O cantor Marlon Brendon Coelho Couto da Silva, o MC Poze do Rodo, compareceu nesta segunda-feira (20) à Alerj para a polêmica reunião da CPI das Câmeras. Ele foi convocado para esclarecer o roubo e a rápida recuperação de seu carro de luxo no mês passado — uma Land Rover Defender blindada, levada no Recreio dos Bandeirantes e localizada poucas horas depois.
A CPI investiga a relação de empresas de proteção veicular com facções criminosas para o resgate de veículos — prática que, segundo os deputados, virou uma nova fonte de receita do tráfico.
Em um depoimento curto, Poze atribuiu a rápida recuperação à sua própria fama e à repercussão do crime nas redes sociais. No pronunciamento, o artista bateu de frente com o presidente da comissão, deputado Alexandre Knoploch (PL), e usou do direito ao silêncio logo em seguida.
“É uma coisa óbvia meu carro aparecer e até demorar a aparecer por eu ser Poze do Rodo. Eu me acho uma pessoa foda, fenomenal. Sou mundialmente muito reconhecido”, disparou o MC ao ser questionado sobre a rapidez com que o veículo foi encontrado. “É óbvio que a pessoa que me roubou, após ver a repercussão, não ficaria com o carro, o único no Rio de Janeiro que é vermelho e todo personalizado por dentro, com meu nome nos bancos. Ele não foi encontrado, ele foi largado. Era óbvio que seria entregue por eu ser gigante”, completou
Confronto direto e direito ao silêncio
Após a justificativa, o cantor mirou diretamente em Knoploch, citando críticas feitas pelo parlamentar em publicações nas redes sociais. “Muitas pessoas gostam disto [da fama], muitas discordam, inclusive o senhor. Nas suas redes, o senhor deixou isso bem nítido, falando que sou um marginal. Então, creio eu que não tenho o por que ficar dialogando com uma pessoa que acha uma coisa que não sou”, afirmou Poze, antes de anunciar que permaneceria calado, amparado por um habeas corpus.
O deputado não recuou e manteve a posição. “O que eu disse eu não retiro. Acho que as músicas que o senhor faz são apologia ao tráfico de drogas. Quando o senhor faz um vídeo numa comunidade cantando suas músicas usando uma capinha de celular que simula uma arma de fogo acaba incentivando alguns tipos disso”, rebateu Knoploch.
“Nossa preocupação, sabendo do seu histórico pregresso, era que pelo vínculo que poderia existir, teria tido uma facilidade [na recuperação]”, justificou o presidente da CPI, citando que quando foi preso, Poze preferiu ficar junto a membros do Comando Vermelho. Segundo o parlamentar, por conta disso, o cantor poderia ter algum tipo de ligação com a facção, o que teria ajudado a recuperar o veículo rapidamente.
Sobrou até para Gracyanne
Não satisfeito, Knoploch citou ainda o caso da musa fitness Gracyanne Barbosa, que também teve seu carro, avaliado em R$ 800 mil, roubado na última semana. “Não seria natural também que a Gracyanne não tivesse recuperado o carro de forma tão rápida pelo conhecimento dela?”, questionou. A resposta de Poze foi imediata: “Mas a Gracyanne talvez não tenha o mesmo respeito e carinho que eu tenho”, disparou. O veículo da musa fitness teria sido encontrado na última quinta-feira (16).
Clima de ‘panos quentes’
Apesar do clima tenso, outros deputados tentaram colocar panos quentes na situação ainda antes do início do depoimento, tentando afastar — várias vezes — a ideia de uma perseguição pessoal. O relator da comissão, Filippe Poubel (PL), afirmou que o objetivo é investigar o que chamou de “indústria do resgate”, que se tornou mais uma receita do tráfico. Segundo ele, criminosos roubam veículos e negociam a devolução com empresas especializadas, alimentando um ciclo
Em um tom mais ameno, o psolista Professor Josemar lembrou que outras figuras públicas, como o emblemático caso do ex-jogador Roberto Dinamite, nos anos 80, e o jogador do Flamengo Wesley, em 2024, também tiveram bens devolvidos por criminosos por conta da fama. “Estou dizendo isso para limpar o terreno e não impor de antemão que há uma prática de crime a você. Crime existe para quem monta esquemas para se aproveitar do roubo de carro. Quando você vai atrás do seu carro localizado não há crime nisso”, pontuou.
“Nós parlamentares aqui desta mesa — com exceção do coronel da PM Marcelo Dino — não somos policiais nem investigadores. A gente só tenta ligar as pontas do que a CPI recebe, dos relatores vindo de outras instituições e dos depoimentos das testemunhas”, disse o decano Luiz Paulo (PSD), que também aproveitou para dar uma quebrada no gelo.
“Não conheço nenhum dos investigados da CPI. O senhor eu conhecia de jornais, porque não tenho mais idade para ir aos eventos, não tenho preparo físico para isso”, brincou o decano. “Mas também não tenho preconceito com nenhum tipo de música, gosto de todos, se for boa. A qualidade é boa para nosso ouvido, para nossa alma e melhor ainda para a nossa libido — o desejo na sua forma ampla, geral e restrita, para não ficar outros entendimentos”, disse, arrancando risadas dos colegas e do MC.






Deixe um comentário