Guibsom Romão
Com a missão de fechar a segunda noite de desfiles do Carnaval carioca, e após dois desfiles candidatos ao título. A Unidos da Tijuca fez uma manifestação em forma de desfile, com elementos emocionantes e enredo bem contado.
Tendo Carolina Maria de Jesus como título e enredo, a Amarelo Ouro e Azul Pavão da Tijuca, sob a autoria do carnavalesco Edson Pereira, homenageou a autora de Quarto de Despejo como protagonista absoluta de sua própria história, rompendo com os apagamentos que marcaram sua trajetória.
Ao optar por uma narrativa linear, em formato de livro, a Unidos da Tijuca apresentou sua vida como ela merecia: com começo, meio e continuidade, iluminando a infância pobre em Sacramento – MG, a escrita insurgente na favela do Canindé, periferia de São Paulo, o sucesso de Quarto de Despejo e o posterior esquecimento imposto pelo racismo estrutural e pelo mercado editorial. Mais do que revisitar a autora do diário, o desfile reafirmou Carolina como intelectual, artista múltipla e símbolo de resistência feminina negra, recolocando-a no centro da história cultural brasileira.
Dividido como um livro aberto na avenida, o enredo organizou-se em capítulos/setores que funcionaram como partes de uma biografia: o prólogo apresentou o sonho e a força ancestral da escritora; os primeiros capítulos trataram da infância, da formação leitora e das origens familiares; em seguida, vieram a vida na favela e a escrita de Quarto de Despejo, expondo fome, racismo e desigualdade; depois, o auge, a exploração editorial e o apagamento; por fim, um epílogo contundente celebrou o legado literário, os manuscritos redescobertos e a permanência de sua voz como projeto de país e farol para futuras gerações de mulheres negras.
A comissão de frente, coreografada por Ariadne Lax e Bruna Lopes, teve uma estética intencionalmente simples. Intitulada “Prólogo – Carolina Maria de Jesus”, abriu o desfile da escola, contextualizando sua trajetória a partir de Quarto de Despejo, como porta de entrada para sua história.
Do “burro sem rabo” às páginas que iluminaram o país, a cena transformou o carrinho de papel em símbolo de resistência e reinvenção, exaltando a força da mulher negra que escreveu o Brasil invisível. Ao final, Carolina surge altiva, sem o lenço, coroada pelo povo e pelo samba, afirmando que sua palavra é literatura, é arte e é eternidade na Avenida.
O casal de mestre-sala e porta-bandeira, Matheus Miranda e Lucinha Nobre, desfilou com um dos figurinos mais lindos da noite, com penas de pavão, símbolo da escola. A fantasia chamada ‘Esse É O Nosso Jeito De Escrever’ significou o ato da escola em tornar a autora um enredo, como aquela que apresenta o espetáculo criado por ela com o orgulho de sua mensagem.
Nas mãos do mestre-sala, uma caneta tinteiro deu o toque sutil à literatura. Com um bailado clássico e bem executado, o casal deve receber generosas notas na apuração.
Se alguém esperava miséria e pobreza na estética da escola, se enganou, com alegorias e fantasias ricas em detalhes e cores, a Tijuca subverteu qualquer presunção preconceituosa sobre a homenageada. O carro abre-alas ‘Aprendendo Os Mistérios Da Vida – A Crença, O Afeto E O Encontro Com As Palavras’ conduziu o público às lembranças mais luminosas da infância de Carolina Maria de Jesus.
A alegoria foi a transfiguração lúdica desse universo de memórias, registrado com delicadeza pela autora ao longo do livro da autora, Diário de Bitita. Frases como “A fome também é professora”, “Se eu sou negra, a fome é amarela”, “Quem inventou a fome são os que comem” são da autoria de Carolina e estão presentes em suas obras, bem como nos carros alegóricos do desfile.
No quinto último carro, ‘Lendo Um Novo Final – O Palácio Da Eternidade Para Carolina, A Imortal!’, o legado de Carolina pode ter visto, com personalidades como as escritoras Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves, as jornalistas Aline Midlej e Flávia Oliveira, a professora Helena Theodoro, entre outras mulheres negras que utilizam a palavra como poder no Brasil. Mas o destaque central ficou com a filha de Carolina, Vera Eunice, vestindo um figurino inspirado na lendária fantasia carnavalesca criada pela própria mãe.
Ao encerrar a segunda noite com um desfile que uniu rigor narrativo, emoção e posicionamento político, a Unidos da Tijuca não apenas contou a história de Carolina Maria de Jesus, ela a restituiu ao lugar de honra que sempre lhe pertenceu.
Ao transformar a Avenida em livro e a biografia em manifesto, a escola reafirmou que a palavra escrita por uma mulher negra favelada é patrimônio cultural do país. Mais do que uma homenagem, foi um gesto de reparação simbólica, daqueles que fazem do carnaval não só espetáculo, mas instrumento de memória, justiça e permanência.






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