Governo teme que Flávio use fuga do Brasil para ampliar discurso de ‘perseguição política’

Entorno de Lula avalia que apoio de Trump ao senador pode aumentar a tensão diplomática e alimentar questionamentos sobre a eleição

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A fuga de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil após a derrota na disputa presidencial acendeu um alerta no governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A preocupação é que o senador encontre respaldo nos Estados Unidos para ampliar internacionalmente o discurso de perseguição política e alimentar tensões no cenário pós-eleitoral.

No entorno de Lula, a avaliação é que manifestações de apoio do presidente dos EUA, Donald Trump, e de integrantes de sua administração podem provocar novos atritos entre os dois países. O temor ganhou força depois que Trump voltou a questionar, sem apresentar provas, a lisura das eleições brasileiras. As informações forma publicadas pela colunista Jussara Soares, no portal da CNN Brasil.

Trajeto passou pela Argentina

Segundo o governo argentino, Flávio entrou no país por via terrestre na noite de terça-feira (27), acompanhado da mulher e das duas filhas. Depois, embarcou em um avião privado que fez escala no Equador e seguiu para os Estados Unidos.

Um funcionário sênior do Departamento de Estado dos EUA informou que o órgão emitirá vistos para o senador e seus familiares e permitirá a entrada deles no país.

As informações das autoridades argentinas diferem dos relatos de aliados de Flávio e de fontes ligadas ao governo estadunidense, que, ao longo de terça-feira, afirmaram que ele já havia chegado aos Estados Unidos.

Decisão de Moraes gera críticas entre governistas

A determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para apreender os passaportes do senador também provocou críticas no entorno de Lula. A ordem foi expedida no domingo (25), após a confirmação do resultado eleitoral.

Entre governistas, a medida é considerada precipitada e desnecessária, por oferecer à oposição um argumento para sustentar acusações de perseguição à família Bolsonaro.

A percepção é que a decisão criou um desgaste evitável após Lula reverter a vantagem de Flávio no primeiro turno, conquistar mais de 10 milhões de votos adicionais e vencer por uma diferença de 4,4 milhões de votos.

Trump questiona resultado sem provas

Durante um comício no Texas, na terça-feira, Trump comparou a eleição brasileira às acusações de fraude que dirige aos democratas de seu país.

“Eles fraudam muito bem (os democratas). São os maiores fraudadores de eleições da história. Embora o Brasil também esteja fazendo um bom trabalho nisso, não é? Eu não tomei partido, não gostei, não me pareceu muito bom”, afirmou Trump.

Na segunda-feira (26), o presidente dos EUA já havia colocado o resultado em dúvida e criticado a prorrogação do horário de votação no segundo turno.

“Não tomei partido, mas pareceu mais uma eleição fraudada”, disse.

Eduardo havia defendido saída do irmão

Nos Estados Unidos desde março de 2025, Eduardo Bolsonaro também sustenta que sofre perseguição judicial no Brasil. O ex-deputado foi condenado pelo STF por coação no curso do processo, em razão de sua atuação junto a autoridades estadunidenses para pressionar integrantes da Corte.

Dois dias antes do segundo turno, em entrevista ao podcast “CrowderBits”, Eduardo questionou o funcionamento das urnas eletrônicas e recomendou que o irmão deixasse o país se perdesse a eleição.

“Se meu irmão não ganhar, eu sou a favor de que meu irmão saia do país. Com certeza”, afirmou Eduardo em declaração ao podcast.

Outro aliado nos Estados Unidos é o ex-deputado Alexandre Ramagem, condenado pelo STF no processo sobre a tentativa de golpe de Estado. Ele chegou a ser detido pelo serviço de imigração (ICE) em abril, mas foi liberado dois dias depois por determinação do Departamento de Estado.

Passaportes foram cancelados pela PF

A saída de Flávio ocorreu após sua intimação para entregar os passaportes à Polícia Federal. A ordem de Moraes atendeu a um pedido da corporação, que apontou risco de fuga e citou tanto a declaração de Eduardo quanto a saída do advogado Willer Tomaz, investigado no mesmo inquérito.

Intimado na segunda-feira, o senador não apresentou os documentos no prazo estabelecido. A PF cancelou seus passaportes comum e diplomático ao meio-dia de terça-feira.

Flávio é investigado por suspeitas relacionadas a Willer Tomaz e ao financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Uma das apurações busca esclarecer o destino de recursos atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro e se parte deles custeou despesas de Eduardo nos Estados Unidos. O senador nega irregularidades.

O episódio remete à viagem de Jair Bolsonaro aos Estados Unidos em dezembro de 2022, antes da posse de Lula. A situação judicial, porém, era diferente: naquele momento, o ex-presidente ainda não era investigado no inquérito sobre a tentativa de golpe.

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