Opinião

Copa de 2026 ‘ressuscita’ o complexo de vira-lata da Seleção Brasileira

Será que secou a fonte capaz de produzir no Brasil os maiores talentos do mundo a cada nova geração de jogadores?

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A Seleção Brasileira de 2026 faz ressurgir o “complexo de vira-lata”, conceito criado por Nelson Rodrigues para descrever a mania nacional do brasileiro de se colocar em posição de inferioridade diante do resto do mundo. Exorcizado com o título mundial de 1958, o termo caiu em desuso diante do surgimento de uma nova ideia: a de que o Brasil era o país do futebol, com a capacidade inesgotável de produzir os maiores talentos do mundo a cada nova geração de jogadores.

Será que a fonte secou?

Para responder a essa pergunta, é preciso traçar um paralelo entre as chamadas “passadas de bastão” entre gerações vitoriosas. Pelé, o maior de todos os tempos, conduziu a Seleção Brasileira ao tricampeonato mundial. Depois dele, agonizamos um jejum de 24 anos sem títulos.

É o ponto em comum entre 1994 e a equipe comandada pelo italiano Carlo Ancelotti. Mas há aqui um importante contraste. Em 2026, já estamos na condição de coadjuvantes do futebol mundial, algo inimaginável para o time de Romário, Bebeto e Dunga, apesar da pressão e das críticas ao estilo de jogo mais defensivo. A Seleção Brasileira deixou de ser favorita para integrar o segundo escalão, atrás de França, Argentina, Alemanha, Espanha e Portugal.

Danilo diz ver favoritismo em outras seleções da Copa / Crédito: Divulgação

Aliás, os próprios integrantes do elenco têm indicado essa condição. Em entrevista nesta quarta-feira (17), o lateral Danilo reconheceu a inferioridade técnica da Seleção Brasileira. “Nós não temos a maturidade que uma equipe como a França tem hoje ou como a própria Argentina tem”.

Em mais um paralelo com 1994, víamos uma Seleção Brasileira pressionada. O único resultado aceitável era a conquista do tetra após o jejum de 24 anos. Também porque havia o entendimento de que ainda éramos o país do futebol. E isso é possível explicar, porque o Brasil sempre figurou entre os favoritos, apesar dos fracassos.

Favoritismo criava ‘ambiente trágico’ com eliminações

No Mundial de 1974, o primeiro pós-Pelé, Rivellino herdou a camisa 10 em uma equipe que ainda contava com os tricampeões mundiais Jairzinho, Paulo César Caju e Piazza. Apesar do desempenho irregular, a equipe que encarou a difícil tarefa de promover a primeira renovação após o tricampeonato mundial ficou em quarto lugar na competição ao ser batida pela Holanda de Johan Cruyff por 2 a 0.

Na Copa de 1978, a Seleção Brasileira ficou conhecida como “campeã moral” ao ser eliminada sem sequer ter perdido uma partida, ficando na terceira posição.

Já em 1982, o Brasil voltou a encantar o mundo com uma equipe composta por craques como Zico, Sócrates, Toninho Cerezo, Falcão, Leandro e Júnior. Apesar do favoritismo, acabou sendo eliminada em um episódio conhecido como a “Tragédia de Sarriá” ao perder por 3 a 2 para a Itália nas quartas.

Em 1986, só deixamos a competição nos pênaltis após um empate em 1 a 1 contra a França no tempo normal mais uma vez nas quartas. Já em 1990, o Brasil se despediu da competição nas oitavas ao perder por 1 a 0 para a Argentina, apesar de ter dominado a partida.

E, na Copa seguinte, o tetra veio, com Romário, Bebeto, Dunga e companhia.

Seleção Brasileira de Pelé, Romário e Ronaldo construíram identidade vencedora / Crédito: Montagem

Hexa parece utopia

Nesta Copa, a ideia da conquista do título parece até utopia em meio a um ressurgimento do “complexo de vira-lata”, que não veio da noite para o dia.

Depois do penta de 2002, fracassamos na Copa de 2006. Mas, ainda assim, contávamos com os melhores jogadores do mundo, como Ronaldo Nazário, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano e Roberto Carlos. Foi o último lampejo de brilhantismo. Depois disso, foi ladeira abaixo.

Nas Copas seguintes, o Brasil não formou uma equipe sequer capaz de deixar saudades.

Brasil levou 7 a 1 para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014 / Crédito: Divulgação

Em 2010, a Seleção Brasileira foi eliminada ao perder por 2 a 1 para a Holanda nas quartas com uma equipe apenas mediana. Em 2014, foi pior: a infame goleada de 7 a 1 para a Alemanha nas semifinais surgiu como efeito nada sutil de que estávamos superados.

Em vez de reação, a Copa seguinte confirmou a inferioridade brasileira com a derrota por 2 a 1 diante da Bélgica nas quartas. Em 2022, fomos eliminados nos pênaltis para uma inexpressiva Croácia.

E, agora, mal começamos a Copa e já demonstramos a opaca ambição de desempenhar um bom papel na competição, enquanto observamos com encanto craques como o francês Mbappe, o espanhol Lamine Yamal e o argentino Lionel Messi.

Seleção Brasileira participa de treino visando partida contra o Haiti / Crédito: CBF

Pensamento mágico

A verdade é que a Seleção Brasileira conta com uma equipe longe de estar afirmada. Ancelotti precisou recorrer ao pensamento mágico encarnado na convocação de um Neymar lesionado, em fim de carreira e há anos sem ter rendimento em alto nível.

Entre os titulares, Vini Jr parece ser a única esperança de que algo diferente possa acontecer em meio a jogadores apenas medianos. Entre os reservas, também se espera um pouco daquela “brasilidade” dos grandes jogadores do passado nos pés de Endrick, de apenas 19 anos.

Mas, agora, com uma certa certeza de que abandonamos o posto de protagonista da equipe a ser batida. E vemos com a amarelinha uma equipe comum demais para acalentar os nossos sonhos mais ingênuos de que o hexa é possível.

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Agenda do Poder.

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