* Paulo Baía
Voltar ao Rio de Janeiro depois de cinco anos em Cabo Frio é como acordar de um sonho longo. Acordar com o som dos motores, das buzinas, das vozes apressadas que se misturam às gaivotas que ainda sobrevoam a cidade, teimosas. O silêncio do Condomínio dos Pássaros ficou guardado em mim. Lá, os barulhos vinham dos cachorros, dos gatos, dos ventos e dos próprios pássaros que davam nome ao lugar. Era uma serenidade que parecia invenção, uma calma que as cidades grandes não acreditam.
Foram anos bons, de uma Cabo Frio não turística. Uma cidade mais real, feita de ruas poeirentas, mercados de bairro, praias menos famosas. Acordava cedo, escrevia, lia, caminhava. O tempo tinha outro compasso, mais lento, mais respirável. As praias das Dunas do Peró e do Pontal eram o cenário diário de um cotidiano simples, mas pleno. O mundo parecia distante, e a escrita fluía como se não houvesse pressa.
Agora o ritmo é outro. O Rio é um organismo vivo, pulsante em excesso. As ruas estão sempre cheias, os sons se sobrepõem, o trânsito tem vida própria. Caminho por Copacabana, Botafogo, Flamengo, Catete, Lapa, e sinto que há algo em mim que ainda não encontrou o compasso certo. O corpo se move, mas o espírito observa. Ainda não tenho uma rotina, ainda não reencontrei o eixo.
Em Cabo Frio eu escrevia todos os dias. Lia sem parar, de manhã à noite. Agora, a página em branco parece me observar com paciência. Tenho livros abertos pela metade, frases interrompidas, ideias que não se completam. A leitura me escapa como um peixe escorregadio. Vejo o jornal das quatro na GloboNews, escuto as análises de Julia Duailibe e Octávio Guedes, mas nada me prende por inteiro.
Já me matriculei em uma academia. Tenho um plano de treinos, uma planilha organizada, uma promessa silenciosa de disciplina. Mas os músculos estão tão paralisados quanto as palavras. O corpo e a escrita compartilham a mesma inércia, como se esperassem um sinal secreto para despertar.
A convivência com minha neta e minha mãe tem sido o que há de mais vivo nos meus dias. Os cachorros também se adaptam, curiosos e inquietos, exigindo passeios e parques. Eles, ao contrário de mim, parecem já compreender o novo espaço. Enquanto eu procuro o sentido da volta, eles apenas vivem.
O Rio oferece mil possibilidades, e talvez por isso me paralise. É tanta coisa a fazer que às vezes prefiro não fazer nada. Fico entre o desejo de andar pela cidade e o impulso de ficar quieto, observando o movimento da janela, ouvindo o rumor constante das avenidas.
Mesmo assim, há algo de bom em estar de volta. Rever amigos tem sido uma alegria que dissolve a dúvida. Cada reencontro reacende uma centelha de pertencimento. A cidade, com toda a sua desordem, me recebe de novo, como se dissesse que há tempo para recomeçar.
Amanhã tenho uma consulta médica, dessas de rotina. Depois vou passar por algumas livrarias, talvez almoçar no Amir de Copacabana. Pode ser que, entre um livro e outro, algo desperte. Pode ser que as palavras voltem a se ordenar, que o corpo volte a se mover com vontade. A paralisia é apenas um intervalo. O Rio, com sua força, saberá me empurrar de novo para a correnteza da vida.
* Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ






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