Gestor que denunciou fraudes no Master pede ao STF inclusão em programa de proteção a vítimas

Defesa de Vladimir Timerman, fundador da Esh Capital, afirma que ele foi monitorado por grupo ligado a Daniel Vorcaro e aponta risco crescente a sua integridade física

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O fundador e gestor da Esh Capital, Vladimir Timerman, recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para pedir proteção diante do que sua defesa classifica como risco “crescente” à sua integridade física, informa a colunista do Globo Malu Gaspar. Em petição apresentada na terça-feira (12), ele solicita sua inclusão no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita) e novas diligências para identificar quem estaria por trás de mensagens consideradas ameaçadoras encontradas pela Polícia Federal (PF).

A iniciativa ocorre após a PF identificar indícios de que Daniel Vorcaro, ex-CEO do Banco Master, e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”, monitoraram ilegalmente Timerman. O gestor da Esh denunciou supostas irregularidades envolvendo operações do Master e mantém disputas judiciais relacionadas ao caso.

Sicário, que se matou após ser preso pela PF em março, é apontado pelos investigadores como operador do grupo chamado “A Turma”, descrito na investigação como uma milícia privada que atuaria a mando de Vorcaro.

Na petição encaminhada ao relator do caso no Supremo, ministro André Mendonça, a defesa de Timerman pede que a PF investigue também se o grupo teria atuado sob ordens do empresário Nelson Tanure. Tanure é apontado pela PF e pelo Ministério Público Federal (MPF) como possível sócio oculto do Banco Master, hipótese negada por ele.

Disputas judiciais e pedido de proteção

A relação entre Timerman e Tanure é marcada por uma série de embates judiciais. Os conflitos ganharam força depois que o fundador da Esh passou a denunciar supostas irregularidades em operações com papéis da antiga Alliar e da Gafisa, realizadas por Tanure com participação do Master.

Em um desses processos, Timerman foi condenado pela Justiça de São Paulo, em 2025, por stalking contra Tanure. A decisão é contestada pelo gestor. Timerman, por sua vez, afirma ser perseguido e também moveu processo contra o empresário.

No pedido enviado ao STF, a defesa afirma que Timerman manifestou formalmente preocupação com sua integridade física em quatro oportunidades desde 2024. Segundo os advogados, um primeiro pedido para ingresso no Provita foi apresentado em março deste ano, mas nenhuma diligência teria sido realizada.

Um dos principais elementos citados no documento é uma conversa entre Vorcaro e Sicário, de agosto de 2024, obtida pelos investigadores. Nela, Sicário menciona uma “medida mais drástica contra Vladimir” e “contra o advogado”.

“Consegue falar com a Turma mais tarde? Tipo umas 15:00 estarei com eles lá na sede. Aí deixamos tudo ajustado com ele e a forma como você quer que eles façam”, escreveu Sicário.

Na sequência, Vorcaro encaminhou uma mensagem, identificada pelo WhatsApp com o selo de conteúdo encaminhado:

“E tem que mandar a turma pra SP pra matar esses negócios. Tá ridículo esse cara aqui”.

Timerman mora em São Paulo. De acordo com mensagens reunidas pela PF e citadas pela defesa, dados pessoais do gestor teriam sido rastreados pelo grupo e ele teria sido monitorado durante 24 horas por dia.

Defesa quer identificar origem de mensagem

Um dos pontos explorados pelos advogados de Timerman é justamente o fato de a mensagem enviada por Vorcaro aparecer como “encaminhada”. A defesa sustenta que Vorcaro “não é o autor das mensagens que enviou” e afirma que o selo do WhatsApp “leva a crer que Daniel Vorcaro, em tese, estaria agindo em benefício ou a mando” de outra pessoa.

Os advogados também sustentam que “A Turma” poderia não ser de “uso e benefício exclusivo” de Vorcaro. É nesse contexto que pedem à Polícia Federal que apure eventual relação com Tanure.

“O peticionante acredita, a partir de sua análise técnica, que Nelson Tanure seja um beneficiário final das operações realizadas pelo Banco Master, assim como crê que tudo que sofreu nos últimos quatro anos foi conduzido com auxílio da Turma de Daniel Vorcaro, e a d. Autoridade Policial deve apurar se, efetivamente, agia sempre a mando de Nelson Tanure”, diz o documento assinado pelo advogado Cássio de Assis.

A defesa de Tanure rejeita essa associação. Em nota, afirmou que o empresário “jamais havia ouvido falar no nome” de Luiz Phillipi Mourão e que tomou conhecimento da existência de Sicário somente “depois das informações veiculadas sobre ele na própria imprensa”.

Também ressaltou que Tanure “não é parte dos autos da investigação que tramita sob sigilo no STF sobre esse tema”.

Sobre os processos contra Timerman, a defesa acrescentou que Tanure “em todas as oportunidades que seus direitos foram violados, recorreu ao Poder Judiciário, de forma responsável e seguindo o devido processo legal”.

Procurado, Timerman não retornou. O espaço segue aberto.

Além da inclusão no programa de proteção, os advogados querem que os investigadores identifiquem quem teria enviado originalmente a mensagem posteriormente encaminhada por Vorcaro. Caso o interlocutor seja descoberto, a defesa pede sua prisão preventiva.

A petição sustenta ainda que a morte de Sicário tornou mais difícil esclarecer a origem das mensagens e, por isso, considera “a prova documental e a oitiva de Vladimir insubstituíveis e urgentes”.

Segundo Assis, a própria decisão que determinou as prisões de Vorcaro e Sicário havia destacado riscos à “segurança e à própria vida” de alvos enquanto o chamado “braço armado” não fosse neutralizado. A defesa também menciona registros de ameaças de morte atribuídas a sete integrantes do grupo contra outras pessoas, sem relação com Timerman, como argumento para reforçar o pedido de proteção.

Possível elo com a Compliance Zero

A chegada do caso ao Supremo decorre de uma decisão tomada em março pela 4ª Vara Federal Criminal de São Paulo. Dois inquéritos abertos a partir de denúncias apresentadas por Timerman contra Tanure foram enviados à Corte para que fosse analisada uma eventual conexão com a Compliance Zero.

A defesa de Timerman pede que a Procuradoria-Geral da República (PGR) seja chamada a se manifestar e que o STF reconheça sua competência para analisar os casos.

Para sustentar a hipótese de ligação entre Tanure e as ações atribuídas a Vorcaro e Sicário, os advogados apresentam três linhas de argumentação.

Uma delas envolve o acesso a documentos de investigações relacionadas à Gafisa. Timerman acusou fundos ligados ao Master e a Tanure de manipular operações fraudulentas na companhia, denúncias que levaram à abertura de investigação na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Segundo a defesa, Tanure pediu acesso aos autos em outubro de 2024, enquanto Vorcaro já teria os documentos oito meses antes, em fevereiro. No inquérito envolvendo o Master, Tanure solicitou acesso em junho de 2025, enquanto Vorcaro e Sicário, segundo informações tornadas públicas sobre a investigação, já acessariam documentos sigilosos havia cerca de um ano.

“Não se pode descartar a hipótese de Tanure ter conhecimento da existência das investigações por uso do mecanismo de Daniel Vorcaro”, argumenta a defesa de Timerman.

Outro ponto citado são mensagens marcadas como “encaminhada” e compartilhadas por Vorcaro com Sicário em dezembro de 2023. Elas continham dossiês relacionados à Esh Capital.

De acordo com a petição, os nomes dos arquivos indicariam que o material foi produzido nos dias 27 e 30 de janeiro de 2023. A primeira denúncia de Timerman contra o Banco Master, porém, teria sido apresentada somente em março daquele ano.

“Como, em janeiro de 2023, inexistia conflito entre o peticionante e o Sr. Vorcaro — cujo antagonismo somente surgiria a partir da notícia de fato contra o Banco Master —, a posse, por este, de dossiê de ataque e devassa patrimonial produzido no período em que o único antagonismo do peticionante se dava com Nelson Tanure e Gafisa indica possível compartilhamento de inteligência entre os dois grupos”, diz trecho da petição.

Condenação por stalking entra no centro da discussão

A terceira linha apresentada ao Supremo se baseia em uma conversa de abril de 2025. Nela, segundo a defesa, Vorcaro encaminha uma publicação com denúncias contra o Master e atribui o conteúdo a um “perfil disfarçado” de Timerman. O gestor nega ser responsável pelo perfil.

Vorcaro teria determinado então a Sicário “ir pra cima [para] tomar [apreender] telefone”.

O interlocutor respondeu:

“Pedi para puxar os dados (…) pois ele não pode fazer isto pois tem a condenação. Mandei tomar tel [telefone] dele e ir pra cima com tudo”.

Para a defesa de Timerman, a referência à “condenação” seria relacionada ao processo por stalking movido por Tanure e decidido no mês anterior. Os advogados consideram a conversa relevante porque aquela ação judicial não tinha relação direta com o Banco Master ou com Vorcaro.

A defesa de Nelson Tanure, por outro lado, enfatiza que a condenação de Timerman foi confirmada por unanimidade pela 10ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo em 21 de maio de 2026.

Na nota encaminhada à imprensa, os advogados de Tanure afirmam ainda que o empresário não é sócio e “jamais estabeleceu qualquer modalidade de participação societária no BANCO MASTER S/A”, sustentando que ele manteve apenas relação de cliente com a instituição.

A defesa também cita decisões judiciais envolvendo Timerman e afirma que os episódios reforçam sua versão sobre as disputas travadas entre os dois empresários.

Agora caberá ao STF analisar tanto o pedido de proteção apresentado pelo fundador da Esh Capital quanto as demais solicitações feitas por seus advogados. Não há prazo para que o Supremo decida sobre os requerimentos.

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