A Rockbridge Network, grupo privado americano ligado à extrema direita dos Estados Unidos e cofundado pelo vice-presidente J.D. Vance, iniciou uma aproximação com empresários e políticos brasileiros nos últimos meses. A informação é da Folha de São Paulo, que teve acesso a documentos que mostram que chegou a ser estruturada uma proposta para criar uma operação da rede no país, com categorias de associação que previam contribuições de até US$ 1 milhão por ano e acesso a encontros fechados com empresários e políticos.
O projeto, porém, não avançou. Segundo a própria Rockbridge, a entidade jurídica criada nos Estados Unidos para viabilizar uma eventual operação brasileira nunca recebeu recursos nem entrou em funcionamento.
Um dos documentos que circulou no Brasil apresentava duas categorias de participação: Keystone, com contribuição anual de US$ 500 mil, e Visionary, de US$ 1 milhão.
Os pagamentos poderiam ser feitos em dinheiro, criptomoedas, ações ou por meio de estruturas corporativas e trustes. Em troca, os integrantes teriam acesso a encontros fechados, dois eventos anuais e videoconferências.
A categoria mais cara previa ainda um assento em um conselho estratégico da Rockbridge Brasil e participação em reuniões descritas como exclusivas, incluindo encontros com grandes doadores e políticos estrangeiros.
Plataforma para atuar na infraestrutura política do Brasil
Outro documento definia a eventual Rockbridge Brasil como uma espécie de estrutura de investimentos voltada à criação de uma plataforma para atuar na infraestrutura política e social brasileira.
A proposta previa três frentes principais: mídia, formação de jovens e atividade legislativa. Entre as ideias estavam apoiar veículos conservadores, financiar iniciativas em universidades e fornecer pesquisas e dados a parlamentares de direita.
Conselho de tecnologia previa participação de estrangeiros
A proposta previa um conselho com 23 integrantes, sendo 19 estrangeiros ligados ao setor de tecnologia, investimentos e infraestrutura.
Entre os nomes citados estavam Peter Thiel, cofundador do PayPal e da Palantir; Joe Lonsdale, da 8VC; Rebekah Mercer; e executivos ligados a empresas de tecnologia e inteligência artificial.
O documento estimava que o projeto poderia gerar mais de US$ 100 bilhões em impacto econômico ao longo de dez anos, além de mais de 500 mil empregos. As projeções, no entanto, faziam parte da própria proposta e não chegaram a ser testadas por uma estrutura efetivamente constituída.
Quatro brasileiros eram indicados para o conselho: Talles Gomes, Mario Araripe, David Peixoto e Pedro Sang. À Folha de São Paulo, Gomes afirmou que o conselho de tecnologia nunca saiu do papel. A assessoria de David Peixoto também negou que ele tenha participado da iniciativa ou autorizado a associação de seu nome ao projeto.
Pedro Sang disse que foi apresentado à Rockbridge, mas afirmou que não se associou formalmente ao grupo. Segundo ele, a iniciativa foi suspensa em maio.
Rockbridge nega atuação política no Brasil
Em nota, a assessoria da Rockbridge nos Estados Unidos afirmou que a entidade brasileira foi criada apenas para uma eventual expansão da rede, mas que o projeto foi posteriormente rejeitado.
A organização também negou ter planejado participação política no Brasil. Segundo a nota, a proposta seria a criação de um fórum empresarial.
A Rockbridge afirmou ainda que brasileiros produziram documentos que faziam referência à organização sem seu conhecimento ou autorização e que algumas declarações sobre a relação com o grupo seriam falsas.
Rede entrou no centro de polêmica eleitoral
A Rockbridge passou a ganhar maior atenção no Brasil após o candidato à Presidência Renan Santos (Missão) afirmar que integrantes da rede estariam interessados em apoiar a campanha de Flávio Bolsonaro.
Renan também afirmou que Talles Gomes e Pedro Sang teriam interesse na exploração de terras raras brasileiras em um eventual governo de Flávio. Os dois negaram a acusação.
Talles Gomes afirmou que nunca houve, por seu intermédio ou com seu conhecimento, recursos estrangeiros destinados à campanha eleitoral brasileira.
A declaração de Renan provocou reações na Justiça. O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) pediu ao STF uma investigação sobre a possibilidade de financiamento estrangeiro da campanha de Flávio Bolsonaro. O PT também protocolou pedido para que seja aberto inquérito sobre o caso.







Deixe um comentário