O ex-policial militar Rodrigo Silva das Neves, preso desde 2021, foi condenado nesta sexta-feira (10) a 32 anos, 9 meses e 18 dias de prisão pelo assassinato do bicheiro Fernando Iggnácio, executado em novembro de 2020. O júri popular declarou-o culpado de homicídio triplamente qualificado por volta das 18h, encerrando um processo que expôs as conexões entre agentes públicos e o submundo do jogo do bicho no Rio de Janeiro.
A defesa de Rodrigo Silva anunciou imediato recurso contra a decisão. O advogado Luiz Felipe Alves e Silva sustentou durante os debates finais que não existiam provas diretas ligando seu cliente à execução, questionou a ausência de exame de digitais nas armas apreendidas e negou qualquer envolvimento do ex-PM no crime.
A promotora que enfrentou a “máfia da contravenção”
A promotora, Andréa Fava, que atuou no caso, celebrou o resultado como um golpe contra a criminalidade organizada. “O resultado foi excelente hoje, o conselho de sentença, de forma democrática, deu um importante passo no combate à máfia da contravenção, do jogo do bicho e caça-níqueis”, declarou. Ela alertou, porém, que a luta continua: “A gente ainda tem um longo caminho pela frente com outros processos desmembrados em que outros coautores serão julgados, inclusive o mandante desse crime capital” — referência direta ao bicheiro Rogério Andrade, apontado como autor intelectual do assassinato.
Durante os debates, Fava não poupou críticas ao sistema. “A contravenção é um dos grandes cânceres desse Estado”, disparou, ao destacar o poder de bicheiros e contraventores em ordenar execuções com auxílio de policiais e agentes públicos.
As provas que pesaram contra Rodrigo Silva
A acusação construiu seu caso sobre três pilares: Rodrigo Silva estaria presente no local do homicídio, teria cedido o veículo utilizado no crime e guardava em seu apartamento as armas do assassinato. A peça-chave veio de um diário pessoal encontrado durante as investigações, no qual o ex-PM lamentava justamente o dia em que as armas foram descobertas pela polícia.
O crime ocorreu em 10 de novembro de 2020, quando Fernando Iggnácio — genro e herdeiro do lendário contraventor Castor de Andrade — foi emboscado no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio. Ele acabara de desembarcar de um helicóptero vindo de Angra dos Reis quando foi alvejado com tiros de fuzil 556.
Julgamento suspenso para coautores
O júri teve início com três réus, mas apenas Rodrigo Silva foi julgado até o fim. Seus supostos cúmplices — Pedro Emanuel D’Onofre Andrade Silva Cordeiro, conhecido como Pedrinho, e Otto Samuel D’Onofre Andrade Silva Cordeiro — conseguiram suspender seu julgamento durante a sessão.
Os dois pediram a destituição do advogado Flávio Fernandes, que havia alegado insanidade mental de Pedrinho e solicitado sua absolvição. Diante da recusa do juiz e da discordância com a estratégia defensiva, os irmãos optaram por dispensar o advogado. O júri deles será remarcado para data posterior.
O mandante e o pistoleiro que não enfrentaram a Justiça
O suposto mandante do crime, Rogério Andrade — sobrinho de Castor de Andrade e considerado por muitos o maior bicheiro do Rio — está preso desde outubro de 2024, mas não integra este julgamento. Sua condenação será apreciada em processo à parte.
Um quarto suspeito, Ygor Rodrigues Santos da Cruz, apelidado de Farofa e apontado como o pistoleiro que efetivamente matou Iggnácio, nunca foi julgado. Ele foi encontrado morto em novembro de 2022 no Terreirão, no Recreio dos Bandeirantes, eliminando a principal testemunha que poderia elucidar a dinâmica exata do crime.
A defesa de Rodrigo Silva das Neves mantém a tese de que a investigação da Delegacia de Homicídios que levou à prisão dos suspeitos foi “uma farsa”, negando qualquer vínculo do ex-PM com Rogério Andrade. Com a condenação de quase 33 anos, a próxima batalha judicial já está marcada: o recurso que tentará reverter o veredicto do júri popular.






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