Guinada à extrema direita: apoiador de Trump eleito na Colômbia toma posse hoje fora de Bogotá

Abelardo de la Espriella toma posse como presidente da Colômbia nesta sexta-feira em Cali, em cerimônia inédita fora de Bogotá, e promete mudanças na segurança, economia e política energética

A Colômbia inicia nesta sexta-feira (7) um novo ciclo político com a posse de Abelardo de la Espriella na Presidência. Advogado e empresário de 47 anos, o político de extrema direita assumirá o comando do país em uma cerimônia realizada em Cali, no sudoeste colombiano, rompendo uma tradição de décadas de posses presidenciais em Bogotá.

A transferência do evento exigiu autorização do Congresso, que aprovou a mudança temporária de suas atividades para um auditório universitário em Cali. A decisão provocou resistência de parlamentares de esquerda, que votaram contra a medida, anunciaram boicote à solenidade e convocaram manifestações em diferentes cidades.

A escolha de Cali foi resultado de uma disputa política que se estendeu pelas semanas seguintes à eleição. Espriella chegou a defender que a posse ocorresse em uma base militar no departamento de Cauca, proposta que enfrentou oposição do presidente Gustavo Petro.

Diante do impasse, a equipe do presidente eleito abandonou a ideia da instalação militar e optou pelo auditório universitário.

A mudança do local dá caráter simbólico a uma posse que também representa uma alteração significativa nos rumos políticos da Colômbia. Espriella venceu as eleições de junho com um programa de extrema direita linha dura na segurança pública, encerrando o ciclo de governo de Petro.

Vitória apertada sobre candidato apoiado por Petro

Espriella chegou à Presidência depois de uma disputa acirrada contra o senador de esquerda Iván Cepeda, aliado de Petro.

A apuração preliminar indicou uma diferença de aproximadamente 250 mil votos a favor do candidato de direita, vantagem posteriormente confirmada pelas autoridades eleitorais.

O período posterior à votação, entretanto, foi marcado por tensão. Petro levantou questionamentos sobre o resultado durante o processo de apuração e também entrou em conflito com o sucessor em torno do local escolhido para a posse.

A chegada de Espriella ao poder representa uma mudança de orientação depois do governo de esquerda de Petro. Durante a campanha, o advogado procurou apresentar-se como um candidato “antissistema” e fez da oposição à esquerda um dos principais elementos de seu discurso eleitoral.

Também estabeleceu forte identificação com líderes da extrema direita internacional, principalmente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de quem recebeu apoio explícito durante a campanha, e o presidente argentino Javier Milei.

O alinhamento político deverá aproximar Bogotá de governos de direita da região e poderá produzir mudanças tanto na política doméstica quanto nas relações internacionais colombianas.

Segurança e austeridade estão entre prioridades

O combate à violência será uma das primeiras áreas nas quais Espriella pretende imprimir sua marca.

Durante a campanha, o presidente eleito prometeu endurecer a ofensiva contra o crime organizado e revisar a estratégia adotada pelo governo Petro para enfrentar grupos armados que continuam atuando em diferentes regiões do país.

Entre as medidas já anunciadas está a criação de uma força especial destinada ao combate à criminalidade urbana.

As propostas de Espriella para a segurança foram associadas durante a campanha ao modelo adotado em El Salvador, onde o governo ampliou significativamente o poder das forças de segurança e promoveu prisões em massa no enfrentamento às organizações criminosas. A estratégia salvadorenha reduziu fortemente indicadores de violência, mas também recebeu críticas de organizações de direitos humanos.

Na economia, o novo presidente promete reduzir gastos públicos e diminuir a estrutura estatal.

Espriella anunciou um programa de austeridade que inclui a revisão da representação diplomática colombiana no exterior e o fechamento de embaixadas e consulados considerados não essenciais.

Outra mudança importante deverá ocorrer na política energética. Enquanto Petro procurou reduzir a dependência colombiana dos combustíveis fósseis, seu sucessor defende ampliar a exploração de petróleo.

Minoria no Congresso será primeiro desafio

A vitória eleitoral não garantiu a Espriella uma maioria parlamentar. O novo presidente assumirá com uma base minoritária no Congresso e dependerá de negociações com outras forças políticas para transformar suas principais promessas de campanha em leis.

Esse poderá ser um dos maiores obstáculos no início da administração.

Medidas relacionadas a cortes de despesas, reformas do Estado, segurança e mudanças na política energética deverão passar pelo Legislativo e poderão enfrentar resistência dos partidos de esquerda e de setores que não integram formalmente a coalizão governista.

Espriella já indicou que poderá utilizar decretos para implementar parte de seu programa caso encontre obstáculos no Congresso. O alcance dessa estratégia, entretanto, estará condicionado aos limites estabelecidos pela Constituição e pelo sistema institucional colombiano.

O passado profissional do novo presidente também deverá permanecer sob escrutínio. Antes de entrar na política, Espriella tornou-se conhecido pela atuação como advogado e foi criticado por representar clientes controversos.

Seus adversários também questionam a retórica de confronto adotada durante a campanha e as propostas de linha dura na segurança. Os apoiadores, em sentido contrário, apresentam o novo presidente como um outsider capaz de combater a violência e estimular a economia.

A posse em Cali, portanto, ocorre em um ambiente de forte polarização.

Enquanto apoiadores celebram a chegada de um governo que promete romper com as políticas de Petro, setores da esquerda organizam manifestações e parte dos parlamentares decidiu não participar da cerimônia.

A partir desta sexta-feira, o principal teste para Espriella será transformar a vitória eleitoral em capacidade de governo. Sem maioria no Congresso e diante de uma oposição mobilizada, o novo presidente precisará decidir até que ponto buscará acordos políticos ou tentará avançar por meio de instrumentos do Executivo.

A cerimônia fora de Bogotá funcionará como o primeiro símbolo da ruptura prometida durante a campanha. Os próximos meses mostrarão até onde Espriella conseguirá levar a guinada à direita anunciada aos eleitores colombianos.

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