Desenrola 2.0 negocia R$ 44,7 bilhões em menos de três meses e acelera renegociação de dívidas

Nova edição do programa já movimentou 84% do volume registrado na primeira fase e amplia alcance para empresas, enquanto governo busca reduzir a inadimplência recorde no país

O programa Desenrola 2.0 alcançou R$ 44,7 bilhões em operações renegociadas em menos de três meses de funcionamento, consolidando um ritmo muito superior ao registrado na primeira edição da iniciativa. Os dados, divulgados pelo Ministério da Fazenda e revelados pelo jornal O Globo, mostram que o novo programa já movimentou 84% dos R$ 53 bilhões negociados ao longo dos dez meses da versão anterior, realizada entre julho de 2023 e maio de 2024.

Lançado em maio como uma das principais estratégias do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para reduzir o endividamento da população e estimular a recuperação financeira de famílias e empresas, o Desenrola 2.0 ampliou o escopo da política pública ao incluir também a renegociação de dívidas empresariais.

Pessoas físicas e empresas impulsionam resultados

A maior parte das renegociações foi dividida entre consumidores e empresas.

No segmento destinado às pessoas físicas, o programa já contabiliza R$ 20,9 bilhões em dívidas renegociadas. Após os descontos obtidos nas negociações, o saldo dessas pendências foi reduzido para R$ 3,7 bilhões.

Em menos de três meses, o volume renegociado apenas com consumidores representa cerca de 40% de todas as operações realizadas para esse público durante a primeira edição do programa.

Já o Desenrola Empresas respondeu por R$ 23,2 bilhões do total negociado.

Nessa modalidade, empresas podem renegociar operações de crédito ativas com a mesma instituição financeira, incluindo contratos vinculados ao Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), voltado para negócios com faturamento anual de até R$ 4,8 milhões, e ao Procred 360, destinado a empreendimentos com receita anual de até R$ 360 mil.

Os recursos obtidos também podem ser utilizados para quitar integral ou parcialmente outros contratos bancários mantidos pelas empresas.

Uso do FGTS ainda é pequeno

Uma das principais novidades da segunda edição do programa foi a autorização para utilização de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) na quitação de dívidas.

Apesar da expectativa do governo, a adesão a essa modalidade ainda permanece baixa.

Até o momento, trabalhadores utilizaram R$ 55,5 milhões do FGTS para renegociar débitos, montante equivalente a apenas 0,68% do limite de R$ 8,2 bilhões disponibilizado pela União.

Ao todo, cerca de 97 mil trabalhadores recorreram aos recursos do fundo para quitar dívidas por meio do programa.

O Ministério da Fazenda ressalta que esse balanço considera apenas as operações do Desenrola 2.0 e não inclui iniciativas paralelas, como o Desenrola Fies, o Desenrola Adimplentes e o Desenrola Rural.

Programa avança em cenário de inadimplência recorde

O crescimento das renegociações ocorre em um momento de deterioração dos indicadores de crédito no país.

Segundo dados do Banco Central, a inadimplência bancária atingiu em maio o maior nível da série histórica, justamente no mês de lançamento do novo Desenrola Brasil.

Considerando pessoas físicas e jurídicas, a taxa de operações com atraso superior a 90 dias chegou a 4,7%.

A situação é ainda mais delicada nas operações de crédito livre para pessoas físicas, como cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais. Nesses segmentos, a inadimplência alcançou 7,6%, também recorde histórico.

Além disso, o endividamento das famílias brasileiras atingiu 49,9% da renda em fevereiro, maior percentual já registrado pelo Banco Central, refletindo um cenário que afeta mais de 80 milhões de brasileiros.

Para o economista Flávio Ataliba Barreto, a combinação entre juros elevados e facilidade de acesso ao crédito digital tem contribuído para agravar esse quadro.

“O novo mundo digital faz com que a gente consiga aumentar nosso limite ou contratar um empréstimo apenas pelo celular. Antes era necessário ir até uma agência. Isso, somado aos padrões de consumo e ao crédito caro, como ocorre no Brasil, leva a um quadro mais preocupante de inadimplência e endividamento”, analisa Barreto.

Regras mais amplas aumentam adesão

Especialistas apontam que a maior velocidade do Desenrola 2.0 também está relacionada às mudanças nas regras do programa.

Enquanto a primeira edição estabelecia diferentes faixas de renda e limites específicos para participação, o novo formato ampliou o número de beneficiários.

Agora, consumidores com renda de até cinco salários mínimos — atualmente equivalente a R$ 8.105 — podem renegociar dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia.

Segundo a economista Juliana Inhasz, do Insper, a maior familiaridade dos brasileiros com o programa também contribuiu para acelerar a adesão.

“As pessoas já conhecem o programa, o que diminui o custo de entrada, de transação e as barreiras operacionais. O programa ampliou o escopo: há mais pessoas elegíveis e mais agentes financeiros participantes. Por fim, ainda existe um estoque grande de pessoas endividadas. Apesar das melhorias, os brasileiros continuam convivendo com dívidas contraídas há muito tempo. Ou seja, você ampliou o público que pode ser beneficiado, mas esse grupo continua bastante endividado”, avalia a economista.

Renegociações mudam a realidade de consumidores

Os efeitos do programa também aparecem no orçamento das famílias.

Um dos beneficiados é o estrategista de marketing e conteúdo Rafael Ribeiro, de 28 anos, que acumulou dívidas no cartão de crédito e precisou recorrer a empréstimos após perder o emprego.

Por meio do Desenrola 2.0, ele renegociou um débito de R$ 4,4 mil, conseguiu reduzir o valor para R$ 500 e quitou integralmente a pendência.

O governo espera que histórias semelhantes se multipliquem até o encerramento desta edição do programa, previsto para agosto. Até lá, consumidores e empresas ainda poderão aproveitar as condições especiais oferecidas para reorganizar suas finanças e reduzir o peso das dívidas.

Deixe um comentário

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo