O programa Jogo do Poder, apresentado pelo jornalista Ricardo Bruno e que vai ao ar pela rede CNT no domingo (7), a partir das 23h30, virou palco de um embate direto entre dois dos nomes mais antagônicos da Câmara Municipal do Rio de Janeiro: Rogério Amorim (PL) e Mônica Benício (PSOL). Em quase meia hora de confronto, os vereadores trocaram farpas e defenderam visões completamente opostas sobre segurança pública, aborto, cultura de periferia e até a celebração do “Dia do Patriota”, ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
O primeiro choque veio no tema que vem inflamando o debate no Rio: o armamento da Guarda Municipal. Mônica Benício reafirmou ser contra mais armas nas ruas e disse que o foco deveria ser investimento em inteligência e valorização dos guardas, com melhores salários e condições de trabalho. Para ela, armar a corporação em um cenário de escalada de violência “gera mais insegurança” e ainda coloca o guarda em risco ao criar situações de confronto direto com criminosos armados.
Rogério Amorim, por outro lado, cravou que o PL “sempre defendeu” o armamento da guarda e repetiu o discurso de que “armas nas mãos de pessoas de bem diminuem a criminalidade”. Ele atacou a solução encontrada pelo prefeito Eduardo Paes, criticando a contratação de um grupo paralelo, sem concurso, com contratos temporários de cinco anos para atuar nas ruas. Na visão do vereador, isso cria um exército de vigilantes armados que, ao fim do vínculo, podem ficar sem destino e sem amparo.
O debate subiu ainda mais de tom quando o mediador puxou o tema das operações policiais nos complexos da Penha e do Alemão. Apesar de pesquisa citada no programa apontar apoio de 87% da população, inclusive de moradores de favelas, à ação, Mônica classificou a operação como “desastre” e “grande fracasso”. Ela criticou o número de mortos – mais de 120, segundo a parlamentar – e disse que a intervenção “matou mais gente do que prendeu” e não quebrou a estrutura financeira do crime organizado.
Amorim respondeu na mesma moeda, classificando a operação como “sucesso retumbante” e dizendo que mais de 150 “vagabundos” foram tirados de circulação. Para ele, todos os criminosos abatidos estavam armados e escondidos na mata, e a polícia apenas reagiu a tiros contra quem enfrentou as equipes com fuzis. O vereador defendeu que, sempre que a polícia é recebida à bala, tem o “dever” de revidar.
Na segunda metade do programa, o choque ideológico migrou para o campo dos costumes. Mônica e Amorim travaram um duro embate sobre o projeto do PL que criou uma semana de combate ao aborto e sobre cartazes em repartições públicas com mensagens contra o procedimento. O vereador, que é médico e católico, disse que o Brasil é majoritariamente contrário ao aborto e acusou parte da imprensa de “glamourizar” o tema. Mônica chamou a posição do colega de “desonestidade intelectual”, lembrou que a maior incidência de abortos legais é em meninas de 10 a 13 anos estupradas e afirmou que nenhuma mulher “cresce sonhando em fazer um aborto”, definindo o procedimento como último recurso em contextos de extrema violência.
Outro ponto explosivo foi a chamada “lei anti-Uruan”, proposta que busca impedir que o poder público contrate artistas que façam apologia ao crime. Amorim defendeu o texto dizendo que o funkeiro citado, filho de um chefe do Comando Vermelho, exalta facções e enfrentamento à polícia em suas letras, e que dinheiro público não pode financiar esse tipo de conteúdo. Mônica retrucou chamando o projeto de preconceituoso e inaplicável, apontando que não há critérios claros para definir o que é apologia ao crime e denunciando o risco de “censura prévia” à cultura de periferia.
O programa terminou em clima tenso com a discussão sobre o “Dia do Patriota”, data criada por projeto de Amorim e que coincide com o aniversário de Jair Bolsonaro. Após ser pressionado, o vereador admitiu que a escolha da data mistura homenagem ao ex-presidente, ao ídolo Ayrton Senna e ao próprio filho. Mônica reagiu chamando Bolsonaro de “traidor da pátria”, lembrando a condenação por tentativa de golpe de Estado e declarações racistas, homofóbicas e misóginas do ex-presidente. Sem consenso em nenhum dos temas, o Jogo do Poder exibiu ao vivo o abismo ideológico que separa a direita bolsonarista e a esquerda progressista na Câmara do Rio. E mostrou que, em ano pré-eleitoral, cada debate vira também palanque para consolidar narrativas e falar diretamente ao eleitorado mais fiel de cada lado.






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