Entre a forca e a festa do tomate: o passado rebelde de Paty do Alferes
Reportagem Especial

Entre a forca e a festa do tomate: o passado rebelde de Paty do Alferes

Do grito de Manoel Congo à cachacinha no museu local, cidade aprendeu a conviver com seus contrastes

Hoje, quem caminha por Paty do Alferes certamente não ouve mais o som sinistro das correntes. Mas nos mesmos morros por onde Frei Antonil passou em 1711 e que o francês Charles Ribeyrolles descreveu em 1859, ecoa ainda a memória de Manoel Congo, o ferreiro escravizado que incendiou a rotina colonial com uma revolta que deixou todo o Vale do Paraíba de perucas empoadas em pé.

Foi ali, entre senzalas e capelas, que em 1838 centenas de homens e mulheres decidiram romper suas correntes e desafiar o poder dos barões do café. A revolta durou pouco, mas deixou marcas mais profundas que os sulcos da enxada na terra vermelha do vale. A fazenda que hoje abriga a Aldeia de Arcozelo já foi cenário de fuga, medo e coragem, testemunha de um sonho interrompido pela forca.

Do grito de Manoel Congo à cachacinha no museu local, Paty do Alferes aprendeu a conviver com seus contrastes. É cidade de festa e de memória, de tomate e de tragédia, de imperador e de insurgente. E talvez seja justamente essa mistura o segredo do seu sabor duradouro.

Aldeia do Arcozelo já foi cenário de revolta histórica | Crédito: Reprodução / TripAdvisor

Origem da cidade

Em torno de 1700, o sertanista Garcia Rodrigues Paes, filho de Fernão Dias Paes, o “Caçador de Esmeraldas” abriu o chamado “Caminho Novo” ligando Minas Gerais ao porto do Rio, e esse percurso passava pelas terras que viriam a formar Paty do Alferes.

Acredita-se que o nome Paty do Alferes venha da união do posto militar de alferes (equivalente ao posto de segundo-tenente) ao vocábulo indígena dado a uma palmeira chamada pati, abundante nas margens do Caminho Novo.

A região se desenvolveu de modo vertiginoso, no ritmo dos ciclos do açúcar e do café. A freguesia de Conceição do Alferes foi elevada ao posto de vila por Dom João VI em 1820. Entretanto, apesar de contar com sedes de fazendas cada vez mais opulentas, o povoado contava com apenas quatro casas. Isso mesmo. 1,2,3…4 casas.

Isso tem uma explicação shakespeareana: desde a virada do século, as duas famílias mais ricas da cidade, os Francisco Xavier e os Sousa Werneck, viviam em uma verdadeira guerra civil, que só terminou em 1824, mas espantou muitos colonos.

O grande crescimento econômico requisitava mais e mais mão de obra e, com poucos colonos disponíveis, se intensificou brutalmente o tráfico de escravos africanos.

E aí deu ruim.

A revolta de Manoel Congo

Na madrugada de 5 de novembro de 1838, um escravizado chamado Manoel Congo e seus companheiros arrombaram a senzala da Fazenda da Freguesia, propriedade do Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier, e libertaram cerca de 400 escravizados.

A notícia da fuga atravessou outras fazendas e levou o pânico aos barões do café do Vale do Paraíba, que viviam com medo de se repetir no Brasil um processo semelhante ao da Independência do Haiti, em 1804, liderada por escravizados.

Em menos de 48 horas o coronel Francisco Peixoto de Lacerda Werneck mobilizou 160 homens da Guarda Nacional para caçar os fugitivos. A luta foi rápida e brutal.

No dia quatro de setembro de 1839 Manoel Congo foi condenado à morte por enforcamento e executado, sem direito a sepultamento. Os demais foram punidos com extrema crueldade. Não há um número exato de mortos ou feridos na revolta.

Manoel Congo entrou para a História do Brasil como o ferreiro-escravo que ousou liderar uma rebelião contra os poderosos barões do café. Sua revolta mostrou que mesmo em “fazendas pacíficas” havia uma tensão insuportável.

O que é a Aldeia de Arcozelo?

A Aldeia de Arcozelo ocupa exatamente o mesmíssimo lugar onde antes ficava a Fazenda da Freguesia, local da revolta de Manoel Congo.

Em 1965 o ator, poeta e teatrólogo Paschoal Carlos Magno transformou o espaço num centro cultural bacana: com anfiteatro ao ar livre, teatro, biblioteca, hospedagem para eventos, tudo em homenagem à memória historiográfica local.

Ela hoje representa não só um símbolo da luta de escravizados, mas também um espaço de cultura contemporânea, onde memória, rebeldia e teatro se cruzam.

A cidade dos cientistas 

O prestígio de Paty do Alferes fez com que diversos cientistas e pesquisadores europeus fizessem um rolê por lá. 

O jesuíta italiano Frei Antonil descreveu sua viagem pela região no livro “Cultura e opulência do Brasil”, de 1711, no qual cita a sesmaria de Pau Grande (atual distrito de Avelar) como uma roça que principiava a ser desbravada em plena selva.   

Já Auguste de Saint-Hilaire, famoso botânico e naturalista passou pela região em 1823 e a descreveu no livro “Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais”, relatando minuciosamente as construções, os hábitos e as tecnologias usadas para a manufatura do açúcar nas fazendas e engenhos da região, 

E teve até jornalista exilado. Charles Ribeyrolles, expulso da França por Napoleão III, esteve em Paty do alferes e a descreveu em seu livro “Brasil Pitoresco”, de 1858.  

Por que a Matriz de Nossa Senhora da Conceição foi tombada pelo Iphan?

A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, cuja construção se iniciou em 1840 com doação de terras e recursos pelo nosso já conhecido Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier e sua esposa, foi inaugurada em 31 de maio de 1844.

Em estilo colonial, com estrutura em madeira, paredes de pau-a-pique e mobiliário e imagens setecentistas, a igreja se distingue por conservar arte sacra e arquitetura de transição no Brasil imperial.  

Em 1973 foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) dado seu valor histórico artístico e cultural, ultrapassando o âmbito local.

Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição é tombada desde 1973 pelo Iphan | Crédito: Reprodução

O que é o Caminho do Imperador?

O Caminho do Imperador é a via que liga a região de Paty do Alferes, Miguel Pereira e Petrópolis, herdeira do antigo “Caminho Novo” aberto por Garcia Rodrigues Paes em 1700.

Era um caminho mito usado por Dom Pedro II. Atualmente ele é trilha de ecoturismo com riachos, quedas d’água e de visitas à gruta associada ao quilombo de Manoel Congo.

O esconderijo não passa de uma profunda e escura escavação natural formada por um conjunto de grandes pedras graníticas em um dos outeiros da Serra de Santa Catarina.

De acesso complicado, cansativo e com espaços reduzidos, custa crer que tantos negros tenham conseguido se reunir em um ambiente tão exíguo.

A cidade tem um Museu da Cachaça?

Sim. O Museu da Cachaça de Paty do Alferes foi inaugurado em 1991 e foi o primeiro museu desse gênero no Brasil.  

Foram necessários anos de pesquisas em bibliotecas e aquisição de centenas de garrafas compradas em todos os cantos do Brasil para montar um acervo vasto e peculiar.

Ele é apresentado aos seus visitantes junto com quadros, coleções de crônicas e artigos, livros especializados, trovas populares, um antigo mini alambique, dentre muitos outras atrações da história da cachaça.

Museu da Cachaça em Paty: primeiro do gênero no Brasil | Crédito: Reprodução

O que é o Centro Cultural Maestro José Figueira?

É o principal equipamento cultural de Paty do Alferes que abriga teatro, biblioteca com mais de 40 000 títulos, sala infantil, exposições e oficinas de artes plásticas, dança, música e grafite.

Localizado na Praça Manoel Congo, o teatro tem 110 lugares, com palco, luz, som, camarins de primeira, ou seja, é o interior da serra com equipamento urbano digno

Para quem visita a cidade buscando cultura, não só natureza ou cachaça, o Centro Cultural Maestro José Figueira mostra que Paty do Alferes investe num protagonismo artístico que vai além da paisagem rural.

Paty do Alferes é conhecida como a “Capital do Tomate”?

Sim, Paty do Alferes é conhecida como a “capital fluminense do tomate” e era considerada a terceira maior produtora do fruto no Brasil.

Um artigo publicado em 2021 informava que a produção de tomate naquele ano foi de R$ 43,283 milhões, correspondendo a 11% da produção do estado do Rio de Janeiro.

A consagração da produção agrícola local ocorre anualmente na semana do feriado de Corpus Christi com a realização da Festa do Tomate, quando o distrito de Avelar recebe um fluxo médio de 40 000 pessoas por dia.

A Festa do Tomate é o evento mais tradicional de Paty do Alferes. Reúne shows nacionais e regionais, concursos de qualidade do tomate, de produtos agrícolas, concurso leiteiro, culinária tradicional, e eleição da “Rainha do Tomate”.

Evento é quase sinônimo de turismo em Paty dos Alferes | Crédito: Reprodução

Quais as outras festas populares da cidade?

Em março durante o feriado da Semana Santa, ocorre a Festa do Doce, com degustações, doces caseiros, geleias, salão do artesanato e da cachaça.

Há também a Expo Orquídeas e Bromélias (ou Exposição de Orquídeas & Bromélias), que reúne produtores de flores, oficinas, shows e recebe cerca de 20 000 visitantes.

 Além dessas, há a Festa do Cavalo (tradicional em Avelar para o cavalo Mangalarga Marchador) e o evento “Paty Agro Show” que pretende se estabelecer como novo marco agro cultural.

O que mais tem para fazer lá?

Para além dos tópicos acima, Paty do Alferes oferece o bom e velho pacote do turismo rural: fazendas históricas, cavalgadas, trilhas, passeios de bicicleta ou cavalo, visita a laticínios, apiários, plantações e saborear comidas típicas.

Em resumo, você vai a Paty não só para dormir e comer tomate, mas para caminhar, respirar, mergulhar numa história complexa e tomar uma caipirinha bem-feita.

Como chegar?

Partindo da Guanabara, Paty do Alferes fica a cerca de 12 km, o que dá uma viagem de carro de umas duas horas e meia. Já de ônibus, há saídas diárias da Rodoviária do Rio com tarifas a partir dos R$ 40.

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