Um dos inquéritos mais rumorosos envolvendo a gestão de Jair Bolsonaro segue sem desfecho e atravessa a virada do calendário político, informa a colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo. Responsável pela denúncia que levou o ex-presidente à prisão em outro processo, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, iniciou 2026 sem decidir o futuro da investigação sobre o desvio de joias sauditas, caso que ainda pode gerar novas implicações criminais para Bolsonaro.
A apuração trata da suposta apropriação indevida de joias recebidas como presentes de autoridades estrangeiras durante o mandato presidencial entre 2019 e 2022. Em julho de 2024, Bolsonaro foi indiciado pela Polícia Federal ao lado do tenente-coronel Mauro Cid e de outras dez pessoas, sob a suspeita de participação em um esquema de desvio de bens do acervo presidencial. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro chegou a entrar no radar das investigações, mas acabou não sendo indiciada.
Passados 17 meses desde o indiciamento, a Procuradoria-Geral da República ainda não decidiu se oferece denúncia ao Supremo Tribunal Federal ou se arquiva o caso.
Ritmos distintos dentro da PGR
A demora chama atenção quando comparada a outros processos de grande impacto. No caso da trama golpista, que resultou na condenação de Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão, Gonet levou apenas três meses para tomar uma decisão.
Bolsonaro havia sido indiciado em novembro de 2024 e, já em fevereiro de 2025, a PGR apresentou denúncia pelos cinco crimes que embasaram a condenação: organização criminosa armada; tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito; golpe de Estado; dano qualificado pela violência e grave ameaça contra o patrimônio da União; e deterioração de patrimônio tombado.
No inquérito das joias, áudios obtidos pela Polícia Federal reforçaram as suspeitas. Em um deles, o então chefe do Gabinete Adjunto de Documentação Histórica da Presidência, Marcelo Vieira, afirma que “tem que ver qual é o desejo do presidente, que isso vire acervo ou não”.
O órgão, conhecido como GADH, era responsável por receber os presentes entregues ao chefe do Poder Executivo, fazer a triagem e definir o que seria considerado bem pessoal do presidente e o que deveria ser incorporado ao patrimônio da União.
Recondução e cálculo político
Entre auxiliares, Gonet é descrito como alguém de perfil centralizador, prudente e cauteloso. Para interlocutores próximos, porém, outro fator ajuda a explicar a lentidão: a perspectiva de recondução ao cargo.
Um eventual arquivamento do caso das joias poderia ser interpretado como um gesto de complacência, o que dificultaria sua permanência à frente da PGR. A decisão sobre a recondução cabia ao presidente Lula.
No fim de agosto de 2025, mais de um ano após o indiciamento no caso das joias e semanas antes do julgamento da trama golpista, Lula decidiu antecipar o anúncio de que reconduziria Gonet, embora o mandato só terminasse em dezembro. Em novembro, o procurador-geral foi confirmado por mais dois anos em uma das votações mais apertadas desde a redemocratização: 45 votos favoráveis, apenas quatro acima do mínimo constitucional, e 26 contrários, muitos deles de parlamentares ligados ao bolsonarismo.
Críticas da oposição e tensão institucional
Para integrantes da oposição, Gonet atua em “dobradinha” com o ministro Alexandre de Moraes, relator das principais investigações que cercaram Bolsonaro e seus aliados, como os inquéritos da trama golpista, das fake news e o das joias sauditas.
“Qualquer coisa a mais contra Bolsonaro poderia piorar a situação no Senado”, avalia um interlocutor de Gonet ouvido reservadamente.
Entre aliados do ex-presidente, o eventual arquivamento do inquérito das joias é visto como um possível gesto de pacificação, capaz de reduzir a tensão entre o Supremo Tribunal Federal e parlamentares bolsonaristas, que se dizem vítimas de perseguição política.
“O Supremo deveria encerrar inquéritos que não resultaram em denúncia, mas prefere deixar todo mundo pendurado no anzol”, afirma um integrante do PL.
Ano eleitoral no horizonte
Em conversas privadas, Gonet costuma afirmar que busca manter as investigações longe da “contaminação eleitoral”, evitando apresentar denúncias em períodos de campanha para afastar o uso político dos processos.
A demora, no entanto, empurra a definição do caso das joias justamente para 2026, novamente um ano eleitoral, o que amplia a pressão sobre a Procuradoria-Geral da República e mantém Bolsonaro sob a sombra de mais um inquérito sem desfecho.
Procurada, a PGR não se manifestou.






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