Em maior intervenção em 10 anos, Tesouro recompra R$ 43,6 bi e tenta conter juros futuros

Ação ocorre em meio à guerra no Irã e tensão no mercado antes de decisão do Copom sobre a Selic

O Tesouro Nacional intensificou sua atuação no mercado financeiro e realizou recompras de títulos públicos que somaram R$ 43,6 bilhões em apenas dois dias. A medida busca conter a forte alta dos juros futuros, pressionados pelo cenário internacional e incertezas domésticas.

A escalada das taxas foi impulsionada principalmente pelo agravamento da guerra no Irã, que elevou os preços do petróleo e aumentou o risco de um novo ciclo inflacionário. Esse ambiente elevou a volatilidade nos mercados e acendeu alertas sobre os rumos da política monetária.

Além disso, o movimento ocorre em uma semana decisiva para os juros básicos da economia, com o Comitê de Política Monetária (Copom) prestes a anunciar sua nova decisão sobre a taxa Selic.

Intervenção histórica e acima da pandemia

O volume de recompras realizado pelo Tesouro supera, em termos nominais, as ações adotadas durante a crise da pandemia de Covid-19 em 2020. Naquele período, foram recomprados R$ 35,56 bilhões ao longo de 15 dias.

Agora, o montante foi alcançado em apenas dois dias, configurando a maior intervenção em mais de uma década, segundo análises de mercado. Quando consideradas também operações de venda de títulos, o total movimentado chega a R$ 41,94 bilhões.

Especialistas apontam que, mesmo em momentos críticos recentes — como as manifestações de 2013 e a greve dos caminhoneiros em 2018 —, a atuação do Tesouro foi significativamente menor.

Objetivo é reduzir volatilidade e segurar expectativas

A estratégia do Tesouro tem como foco estabilizar a curva de juros, que reflete as expectativas do mercado sobre a trajetória futura da Selic. Essa taxa básica é referência para crédito, financiamentos e investimentos em todo o país.

Segundo técnicos envolvidos na operação, a atuação segue critérios técnicos e busca reduzir distorções em um momento de elevada incerteza global. O aumento do petróleo, por exemplo, pode impactar diretamente os preços internos.

Ainda assim, a intervenção chama atenção por ocorrer justamente na semana da reunião do Copom. Tradicionalmente, o Tesouro evita agir nesse período para não influenciar a leitura do mercado sobre os juros.

Mercado revisa projeções para a Selic

Levantamento com analistas indica uma divisão nas expectativas para a decisão do Banco Central. A maioria projeta um corte mais moderado de 0,25 ponto percentual na Selic, enquanto parte ainda aposta em uma redução de 0,5 ponto.

Há também uma parcela minoritária que prevê manutenção da taxa atual. Antes da intensificação do conflito no Oriente Médio, predominava a expectativa de corte mais agressivo.

A elevação dos juros futuros pode sinalizar menor espaço para reduções mais intensas, o que contraria o interesse do governo em estimular a atividade econômica.

Estratégia mais agressiva para evitar custos maiores

De acordo com fontes do Tesouro, a decisão foi adotar uma postura mais proativa e concentrar esforços logo no início da turbulência. A ideia é evitar que uma deterioração maior do mercado exija intervenções ainda mais custosas no futuro.

Essa abordagem difere da adotada em episódios recentes, quando o governo demorou mais a reagir a choques externos e internos.

No entanto, investidores seguem atentos à duração dessa estratégia. Não há prazo definido para as intervenções, que dependem da avaliação contínua sobre o funcionamento do mercado.

Detalhes das operações recentes

Na terça-feira, o Tesouro realizou leilões pela manhã e à tarde. Foram recomprados títulos prefixados e também papéis atrelados à inflação.

Pela manhã, a operação envolveu Letras do Tesouro Nacional (LTN) e Notas do Tesouro Nacional série F (NTN-F), totalizando R$ 9,05 bilhões.

Já no período da tarde, foram negociados títulos indexados à inflação (NTN-B), com recompras e vendas que somaram R$ 7,076 bilhões.

Essas ações seguem intervenções já realizadas no dia anterior, quando o Tesouro havia recomprado R$ 27,5 bilhões em títulos prefixados, reforçando o esforço para conter a instabilidade.

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