Entidade amplia captação de associados mesmo sob investigação por fraudes no INSS

A Conafer é alvo da Polícia Federal e terá presidente ouvido pela CPMI, mas segue oferecendo planos e benefícios a trabalhadores de baixa renda

A Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais), segunda maior entidade investigada por fraudes em descontos de benefícios do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), continua em plena atividade para atrair novos associados. Mesmo após a deflagração da Operação Sem Desconto, da Polícia Federal, em junho, a confederação mantém treinamentos e estratégias de venda para ampliar a base de filiados.

Estratégia de captação

No fim de agosto, a Conafer realizou um treinamento online voltado a novos vendedores. A proposta é simples: quem convence alguém a pagar a mensalidade de R$ 37 ganha comissão de R$ 3,70 por cada filiado recrutado. O público-alvo, segundo a própria entidade, são pessoas “de baixa renda e baixa consciência de mercado”, como agricultores familiares, ribeirinhos, quilombolas, povos originários, trabalhadores informais, idosos e famílias sem plano de saúde.

Em seu site, a confederação anuncia benefícios que vão de R$ 200 para compra de medicamentos a R$ 1.000 em caso de morte acidental, além de sorteios mensais de R$ 10 mil.

Depoimentos questionáveis

A página oficial exibe depoimentos de supostos beneficiários. Um deles, identificado como Julio Cesar Pataxó, afirma: “Eles nos apoiam com seriedade, fortalecem nossa cultura e garantem espaço de fala nos debates nacionais”. O relato, no entanto, aparece acompanhado de uma foto encontrada em perfis de redes sociais de diferentes pessoas, sem vínculo com a identidade apresentada.

A mesma inconsistência se repete em imagens atribuídas ao agricultor Ricardo R. Ramos e à empreendedora Anne Roberta, reforçando suspeitas de falsificação.

Apesar dessas controvérsias, a Conafer sustenta que possui mais de 70 mil afiliados ativos e declarou em junho, em carta aberta, que contava com 597,2 mil associados com vínculo vigente.

Procurada, a entidade não se manifestou.

Investigação no Congresso

A CPMI que apura fraudes nos descontos associativos do INSS deve ouvir nesta segunda-feira (29) o presidente da Conafer, Carlos Lopes. A confederação é a segunda organização com mais registros de descontos previdenciários entre 2019 e 2024: foram R$ 484 milhões no período, atrás apenas da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), que recebeu R$ 2,1 bilhões.

Após a investigação da PF, o INSS bloqueou todos os descontos automáticos nos benefícios, o que comprometeu o caixa da Conafer. Para compensar a perda de receita, a entidade intensificou a busca por novos associados pagantes.

Relação com o Congresso e emendas

Antes do bloqueio, a Conafer chegou a sustentar a Frente Parlamentar em Defesa do Empreendedorismo Rural, em Brasília. A entidade arcava com despesas do grupo, como o aluguel de uma mansão no Lago Sul para servir de sede e o café da manhã no evento de lançamento. A vistoria do imóvel ocorreu em março de 2023, e o lançamento da frente parlamentar aconteceu em abril do mesmo ano.

A proximidade com parlamentares rendeu à confederação acesso a emendas. Entre 2023 e 2024, seis deputados e duas bancadas destinaram R$ 14,5 milhões ao Instituto Terra e Trabalho, ligado à entidade. Deste total, R$ 9,3 milhões foram efetivamente pagos.

Atuação paralela com outra associação

Além da Conafer, o grupo mantém uma segunda entidade ligada ao mesmo círculo de dirigentes: a AAB (Associação de Aposentados do Brasil). Embora não esteja na lista de investigadas pela Polícia Federal, a AAB também realizou descontos em aposentadorias e pensões pagas pelo INSS.

Entre agosto de 2024 e abril de 2025, foram R$ 28 milhões em descontos, o equivalente a cerca de R$ 3 milhões por mês.

Contexto da operação

A Operação Sem Desconto foi deflagrada pela Polícia Federal para apurar irregularidades em cobranças associativas feitas diretamente nos benefícios previdenciários sem autorização clara dos segurados. A investigação levantou suspeitas de que milhares de aposentados e pensionistas foram lesados por entidades que usaram mecanismos para inflar artificialmente o número de filiados.

O caso da Conafer, agora sob escrutínio da CPMI, deve ampliar o debate sobre a fragilidade na fiscalização de descontos compulsórios no INSS e a influência política de entidades que movimentam milhões de reais em recursos públicos e privados.

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