PF aponta mesada de R$ 6 milhões de Vorcaro a Ciro Nogueira e pagamento de despesas a Hugo Motta

Investigação enviada ao STF identifica repasses mensais, operações societárias sob suspeita e possíveis mecanismos de ocultação de recursos envolvendo empresas ligadas ao parlamentar. Os documentos também revelam que Daniel Vorcaro bancou hospedagens para o presidente da Câmara, Hugo Motta

Na ofensiva da Polícia Federal contra o esquema investigado na Operação Compliance Zero ampliou a pressão sobre duas das principais lideranças do Congresso Nacional nesta terça-feira (16). Novos documentos anexados ao processo em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF) apontam que o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, teria mantido uma relação de proximidade e benefícios com o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e custeado despesas do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), durante viagens ao exterior.

As novas revelações surgem no momento em que o STF mantém a prisão de Henrique e Felipe Vorcaro, pai e primo do ex-banqueiro, e aprofundam as investigações sobre a rede de relações políticas e empresariais que, segundo a Polícia Federal, orbitava em torno do grupo ligado ao antigo controlador do Banco Master.

Mesadas milionárias

Segundo relatórios da Polícia Federal e manifestações da Procuradoria-Geral da República (PGR), Ciro Nogueira teria recebido ao menos R$ 6 milhões em repasses realizados entre 2024 e 2025.

Os investigadores apontam mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e seu primo Felipe Vorcaro que indicariam pagamentos mensais inicialmente fixados em R$ 300 mil e posteriormente elevados para R$ 500 mil.

“Os diálogos analisados demonstram ciência, anuência e prioridade atribuída por Vorcaro à manutenção desses repasses, os quais, no intervalo temporal identificado, totalizam montante mínimo estimado em R$ 6 milhões”, afirma a Polícia Federal.

Em uma das mensagens citadas no relatório, Daniel Vorcaro demonstra irritação com o atraso nos pagamentos.

“Cara, eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?”, escreveu.

Para os investigadores, a referência seria ao senador piauiense.

Empresas na mira

A PF afirma que parte dos repasses ocorreu por meio de operações envolvendo empresas ligadas ao grupo Vorcaro e à família de Ciro Nogueira.

Entre elas estão a BRGD e a CNLF Empreendimentos Imobiliários. Segundo os investigadores, as movimentações financeiras identificadas apresentam características compatíveis com mecanismos de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro.

“Restou evidenciado o pagamento mensal e reiterado de valores expressivos, inicialmente no patamar de R$ 300 mil e, posteriormente, chegando a R$ 500 mil”, registra um dos relatórios.

A investigação também aponta a aquisição, por empresa ligada à família do senador, de uma participação societária na Green Investimentos S.A. por R$ 1 milhão, apesar de a fatia ter valor estimado em aproximadamente R$ 12,9 milhões.

A Polícia Federal sustenta que a operação teria ocorrido com expressivo deságio e poderia ter servido para a transferência indireta de vantagens financeiras.

Hotéis de luxo

Além dos supostos repasses financeiros, a Polícia Federal identificou o pagamento de despesas pessoais atribuídas ao senador, incluindo hospedagens em hotéis de luxo, viagens internacionais e deslocamentos em aeronaves privadas.

Os investigadores afirmam que apenas os benefícios econômicos relacionados às viagens internacionais de Ciro Nogueira somariam cerca de R$ 468,7 mil, sem considerar os custos dos voos privados.

Entre os episódios citados estão hospedagens em Paris, Nova York, Lisboa e Courchevel, nos Alpes franceses.

Em Nova York, segundo a investigação, o senador ficou hospedado por seis noites em uma Suíte Royal do Park Hyatt New York. O custo registrado foi de aproximadamente R$ 245 mil.

A PF também menciona pagamentos de despesas em restaurantes de alto padrão e registros de movimentações financeiras em espécie.

Planilhas apreendidas durante a investigação contêm anotações como “Espécie Ciro 350K”, interpretadas pelos investigadores como referências a pagamentos em dinheiro vivo.

Viagem com Hugo Motta

Os documentos também revelam que Daniel Vorcaro bancou hospedagens em Lisboa para Ciro Nogueira e para o presidente da Câmara, Hugo Motta, durante viagem realizada em junho de 2024.

Segundo a investigação, foram reservadas cinco diárias para cada parlamentar no hotel Four Seasons Ritz Lisboa, uma das hospedagens mais luxuosas da capital portuguesa.

Cada suíte teria custado aproximadamente R$ 91,3 mil, o equivalente a cerca de R$ 18 mil por diária.

As reservas ocorreram no período em que Lisboa sediava eventos jurídicos e empresariais, entre eles o Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido informalmente como Gilmarpalooza.

Mensagens apreendidas pela Polícia Federal mostram que Vorcaro demonstrava preocupação especial com a privacidade dos convidados.

“Preciso muito que você dê uma atenção na questão de segurança”, afirmou o empresário em mensagem enviada a um auxiliar.

Em outro trecho, acrescentou:

“Pode ser o papa que não pode entrar ninguém que não esteja na lista.”

Segundo a PF, Vorcaro solicitou inclusive a privatização de áreas próximas ao local dos encontros para evitar a visualização dos participantes.

Resposta de Motta

Questionado sobre a hospedagem paga pelo empresário, Hugo Motta afirmou nesta terça-feira que não vê irregularidade na situação.

“É um evento corporativo, um encontro jurídico que inclusive participei neste ano como presidente da Câmara, então não vejo problema algum”, declarou.

O parlamentar acrescentou que acompanha as investigações com tranquilidade.

“Os órgãos de fiscalização estão trabalhando, eu tenho tranquilidade sobre as minhas relações e defendo que as investigações possam acontecer.”

Silêncio de Ciro

Até a publicação das reportagens que revelaram os novos documentos, Ciro Nogueira não havia se manifestado sobre os supostos repasses de R$ 6 milhões nem sobre os benefícios identificados pela Polícia Federal.

Quando foi alvo de busca e apreensão durante fase anterior da Operação Compliance Zero, o senador negou ter cometido irregularidades.

A Polícia Federal sustenta que os elementos reunidos até o momento apontam possíveis crimes de corrupção ativa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e delitos contra o Sistema Financeiro Nacional.

As conclusões integram o conjunto de provas que está sendo analisado pelo STF no âmbito das investigações relacionadas ao caso Master.

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