorse no joelho durante a caminhada.

12 de outubro – O professor universitário aposentado Antonio Petraglia, que tinha Alzheimer e era monitorado pela família, foi visto pela última vez antes de fazer uma trilha no Morro da Urca, Zona Sul do Rio.

Paulo Fernando Bandeira da Silva morreu após sofrer queda de 80 metros na Floresta da Tijuca / Crédito: Arquivo Pessoal

22 de novembro – O advogado Paulo Fernando Bandeira da Silva, 61, morreu ao sofrer uma queda de cerca de 80 metros ao chegar no topo em meio a uma trilha na Floresta da Tijuca. A chegada dos bombeiros em uma área de mata fechada ocorreu 40 minutos após o acidente. O corpo foi retirado com o auxílio de um helicóptero após quase sete horas de operação. Antes do acidente, ele chegou a enviar fotos pelo WhatsApp da trilha para a filha.

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