Fundo ligado a dono do Banco Master movimentou R$ 35 milhões em resort com participação de Toffoli

Extratos e mensagens obtidos pela PF indicam aportes simultâneos à entrada de fundo no empreendimento Tayayá, no Paraná

O fundo de investimentos utilizado pelo empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, para adquirir parte da participação do ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli no resort Tayayá, no Paraná, movimentou R$ 35 milhões, segundo extratos obtidos pelo Estadão. As informações constam em documentos que também embasam investigação da Polícia Federal.

Os registros financeiros indicam que os aportes ocorreram em datas coincidentes com a formalização da sociedade entre o fundo e a empresa do ministro. As movimentações também dialogam com mensagens interceptadas pela PF, nas quais Vorcaro cobra repasses e solicita aplicações milionárias ao empreendimento.

Estrutura dos fundos e entrada no resort

De acordo com a apuração, o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, era o único cotista do fundo Leal, administrado pela Reag Investimentos, empresa também investigada no caso Master. O Leal, por sua vez, é o único cotista do FIP Arleen, veículo utilizado para comprar a participação da família Toffoli no resort.

Em 27 de setembro de 2021, o fundo Arleen tornou-se sócio das empresas Tayaya Administração e DGEP Empreendimentos, responsáveis pela gestão e incorporação dos terrenos onde foi construído o resort Tayayá, em Ribeirão Claro, no Paraná.

Na ocasião, o fundo adquiriu metade da participação de R$ 6,6 milhões em capital social da Maridt S.A., empresa ligada a Toffoli, nas duas companhias. O valor correspondente foi de R$ 3,3 milhões em capital social.

Esse montante, porém, representa apenas a fração formal de capital da sociedade. Segundo os documentos, o investimento total do fundo no empreendimento chegou a R$ 35 milhões, em um resort avaliado em mais de R$ 200 milhões.

Aportes e mensagens

Os extratos mostram que, em 28 de outubro e 3 de novembro de 2021, Fabiano Zettel aportou R$ 15 milhões e R$ 5 milhões no fundo Leal. Nas mesmas datas, o Leal aplicou R$ 14.810.038,35 e R$ 4.936.679,35 no FIP Arleen.

Em janeiro, quando veio a público que Zettel era o cotista do Leal, o pastor afirmou ter deixado o fundo em 2022. No entanto, documentos e mensagens analisadas indicam que ele permaneceu como cotista e continuou realizando aportes no Tayayá por meio do fundo.

Em maio de 2024, Vorcaro enviou mensagem a Zettel questionando os repasses ao resort. “Você não resolveu o aporte do fundo Tayayá? Estou em situação ruim”, escreveu. O cunhado respondeu: “Te perguntei se poderia ser semana que vem e você disse que sim”.

Posteriormente, Zettel apresentou uma lista de pagamentos para aprovação. Em uma das linhas constava “Tayaya – 15”. Para a Polícia Federal, tratava-se de um repasse de R$ 15 milhões ao empreendimento. Vorcaro respondeu: “Paga tudo hoje”.

Em agosto de 2024, novas mensagens revelam cobrança sobre os pagamentos. “Aquele negócio do Tayayá não foi feito?”, perguntou o banqueiro. Zettel afirmou ter transferido o recurso ao intermediário responsável pelo pagamento final. Diante da resposta, Vorcaro reagiu: “Cara, me deu um puta problema. Onde tá a grana?”. O pastor respondeu: “No fundo dono do Tayayá. Transfiro as cotas dele”.

Em outra troca, Vorcaro pediu um balanço completo dos aportes. “Me fala tudo que já foi feito até hoje”. Zettel respondeu: “Pagamos 20 milhões lá atrás. Agora mais 15 milhões”.

Apesar do aporte de R$ 15 milhões realizado por Zettel no Leal em 8 de julho de 2024, o FIP Arleen só recebeu R$ 14.521.851,17 em 10 de fevereiro de 2025.

Venda de participação e saída da relatoria

No dia 21 de fevereiro de 2025, a Maridt S.A. vendeu o restante de sua participação nas empresas do resort à PHB Holding, do advogado Paulo Humberto Barbosa.

Um dia após a divulgação de relatório da Polícia Federal com menções a Toffoli nas conversas encontradas no celular de Vorcaro, o ministro deixou a relatoria do caso Master no Supremo. O inquérito foi redistribuído ao ministro André Mendonça.

Manifestação de Toffoli

Após a apresentação do relatório ao STF, Dias Toffoli divulgou nota admitindo ter recebido dividendos da empresa Maridt, mas negando qualquer pagamento de Vorcaro.

“A Maridt é uma empresa familiar, constituída na forma de sociedade anônima de capital fechado, prevista na Lei 6.404/76, devidamente registrada na Junta Comercial e com prestação de declarações anuais à Receita Federal do Brasil. Suas declarações à Receita Federal, bem como as de seus acionistas, sempre foram devidamente aprovadas.

O Ministro Dias Toffoli faz parte do quadro societário, sendo a referida empresa administrada por parentes do Ministro. De acordo com a Lei Orgânica da Magistratura, no artigo 36 da Lei Complementar 35/1979, o magistrado pode integrar o quadro societário de empresas e dela receber dividendos, sendo-lhe apenas vedado praticar atos de gestão na qualidade de administrador.”

A investigação prossegue sob análise do Supremo Tribunal Federal, com base nos documentos e mensagens obtidos pela Polícia Federal.

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