Guibsom Romão
Com a avenida repleta de elementos da vida de Rita Lee, a Estrela Guia da Zona Oeste coloriu Sapucaí, cantou forte, brincou e fez um desfile sem problemas no segundo dia de desfiles do Grupo Especial.
A Mocidade Independente de Padre Miguel, com o enredo “Rita Lee, A Padroeira da Liberdade”, de autoria do carnavalesco Renato Lage, prestou uma homenagem à cantora falecida em 2023. Estiveram presentes no último carro do desfile seu esposo e grande amor, Roberto de Carvalho, e a atriz Lilia Cabral. Representando um homem submisso, o desfile contou também com o comediante Diogo Defante. E atrás do último carro estavam os convidados da família, bem como os filhos da cantora.
O enredo celebrou Rita Lee como a “Padroeira da Liberdade”, transformando sua trajetória artística em símbolo permanente de enfrentamento, autonomia e irreverência. Partindo do episódio emblemático do show em Sergipe, quando a cantora enfrentou a ação policial no palco, a narrativa ressaltou que, em sua obra e em sua vida, arte nunca foi fuga, mas posicionamento.
A homenagem construída pela escola para o Carnaval de 2026 não se prendeu a uma biografia linear, mas optou por revelar sentidos: as múltiplas personas de Rita: da mutante psicodélica à feminista combativa, da artista censurada à estrela consagrada, compondo o retrato de uma mulher que fez do rock, do humor e da ousadia instrumentos de libertação individual e coletiva.
Dividido em sete setores, o desfile organizou simbolicamente essa trajetória: o Setor 1 “Mutante da pele marcada” apresentou o nascimento artístico e a explosão contracultural; o Setor 2 “A Tropicalista do verbo sem freio” celebrou sua inserção no Tropicalismo e a reinvenção estética brasileira; o Setor 3 “Remando Contra a Maré” destacou o enfrentamento à censura, ao conservadorismo e às tentativas de silenciamento; o Setor 4 “Sou voz feminina, plural” exaltou a consciência e a emancipação feminina promovidas por sua obra; o Setor 5 “Sexo é Carnaval” transformou desejo e prazer em celebração libertária; o Setor 6 “Ritas” revelou suas múltiplas faces: roqueira, mística, ativista, escritora e defensora de causas; e o Setor 7 “Rock e Samba” encerrou a narrativa convertendo sua irreverência em festa coletiva, fundindo guitarras e tamborins numa apoteose de liberdade.
A comissão de frente ‘Canto Rock e Sampa’, sob o comando do coreógrafo Marcelo Misailidis, significou a relação de Rita, como mulher real, sua história, suas composições, amores, a cidade de São Paulo, o Jeep do seu pai, e outros encantos da vida da paulistana.
Com uma Rita dirigindo um jeep, sem a utilização de um tripé, tivemos Rita presa em uma jaula que virou um disco voador e a libertou para tocar seu violão
O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Diogo Jesus e Bruna Santos, representou o lado psicodélico da cantora, com a fantasia inspirada na arte psicodélica dos anos 1960, movimento que misturou cores vibrantes e intensas para criar a sensação de alucinação visual, intensificar as emoções e estimular os sentidos.
O casal personificou a Rita Lee Mutante, fazendo referência ao grupo musical do qual ela participou no início da carreira. Com uma dança magistral, Diogo e Bruna mostraram, mais uma vez, o porquê de serem um quesito seguro da escola.
‘Psicodelicamente Lisérgico’ é o título do carro abre-alas, que, com cores fluorescentes e balões no topo, celebrou a chegada da cantora ao cenário da música brasileira no final dos anos 1960, quando ela fez história ao se tornar a primeira mulher a liderar uma banda roqueira no Brasil, Os Mutantes.
Como destaque no carro, veio a atriz Mel Lisboa, que interpretou a cantora no musical biográfico de Rita, com uma peruca chanel vermelha, penteado característico de Rita e usando um figurino inspirado no clássico macacão nude cravejado de estrelas prateadas.
As referências às músicas da cantora foram inúmeras, como na quarta e quinta alegoria, intituladas ‘Não Provoque! É Cor de Rosa-Choque’ e ‘O Castelo do Meu Doce Vampiro’, assim como nas alas, ‘La Miranda’, ‘Ovelha Negra’, ‘Erva Venenosa’, etc.
O tripé ‘A Paixão Pelos Animais’ simbolizou o amor e defesa fervorosa de Rita Lee pelos animais. Por conta disso, a escola argumentou que é impossível não imaginar Rita profundamente revoltada e exigindo justiça pelo caso de Orelha, o cão comunitário de Florianópolis, símbolo recente da violência e do descaso enfrentados por tantos animais no país. Então, as esculturas dos cachorros no tripé tinham na coleira o nome de Orelha.
O samba-enredo passeou pela obra musical de Rita com citações diretas de letras da cantora, mas o destaque fica no refrão em que “Mocidade êêêêê Minha Mocidade, voltei por você!” é cantado com a mesma melodia do refrão de ‘Erva Venenosa’.
Ao fim do desfile, a Mocidade Independente de Padre Miguel confirmou a força de uma homenagem que foi além da celebração nostálgica, transformando a trajetória de Rita Lee em manifesto coletivo de liberdade. Com canto potente, narrativa coesa e soluções cênicas criativas, a escola uniu rock e samba numa síntese vibrante, reafirmando que irreverência também é resistência e que na Avenida, a Padroeira da Liberdade segue eterna, agora sob o ritmo dos tamborins da Zona Oeste.
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