A esquerda conseguiu superar a direita em engajamento nas redes sociais na primeira semana do segundo turno da eleição presidencial, impulsionada por uma intensa mobilização de apoiadores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O movimento ocorreu após a derrota do presidente no primeiro turno para Flávio Bolsonaro (PL) e em meio às reclamações da campanha petista sobre possíveis interferências das plataformas digitais na disputa eleitoral.
Segundo levantamento da empresa de análise Bites, obtido com exclusividade pelo jornal O Globo, o engajamento dos influenciadores de esquerda nas plataformas da Meta cresceu 783% entre os dias 4 e 11 de outubro, enquanto os perfis ligados à direita registraram alta de 162%.
No Instagram, a diferença foi ainda mais expressiva. As interações com publicações de influenciadores de esquerda aumentaram 1.195%, contra 241% dos representantes da direita.
A reação também apareceu nos perfis dos presidenciáveis. Lula registrou crescimento de 1.789% no engajamento do Instagram na primeira semana do segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro teve avanço de 694%.
Esquerda vira disputa e alcança 49 milhões de interações
A Bites acompanhou o desempenho de perfis políticos em três períodos: pré-campanha, entre 1º de junho e 15 de agosto; campanha do primeiro turno, de 16 de agosto a 3 de outubro; e primeira semana do segundo turno, entre 4 e 11 de outubro.
Antes do início oficial da campanha, os influenciadores de direita registravam aproximadamente 11 milhões de interações semanais, contra 4,6 milhões dos perfis de esquerda.
Durante o primeiro turno, a vantagem conservadora aumentou em números absolutos. A direita alcançou 25 milhões de interações por semana, enquanto a esquerda chegou a 11,5 milhões.
O cenário mudou após a votação de 4 de outubro. Na semana seguinte, os perfis de esquerda somaram 49 milhões de interações, ultrapassando os 45 milhões registrados pela direita.
Foi a única semana de toda a série analisada em que a esquerda ficou à frente dos adversários.
O levantamento considera curtidas, comentários e compartilhamentos públicos, mas não mede o alcance total das publicações nem a quantidade de usuários que visualizaram os conteúdos.
Janones e Erika Hilton puxam mobilização digital
A reação da esquerda foi impulsionada principalmente pelo desempenho de alguns influenciadores com forte presença nas redes sociais.
Os deputados federais André Janones e Erika Hilton acumularam, respectivamente, 24,7 milhões e 21,6 milhões de interações no período analisado, segundo os dados apresentados pela Bites.
Na distribuição percentual do engajamento do campo progressista, Janones respondeu por 33% das interações, seguido por Erika Hilton, com 29%, e Jones Manoel, com 15%.
Juntos, os três concentraram aproximadamente 76% do engajamento dos influenciadores de esquerda na primeira semana do segundo turno.
Na direita, o desempenho ficou ainda mais concentrado. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) respondeu sozinho por 49% das interações do grupo, tanto durante o primeiro quanto no segundo turno.
Segundo André Eler, diretor técnico da Bites, a mobilização de comunidades organizadas no Telegram e no WhatsApp teve papel importante no crescimento das interações.
A estratégia envolveu grupos que reúnem até 2 milhões de participantes, convocados para interagir simultaneamente com determinadas publicações.
De acordo com a análise, essa atuação permitiu ampliar o engajamento orgânico dos conteúdos sem necessariamente violar as regras das plataformas digitais.
Lula aumenta publicações e ultrapassa Flávio Bolsonaro
Além do desempenho dos influenciadores, a pesquisa identificou uma mudança significativa na estratégia digital dos dois candidatos à Presidência.
Nas redes da Meta, no TikTok e no X, o engajamento do perfil de Lula cresceu 298% na primeira semana do segundo turno, contra 110% de Flávio Bolsonaro.
Durante a campanha do primeiro turno, ambos haviam registrado queda nas interações: 27% no caso de Lula e 16% no de Flávio.
A campanha petista intensificou sua produção de conteúdo ainda antes da primeira votação. O número de publicações semanais passou de aproximadamente 110 para 300, numa tentativa de ampliar a presença do presidente no ambiente digital.
Flávio Bolsonaro, por outro lado, manteve uma frequência menor de publicações e chegou a reduzir o ritmo para 56 postagens semanais depois do primeiro turno.
Com a mudança de estratégia, Lula ultrapassou o adversário em interações na semana de 31 de agosto e permaneceu à frente até o encerramento da série analisada.
O crescimento do presidente no Instagram também foi associado à mobilização em torno da proposta de redução da jornada de trabalho na escala 6×1 e à organização de manifestações realizadas no fim de semana.
Restrições eleitorais e atuação dos algoritmos
O levantamento também analisou o impacto das regras de distribuição de conteúdo político durante o processo eleitoral.
No primeiro turno, influenciadores de esquerda e direita apresentaram quedas de engajamento de 17% e 35%, respectivamente. Apesar da diferença numérica, a Bites classificou o resultado como um “empate”.
Segundo a análise, a redução generalizada das interações esteve relacionada às restrições à recomendação algorítmica de conteúdos eleitorais durante a campanha.
Com a limitação da distribuição para usuários que não acompanhavam diretamente os perfis, as publicações passaram a depender mais da própria base de seguidores e dos compartilhamentos realizados por apoiadores.
Na primeira semana do segundo turno, o engajamento voltou a crescer de maneira expressiva, impulsionado também pela atuação de influenciadores que haviam participado da disputa eleitoral.
Os dados, entretanto, não permitem determinar se houve favorecimento de algum grupo político pelas plataformas.
Na sexta-feira (16), a Meta reconheceu uma falha técnica que bloqueou temporariamente a conta de anúncios pagos do presidente por algumas horas.
O problema, porém, não interferiu nos resultados apresentados pela Bites, uma vez que o levantamento considera exclusivamente as interações orgânicas registradas em publicações públicas.
Pesquisa acompanhou 22 influenciadores políticos
A análise reuniu 22 perfis, sendo 13 identificados com a direita e nove com a esquerda.
No campo da extrema direita, foram acompanhados André Fernandes, Bia Kicis, Carlos Bolsonaro, Damares Alves, Deltan Dallagnol, Gustavo Gayer, Jeffrey Chiquini, Julia Zanatta, Kim Kataguiri, Lucas Pavanato, Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira e Marco Feliciano.
Entre os nomes classificados no campo da esquerda estão Ana Elisa, André Janones, Erika Hilton, Guilherme Boulos, Jones Manoel, Pedro Rousseff, Rick Azevedo, Sâmia Bomfim e Tabata Amaral.
O levantamento evidencia a capacidade de mobilização digital dos dois campos políticos, mas também mostra que a vantagem nas redes não permaneceu estática ao longo da campanha.
A virada registrada após o primeiro turno sugere uma reação organizada dos apoiadores de Lula, que passaram a interagir com maior intensidade nas publicações políticas.
Apesar disso, o volume de curtidas, comentários e compartilhamentos não representa necessariamente maior alcance entre eleitores indecisos nem pode ser interpretado como indicador direto de intenção de voto.







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