IBGE: 96% dos moradores de favelas vivem em ruas com calçadas obstruídas; Rio tem os piores índices

Levantamento revela desigualdade urbana, impacto sobre idosos e baixa oferta de rampas e pavimentação nas maiores comunidades do país

Novo levantamento divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira (5) mostra que a mobilidade urbana nas favelas brasileiras é amplamente comprometida. Em 2022, apenas 3,8% dos moradores dessas áreas viviam em trechos de ruas com calçadas livres de obstáculos. Em números absolutos, isso significa que, dos 16,1 milhões de brasileiros que residiam em favelas, somente 611,4 mil estavam em vias com circulação desimpedida.

Para os demais 96,2%, cerca de 15,5 milhões de pessoas, havia algum tipo de barreira — como entulho, buracos, postes mal posicionados, lixo ou mobiliário urbano inadequado — impedindo a passagem pelo espaço destinado aos pedestres.

O IBGE observou ainda que, quanto maior a favela, maior a incidência de obstáculos. Em comunidades pequenas, com até 250 moradores, o percentual de calçadas livres é o mais elevado dentro do conjunto geral, ainda que distante do ideal.

Rocinha e Rio das Pedras têm os piores índices do país

Na análise específica das 20 maiores favelas brasileiras, a disparidade entre regiões fica evidente. A comunidade Baixadas do Condor, em Belém, apresentou o melhor cenário, com 11% dos moradores vivendo em trechos sem obstáculos nas calçadas.

No extremo oposto, duas grandes favelas do Rio de Janeiro registraram os índices mais críticos: apenas 0,1% dos moradores da Rocinha e 0,3% de Rio das Pedras tinham acesso a calçadas livres, situação que o IBGE descreve como “bastante comprometida”.

Fora das comunidades, cidades como Niterói, São Paulo e Porto Alegre apresentaram as maiores diferenças percentuais entre a oferta de calçadas livres dentro e fora das favelas — 42,4 pontos percentuais em Niterói, 24,2 em São Paulo e 48,3 na capital gaúcha.

Desigualdade atinge especialmente idosos

O cenário é ainda mais grave para moradores com mais de 60 anos. Menos de 15% dos idosos que vivem em favelas tinham acesso a trechos de ruas sem obstáculos. Fora dessas áreas, o percentual é consideravelmente maior. Para o IBGE, essa realidade “impacta diretamente a mobilidade e a segurança da parcela mais envelhecida da população”, indicando risco ampliado de quedas, isolamento e dificuldade de acesso a serviços essenciais.

A pavimentação também apresenta grande desigualdade: enquanto 91,8% da população fora de favelas viviam em vias pavimentadas, nas comunidades esse percentual era de 78,3%.

Oferta de rampas para cadeirantes é quase inexistente

Outro dado alarmante diz respeito à acessibilidade. Em 2022, 97,6% dos moradores de favelas viviam em trechos sem rampas para cadeirantes. Isso representa 15,7 milhões de pessoas sem acesso ao recurso básico, amplamente disponível em áreas formais das cidades. Apenas 2,4% — cerca de 391 mil moradores — dispunham de rampas próximas às residências.

Fora das favelas, o índice chega a 18,5%.

As cidades mais críticas no recorte da falta de rampas dentro das favelas foram Campo Grande (0,8%) e São José dos Campos (0,9%). Em Campo Grande, o contraste com o restante da cidade impressiona: fora das favelas, 56,2% da população tinha acesso ao equipamento. Curitiba apresentou o melhor índice entre as capitais analisadas, com 11,7% das suas favelas oferecendo rampas de acessibilidade.

As maiores favelas do país e o alcance da desigualdade

O IBGE identificou, no Censo de 2022, um total de 12.348 favelas distribuídas por 656 municípios, somando mais de 16,3 milhões de moradores. A Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, continua sendo a maior favela do Brasil, com 72.021 habitantes. Logo atrás aparece Sol Nascente, no Distrito Federal, com 70.908 moradores, seguida por Paraisópolis, em São Paulo, com 58.527.

Os dados revelam que, além da densidade populacional, a infraestrutura urbana precária permanece como um dos principais fatores de desigualdade e exclusão no país.

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