Hospital da Uerj oferece tratamento gratuito para pacientes com dor crônica no Rio

Serviço do Hospital Universitário Pedro Ernesto atende casos de cefaleia, fibromialgia, artrite, reumatismo e problemas de coluna por meio do SUS e disponibiliza cem vagas mensais para novos pacientes

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Pacientes que convivem com cefaleia, fibromialgia, artrite reumatoide, reumatismo, problemas na coluna lombar e outras condições associadas à dor crônica podem receber tratamento gratuito no Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em Vila Isabel, na Zona Norte do Rio. O serviço é oferecido pela Clínica da Dor e pode ser acessado por meio de encaminhamento da rede pública de saúde.

Segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo, a unidade disponibiliza cem vagas por mês para novos pacientes. Somente entre janeiro e junho deste ano, 390 pessoas passaram pela primeira consulta. O atendimento é destinado a pacientes encaminhados pelas Unidades Básicas de Saúde, Clínicas da Família ou Centros Municipais de Saúde, com agendamento pelo Sistema Nacional de Regulação (Sisreg) ou pelo Sistema Estadual de Regulação (SER).

O tratamento reúne diferentes especialidades e busca enfrentar não apenas a manifestação física da dor, mas também seus efeitos sobre a saúde mental, a rotina e a capacidade funcional dos pacientes.

Segundo o médico Nivaldo Ribeiro Villela, coordenador da Clínica da Dor e professor associado de Neurocirurgia e Dor da Uerj, cerca de 35% da população adulta brasileira convive com dor crônica, caracterizada pela persistência dos sintomas por mais de três meses.

Tratamento vai além dos medicamentos

A Clínica da Dor trabalha com uma equipe formada atualmente por 18 profissionais: oito médicos especialistas em dor, duas psicólogas, um psiquiatra, uma enfermeira, dois técnicos de enfermagem, dois fisioterapeutas e dois educadores físicos.

O acompanhamento pode envolver medicamentos, fisioterapia, psicologia, exercícios físicos, procedimentos intervencionistas e estratégias para que o próprio paciente aprenda a controlar melhor os efeitos da condição no cotidiano.

“A dor crônica tem três dimensões. Uma é afetiva, outra é cognitiva e outra é sensitiva”, explica Villela ao Globo.

A dimensão sensitiva corresponde à percepção física da dor. A afetiva está relacionada a consequências emocionais, entre elas ansiedade e depressão. Já a dimensão cognitiva envolve a maneira como a pessoa interpreta a própria condição e passa a organizar seus comportamentos a partir dela.

De acordo com Villela, a intensidade sentida pelo paciente nem sempre corresponde à gravidade de uma lesão. O receio de desencadear novas crises pode, por exemplo, fazer com que algumas pessoas deixem de praticar exercícios, reduzam atividades cotidianas e se afastem do trabalho ou do convívio social.

A relação com a saúde mental é outro ponto de atenção. Em um estudo realizado pela equipe com aproximadamente dois mil pacientes da atenção primária que apresentavam dor não controlada, cerca de metade tinha sintomas graves de depressão.

Paciente reduziu de 20 para cinco doses de remédio por mês

Michelle Moreira da Silva, de 41 anos, conhece os impactos da dor crônica sobre a rotina. Ela já apresentava episódios de dor de cabeça, mas o problema se tornou crônico em 2016. As crises passaram de aproximadamente três episódios semanais para manifestações diárias.

“Eu vivia a minha rotina normalmente, mas me sentia sempre muito cansada. Era um peso. Qualquer coisa que eu tinha que fazer no meu dia ficava mais pesada. Eu me arrastava”, conta a paciente à reportagem.

Michelle continuou trabalhando e realizando as tarefas diárias, embora com maior esforço. Ela também convive com ansiedade e passou por dois episódios de depressão. Atualmente, além do acompanhamento na Clínica da Dor, faz terapia, pratica exercícios físicos e mantém uma rotina de meditação.

Entre os tratamentos realizados pela paciente está a estimulação magnética transcraniana. Michelle relata que percebeu melhora principalmente na intensidade das crises. Antes, utilizava cerca de 20 doses mensais de uma medicação para controlar a cefaleia.

“Hoje, quando a crise começa, não necessariamente preciso tomar um remédio. Eu usava esse medicamento umas 20 vezes no mês. Agora, tomo no máximo cinco”, afirma.

O fisioterapeuta Flávio Flutt, responsável pelo procedimento, explica que a técnica utiliza uma bobina para produzir um campo magnético capaz de estimular áreas específicas do cérebro.

Segundo ele, o recurso pode ser particularmente útil quando a intensidade da dor impede o paciente de aderir a outras formas de tratamento.

“A gente usa justamente naquelas pessoas que têm aquela dor nível 10, que não conseguem nem entrar num programa de atividade física. A pessoa desce de 10 para 8, 7 ou 6, e isso permite que consiga ter melhora nos outros tratamentos”, diz.

Além da estimulação magnética transcraniana, a estrutura permite a realização de infiltrações, bloqueios e infusão de medicamentos.

Paciente aprende estratégias para controlar a dor

Uma das características do modelo adotado pela Uerj é a atuação integrada de profissionais de diferentes áreas. Ao chegar ao ambulatório, o paciente passa inicialmente pela equipe de enfermagem e responde a questionários que medem fatores como incapacidade, ansiedade e depressão. A partir dessa avaliação, os médicos definem as estratégias mais adequadas para cada caso.

O serviço oferece ainda um grupo de autogerenciamento, com duração de sete semanas e turmas de até dez participantes. Os encontros são conduzidos por profissionais de psicologia, fisioterapia e educação física.

A psicóloga Fernanda Pereira, professora da Faculdade de Medicina da Uerj e integrante da equipe, explica que o modelo procura evitar que o tratamento seja fragmentado.

“Geralmente, os pacientes buscam o médico, depois procuram o fisioterapeuta, o psicólogo, o psiquiatra. Aqui, atuamos juntos”, afirma ao Globo.

Durante as atividades, são utilizadas técnicas baseadas em terapia cognitivo-comportamental, exercícios físicos e relaxamento muscular. Os profissionais também trabalham questões relacionadas à ansiedade, qualidade do sono e retomada de atividades prazerosas.

O paciente recebe ainda orientações para compreender melhor a influência de fatores como estresse, ansiedade e isolamento social sobre a experiência da dor. A atividade física é retomada gradualmente, de acordo com as condições de cada pessoa.

Outra parte do processo envolve habilidades cotidianas, como aprender a pedir ajuda, estabelecer limites e comunicar necessidades. O objetivo é permitir que as estratégias sejam incorporadas à rotina mesmo depois do encerramento das atividades na clínica.

“Ele aprende estratégias que possa e deva treinar no seu dia a dia para que não fique, por exemplo, dependendo de um fisioterapeuta para sempre. A gente oferece estratégias que sejam viáveis dentro do contexto de vida desses pacientes”, diz Fernanda.

Ao final das sete semanas, os questionários realizados na entrada são aplicados novamente. O paciente retorna então ao ambulatório, onde o médico pode ajustar medicamentos, modificar doses ou indicar outras estratégias antes de encaminhá-lo de volta para acompanhamento pela atenção primária.

Mais de cinco mil pacientes atendidos pelo modelo

O atual formato multidisciplinar da Clínica da Dor começou a ser estruturado em 2019, a partir de uma articulação entre a Uerj, o Hospital Universitário Pedro Ernesto e a Secretaria de Estado de Saúde.

Desde então, mais de cinco mil pacientes passaram pelo modelo de atendimento.

A proposta, segundo o coordenador da clínica, não é manter indefinidamente as pessoas em tratamento dentro do hospital universitário. O serviço especializado busca estabilizar os quadros, oferecer ferramentas para melhorar a qualidade de vida e, posteriormente, permitir que o acompanhamento prossiga na rede básica de saúde.

Para Michelle, a cefaleia não desapareceu completamente, mas deixou de determinar sua rotina como ocorria antes do tratamento.

“Tenho uma dor que afeta, mas não incapacita as minhas atividades”, resume ela.

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