Entenda as eleições desta terça nos EUA e o que pode mudar no governo Trump e afetar o Brasil

Americanos votam nesta terça-feira (3) para renovar a Câmara, parte do Senado e escolher governadores de 36 estados; resultado pode alterar o equilíbrio de forças no Congresso e afetar decisões com reflexos no Brasil

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As eleições legislativas de meio de mandato dos Estados Unidos, conhecidas como midterms, acontecem nesta terça-feira (3) e podem mudar a relação de forças políticas em Washington. Os eleitores vão escolher os integrantes da Câmara dos Representantes, parte do Senado e governadores de 36 estados.

A votação ocorre na metade do segundo mandato de Donald Trump, em meio à insatisfação com o custo de vida, à alta dos combustíveis, às consequências da guerra do Irã e às disputas sobre imigração, política externa e democracia.

O principal resultado em jogo é a manutenção ou não do controle republicano das duas Casas do Congresso. Uma eventual vitória democrata pode dificultar a aprovação de projetos do presidente, ampliar a fiscalização sobre a Casa Branca e modificar os rumos da política americana nos próximos dois anos.

Para o Brasil, o resultado também merece atenção. Mudanças na composição do Congresso podem influenciar debates sobre comércio internacional, tarifas, relações diplomáticas, imigração e política externa dos Estados Unidos.

Quais podem ser os efeitos das midterms no Brasil?

O resultado das eleições pode influenciar indiretamente as relações entre os Estados Unidos e o Brasil, principalmente se houver mudança no equilíbrio de forças do Congresso americano.

Uma Câmara ou um Senado controlado pelos democratas poderá ampliar os debates e a fiscalização sobre decisões da administração Trump relacionadas ao comércio internacional, às tarifas, à imigração e à política externa.

O Congresso também tem participação na formulação de leis e na definição de recursos para diferentes áreas do governo americano. Uma oposição fortalecida poderá criar obstáculos a determinadas iniciativas presidenciais e exigir negociações políticas.

Isso não significa, porém, que uma vitória democrata provocará automaticamente uma mudança na política externa dos Estados Unidos em relação ao Brasil. O presidente mantém poderes importantes nessa área, e os efeitos dependerão das decisões do Executivo e das disputas no Legislativo.

O que são as midterms?

As midterms são eleições realizadas a cada quatro anos, na metade do mandato presidencial americano. Apesar de não haver disputa pela Presidência, a votação define a composição do Congresso e de governos estaduais.

Em 2026, serão renovadas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, cujos integrantes têm mandatos de dois anos, e 35 das 100 vagas do Senado, que tem renovação de aproximadamente um terço de seus integrantes a cada dois anos.

Também haverá eleições para governadores em 36 dos 50 estados, além de disputas para assembleias legislativas estaduais e outros cargos locais.

Por que as eleições são importantes para Trump?

O resultado determinará quanto espaço o presidente terá para aprovar projetos e executar sua agenda política. Trump começou o segundo mandato com maioria republicana na Câmara e no Senado.

Caso os democratas conquistem uma das Casas ou as duas, o governo terá de enfrentar uma oposição com maior capacidade de bloquear propostas, controlar comissões e convocar autoridades para prestar esclarecimentos.

O Congresso também tem poderes de fiscalização sobre o Executivo e pode abrir investigações sobre decisões da administração presidencial.

Historicamente, as eleições de meio de mandato costumam funcionar como uma avaliação dos primeiros dois anos de governo. O partido que ocupa a Casa Branca frequentemente perde cadeiras nessas disputas.

Como está dividido o Congresso americano?

Os republicanos chegam à votação controlando as duas Casas, mas com uma vantagem pequena na Câmara dos Representantes.

No Senado, o partido de Trump possui 53 das 100 cadeiras, enquanto os democratas têm 47, incluindo dois senadores independentes alinhados à bancada do partido.

Na Câmara, são 218 republicanos e 214 democratas, além de um independente alinhado aos republicanos e duas vagas abertas.

Para alcançar a maioria na Câmara completa, são necessários 218 votos. No Senado, a maioria é de 51 cadeiras, embora o vice-presidente dos Estados Unidos possa desempatar votações.

O que acontece se os democratas conquistarem a Câmara?

Uma vitória democrata na Câmara dividiria o controle político do Congresso e reduziria a capacidade de Trump de aprovar projetos sem negociar com a oposição.

Os democratas poderiam bloquear propostas republicanas, interferir nas negociações sobre o orçamento federal e ampliar as investigações sobre integrantes do governo.

O partido também passaria a controlar as comissões da Câmara, responsáveis por realizar audiências, solicitar documentos e convocar autoridades.

Outra possibilidade seria a abertura de um processo de impeachment. A Câmara tem competência para aprovar acusações contra o presidente, mas a destituição depende de condenação por dois terços dos votos do Senado.

E se os democratas conquistarem o Senado?

O controle do Senado também teria consequências para o governo Trump. Além de participar da aprovação de leis, a Casa é responsável por confirmar indicações presidenciais para cargos importantes, embaixadas e tribunais federais, incluindo a Suprema Corte.

Com maioria democrata, o Senado poderia dificultar a aprovação de nomes indicados pelo presidente, controlar a agenda legislativa e ampliar a fiscalização da administração federal.

Há, porém, uma limitação: muitas propostas precisam de 60 votos para superar o chamado filibuster, mecanismo que prolonga o debate e pode impedir que uma matéria seja levada à votação.

Por isso, mesmo com o controle das duas Casas, os democratas não teriam liberdade para aprovar qualquer projeto.

Como funciona a votação nos Estados Unidos?

Diferentemente do Brasil, os Estados Unidos permitem que os eleitores votem antecipadamente, pelo correio ou presencialmente, de acordo com as regras de cada estado.

A votação antecipada de 2026 registrou mais de 53 milhões de participantes até domingo (1º), segundo o Election Lab, da Universidade da Flórida. O número supera os 45,9 milhões registrados no mesmo período das eleições de 2022.

Do total, aproximadamente 30 milhões votaram presencialmente e 24 milhões utilizaram o sistema de votação pelo correio.

As urnas serão abertas nesta terça-feira para os eleitores que ainda não participaram da votação. A apuração poderá levar dias, principalmente em disputas apertadas e em estados com grande quantidade de votos enviados pelo correio.

Qual é o cenário eleitoral de 2026?

A disputa acontece em um momento de baixa aprovação de Trump e de insatisfação de parte do eleitorado com a situação econômica. Os republicanos tentam preservar a maioria no Congresso, enquanto os democratas buscam transformar o descontentamento com o governo em vitórias eleitorais.

Uma pesquisa do Pew Research Center, publicada em outubro, apontou maior engajamento dos eleitores democratas e identificou a economia como a principal preocupação dos americanos.

A campanha também foi marcada por declarações de Trump sobre o controle do processo eleitoral. O presidente defendeu que os republicanos assumissem o controle da votação em pelo menos 15 localidades e afirmou que o partido deveria nacionalizar o processo eleitoral.

Em março, Trump assinou um decreto para endurecer as regras do voto pelo correio e criar listas federais de eleitores. A medida foi contestada na Justiça, enquanto o governo também pressionou estados em relação aos registros eleitorais.

Na reta final da campanha, o presidente anunciou uma recompensa de US$ 1 milhão por denúncias de fraudes que resultassem em prisão e condenação. Também condicionou o reconhecimento dos resultados à avaliação de que a votação tenha ocorrido de maneira honesta.

Organizações de direitos civis manifestaram preocupação com a possibilidade de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) próximos aos locais de votação intimidarem eleitores. O Departamento de Justiça informou que agentes do ICE e do FBI não atuarão como monitores eleitorais.

Quais estados merecem atenção?

As disputas pelo Senado em Texas, Maine, Ohio, Iowa, Michigan, Alasca e Kansas estão entre as mais acirradas, segundo avaliações do Cook Political Report, instituto especializado em análise eleitoral americana.

O Texas concentra parte das atenções. O democrata James Talarico enfrenta o republicano Ken Paxton em uma disputa que pode representar uma mudança histórica no estado.

Tradicionalmente republicano, o Texas não elege um senador democrata desde 1988. Uma vitória de Talarico encerraria esse período e aumentaria as chances de os democratas conquistarem o controle do Senado.

Carolina do Norte e Geórgia também estão entre os estados acompanhados pelos analistas eleitorais, com vantagem democrata nas avaliações do Cook Political Report.

O que mais preocupa os eleitores?

A economia aparece como o principal tema para os americanos. Pesquisa do Pew Research Center realizada entre 28 de setembro e 4 de outubro mostrou que 84% dos eleitores registrados consideram o assunto muito importante para decidir o voto.

Na sequência aparecem o futuro da democracia, mencionado por 73% dos entrevistados, saúde, com 68%, e educação, com 62%.

A imigração, uma das principais bandeiras do governo Trump, é considerada muito importante por 59% dos eleitores. O tema apresenta diferenças entre os partidos: 72% dos republicanos apontam a questão como prioritária, ante 53% dos democratas.

O custo de vida, a saúde e a política externa também ocupam espaço na campanha.

O que está em jogo nas eleições estaduais?

Além da disputa pelo Congresso, os americanos escolherão governadores em 36 estados e renovarão legislativos estaduais.

Essas eleições têm impacto direto em decisões sobre educação, segurança pública, impostos, saúde e organização do sistema eleitoral.

Nos Estados Unidos, não existe uma autoridade eleitoral nacional com as mesmas atribuições do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) brasileiro. As regras de registro de eleitores, votação antecipada, apuração e certificação dos resultados variam de acordo com cada estado.

Quando os eleitos assumem os cargos?

Os novos integrantes do Congresso americano assumirão seus mandatos em janeiro de 2027.

A nova composição da Câmara e do Senado definirá as condições políticas para os dois últimos anos do segundo mandato de Donald Trump, período em que o presidente poderá enfrentar maior resistência ou manter o apoio necessário para avançar com sua agenda.

O resultado das midterms, portanto, não escolherá um novo presidente, mas poderá alterar o equilíbrio de poder em Washington e os limites políticos impostos ao governo Trump.

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