Fim da era Neymar e para onde vai o nosso futebol?

O imaginário de um craque que era acionado pelos torcedores esbarrava no jogador real que não era mais o que foi, nem o que poderia ter sido

*Por Filipe Mostaro

Há 44 anos, no mesmo dia 5 de julho, a seleção de 1982, última seleção brasileira que encantou o mundo, era eliminada. Uma derrota doída, impactante e que marcou a história do nosso futebol. Surgia ali um debate que criava uma falsa dualidade: é melhor jogar bem e perder ou jogar mal e ganhar?

A derrota para a Noruega em 2026, na mesma data, não traz a mesma dor. Não encantamos. Nossa realidade está cada vez mais distante do que idealizamos como o futebol-arte. Não nos preocupamos mais em jogá-lo.

Tivemos 11 ciclos desde 1982. Duas conquistas e nove eliminações. A pergunta nessas nove derrotas não se preocupou em questionar para onde vai o nosso futebol e se estamos jogando aquilo que classificamos como a nossa “essência”. Essa árvore com tanto frutos, apodreceu?

Logo após 1982, em um ciclo complicado, Telê Santana voltou para comandar a seleção na Copa de 1986. O último suspiro do que seria o “futebol-arte” encontrou a nossa primeira disputa de pênaltis nas Copas e perdemos para a França.

Mudanças para 1990 cobravam uma modernidade que o futebol brasileiro não estava acompanhando. Lazaroni veio, venceu a Copa América depois de 40 anos e se gabaritou para a Copa de 1990. Na melhor atuação da seleção na competição, Maradona, em um lance, deixou Caniggia frente a frente com Tafarel e fomos eliminados.

Na Copa de 1994, completaríamos 24 anos sem um título. A imagem do time espetacular e encantador de 1970, revisitada em 1982, ia se tornando distante. Uma geração inteira já não sabia o que era ser campeão do mundo no país do futebol.

Um time pragmático, com controle do jogo pela posse de bola, paciente e com um craque que seguia a dinastia de Leônidas, Zizinho, Didi, Pelé, Garrincha, Gérson, Tostão, Rivelino, Zico e Falcão, chega aos EUA para acabar com esse jejum. Hoje, pouco se fala da pressão e das críticas que o time sofreu por não jogar como o time de 1982.

O tetra veio e o alívio de voltar a vencer uma copa, deixou à sombra a discussão sobre como estávamos jogando. O importante foi vencer. O talento estaria representado por Romário e Bebeto, decisivos no título. A objetividade, pragmatismo e organização simbolizados em Dunga.

Fomos para mais um ciclo e chegamos a mais uma final de Copa. Perdemos. E os eventos pré-final sobre Ronaldo se tornaram o foco de discussão. Muita coisa veio à tona, até mesmo uma CPI sobre o contrato entre CBF e Nike foi criada no Congresso. Os bastidores do futebol brasileiro vieram para a frente do palco. Mais um ciclo conturbado, muitas polêmicas e a confiança de Felipão em dois grandes talentos (Ronaldo e Rivaldo) era a única conexão com o modo brasileiro de encantar o mundo através do futebol.

A Copa de 2002 foi tensa, com a consagração de Ronaldo e o penta campeonato dando lugar ao futebol encantador. Vencemos mais uma e ninguém conseguiria nos alcançar mais. Mesmo com uma necessária organização do futebol e clubes endividados, a CBF tinha a certeza de que a produção de craques seria uma árvore que jamais pararia de render seus frutos salvadores.

O ciclo até a Copa de 2006 foi navegar em águas calmas e tranquilas. A quantidade de craques dava essa tranquilidade de que seríamos hexa e que, enfim, iriamos novamente encantar o mundo com um “quadrado mágico” de jogadores.

A Copa de 2006 inaugura um novo marco do Brasil nas Copas: jogadores que não queriam ganhar. Ou melhor, não se preocupavam se não ganhassem. Seria a Copa de recordes pessoais: maior número de jogos em Copas, maior o número de gols. A família unida de 2002 dá lugar a um individualismo e a magia prometida no ciclo não saiu de nenhuma cartola de um time recheado de craques.

A dor da derrota de 1982 de ser eliminado da Copa com um time quase imbatível poderia ser reconstruída. Mas a falta de empenho dos jogadores não mobilizou esse sentimento. A derrota estimulou a pergunta absurda e inédita: por que os jogadores não querem mais jogar na seleção?

Para solucionar esse questionamento, o símbolo da paixão de jogar pela seleção foi chamado. Dunga assume a seleção, forma um time competitivo, com a sua identidade e chega na Copa de 2010 com os últimos frutos dessa árvore que secava sua produção de genialidade. E ninguém percebia que estava secando. Dunga leva Kaká e Robinho, mas não leva Neymar e Paulo Henrique Ganso. Uma derrota para a Holanda e a chuva de críticas foi uma nuvem estacionada em cima de Dunga.

A próxima Copa seria no Brasil e mais do que jogar um futebol parecido com o futebol-arte, era necessário superar o trauma de 1950. O descrédito na equipe e na geração comandada por Neymar trouxe de volta a seleção os dois últimos campeões do mundo: Parreira e Felipão. O final dessa Copa foi o vergonhoso 7 a 1.

Meu amigo Edison Gastaldo, antropólogo e pesquisador sobre Copa do Mundo, definiu essas duas edições de Copa no Brasil como “Nascimento (1950) e morte do futebol brasileiro (2014)”. Confesso que achei exagero. Mas, a cada Copa que perdemos, essa frase volta à minha mente. Depois do 7 a 1, Dunga voltou e, rapidamente, deu lugar ao Tite.

Seus bons resultados traziam uma tranquilidade e buscavam resgatar um imaginário de que seria possível vermos um time vencedor. A essa altura, encantar se distanciava das discussões como um navio que desaparece na paisagem. Esse transatlântico chamado “futebol-arte”, tão presente desde os anos 1950 no imaginário do torcedor, ia se tornando um barquinho. No futebol moderno, ele não tinha mais espaço. Não havia lugar no cais do mundo moderno para ancorar esse navio.

O espaço era criado, decidido e validado pelo futebol europeu. Nossos laterais, meias ofensivos e atacantes acima da média que eram a fruta principal dessa árvore que ia secando, se tornaram raridades. O que antes sobrava em qualquer feira, agora eram escassos. E foram trocados pelos pontas, ou, segundo Tite, os externos desequilibrantes. Era mais moderno e europeu ter pontas!

Os clubes passam a mudar a nossa produção nas bases. O produto mais vendável para a Europa era o mais produzido. Tite vai para uma Copa com um camisa 9 que não faz um gol. Perde para um time talentoso, com gol de um meia habilidoso estilo “brasileiro” que não conseguíamos mais produzir. Tite continua no ciclo, nenhuma discussão sobre o estilo de jogo, formação sobre nossos atletas, apenas sobre os treinadores.

Tivemos uma invasão de técnicos estrangeiros. Jorge Jesus chega ao Flamengo e jogando um futebol a lá brasileira nos deu uma lembrança do que era “jogar encantando”. O gostinho ficou por pouco tempo. Na seleção, a modernidade e o uso dos pontas guiava a segunda participação de Tite. Nosso único elo com os grandes craques citados acima era Neymar. Então, bola nele para ele resolver. Quase deu certo, mas repetimos a derrota nos pênaltis de 1986. E Neymar nem chegou a bater o pênalti.

Dali em diante, Neymar teve sucessivas lesões, não conseguiu mais desempenhar o futebol que o conectava a esses ícones do futebol nacional. Entramos em um ciclo muito ruim. A árvore que não entregava mais a fartura, agora não dava conta de produzir nem o mínimo para a subsistência do nosso futebol.

A CBF continuou seu processo de ser excelente nos negócios e pouco eficiente em replantar essa floresta. Sem os talentos para jogar e encantar, restou chamar Ancelotti para ser pragmático, vencer e superar, novamente, os 24 anos sem Copa.

As lesões foram retirando as poucas frutas apropriadas para se vencer uma Copa. A ficha caiu ao longo da competição. O estoque não tinha mais nada. O futebol brasileiro tentou correr contra o tempo. Ameaçou uma esperança de se encontrar ao longo da competição.

O imaginário de um craque que era acionado pelos torcedores esbarrava no jogador real que não era mais o que foi, nem o que poderia ter sido. Não definimos o jogo quando tivemos a chance. Mais um meia habilidoso no time adversários nos fez ter inveja de não termos mais aquela fruta que antes era vista em qualquer terreno baldio.

A cereja do bolo foi ver aquele detalhe, característico da nossa essência, brilhando também no adversário: o jogador artilheiro nato. A dor do 5 de julho de 1982, agora era substituída pela raiva de alguns e para outros por uma resignação de que não somos mais os mesmos.  

O futebol brasileiro teria realmente morrido naquele 7 a 1? O que estamos vendo é uma morte cerebral e disputamos as Copas com o uso de aparelhos? Mudamos o estilo? Os grandes jogadores craques que tínhamos estão nos nossos algozes? Roubaram a semente de nossas árvores? Ou estamos vendendo sem nos preocupar em continuar plantando? Não guardamos nenhuma dessa sementes, ou não temos mais solo para podermos plantar?

Nossos clubes jamais tiveram tanto dinheiro e não formamos mais jogadores decisivos. Nossa última final em um mundial Sub-20 foi em 2015, quando Neymar estava no seu auge no Barcelona com Messi e Suarez. De lá para cá, nossa fruta foi ficando passada, apodrecendo, sem que nenhuma florescesse para ajudá-la ou substituí-la.

Vamos completar 28 anos sem título. Quarenta e oito anos sem encantar o mundo com uma seleção. Antes o problema fosse o técnico. Antes fosse fazer o gol de pênalti em um mata-mata. É muito pior que tudo isso. Não conseguimos nem discutir mais essas questões. Tudo se torna uma defesa apaixonada e pouco reflexiva.

O mundo das redes sociais cria um simulacro cada vez mais desconectado com o real. É preciso desplugar desse mundo e voltar para a realidade que nos rodeia, sem jogador de videogame, sem súditos de atletas e devotos das ilusões poderosas vendidas e difundidas em massa nas redes sociais. É preciso ver essa árvore apodrecendo para que posamos salvá-la ou replantá-la.

Quero crer, crença mesmo, sem nenhuma base empírica de que algo vai mudar, que ainda vamos acordar, não precisar mais dos aparelhos, nos recuperar e voltar a ser uma seleção que imponha respeito, que causa medo nos adversários e que tenha jogadores decisivos.

Em apenas quatro anos não dá para plantar e colher. Mas precisamos voltar a pensar mais em plantar do que vender, mais em repensar em como jogar. O tempo é curto, o mundo avança, planta, colhe e joga. Nossa essência ainda vive no nosso imaginário, basta resgatá-la, plantá-la novamente, ter paciência, colher e voltar a ser o que sempre somos. A safra simbolizada por Neymar acabou. Precisamos cuidar da próxima e não errar novamente!

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