* Paulo Baía
O Brasil atravessa um tempo em que as palavras não se encontram, em que os símbolos não se entendem, em que os gestos se tornam trincheiras. A polarização não é um acidente de percurso, não é uma briga de ocasião, não é um fenômeno passageiro. É a forma como o país respira, como se estrutura, como se olha no espelho. É calcificada, está incrustada na carne do cotidiano, infiltrada nos espaços íntimos e públicos, das conversas abafadas nas mesas de família às disputas ensurdecedoras das ruas. Não se pode escapar dela, porque ela se reproduz no silêncio e na fala, no culto e no voto, no trabalho e no lazer. O Brasil é, hoje, dois países convivendo de maneira forçada dentro das mesmas fronteiras, mas separados por narrativas que não se tocam.
Há quem insista em negar esse abismo. Lulistas, petistas e setores da esquerda buscam sustentar a ideia de que não há polarização verdadeira, mas apenas um campo simbólico dominante no qual todas as diferenças se resolveriam. A outra metade seria apenas uma distorção, uma massa fascista, neofascista, nazista, criminosa, que não merece ser levada em consideração. Essa tentativa de desqualificação é, no entanto, um gesto fútil, porque ignora a evidência mais elementar: há milhões de brasileiros que não se reconhecem nesse campo, milhões que organizam sua visão de mundo a partir de outros princípios, milhões que não aceitam ser tratados como sombras indesejadas. A polarização é, portanto, não apenas real, mas vital. Negá-la é tapar os olhos diante do terremoto que move a nação.
Mas a recusa não é exclusividade da esquerda. O bolsonarismo, as direitas, os conservadores e muitas correntes religiosas projetam sobre o lulismo a mesma negação radical. Para eles, o petismo é a encarnação da corrupção, o comunismo disfarçado, a degeneração dos costumes, a ameaça à ordem. Cada ação do outro lado é interpretada como conspiração, cada gesto como decadência moral, cada discurso como traição à pátria. Assim se produz uma simetria sombria: dois campos que se olham como inimigos existenciais, não como adversários políticos. Dois projetos de país que não reconhecem o outro como parte legítima da mesma comunidade.
Esse cenário gera uma sensação paradoxal: de um lado, há a exaustão de viver em guerra constante; de outro, há a certeza de que não se pode escapar dela. O Brasil se acostumou a respirar polarização como se fosse o ar natural. Os símbolos perderam inocência: o verde e amarelo da bandeira tornou-se identidade partidária, o vermelho tornou-se ameaça comunista, o hino tornou-se grito de guerra. Tudo está impregnado de significados excludentes. Nada é neutro, nada é simples. Até mesmo a palavra “pátria” é disputada como território em ruínas.
É nesse espaço em que a democracia aparece como questão central, talvez a mais dramática. Não se trata mais de discutir apenas quem governa, mas se a democracia ainda é reconhecida como valor inegociável ou se já foi reduzida a instrumento descartável. Nos anos em que a esquerda crescia, a democracia era horizonte comum, quase um consenso. Hoje, esse consenso ruiu. A extrema direita, no Brasil e em muitos lugares do mundo, deslocou o eixo do debate e relativizou a democracia, transformando-a em meio, não em fim. Isso é erosão: lenta, difusa, invisível à primeira vista, mas devastadora. Erosão que corrói as bases da confiança, que mina as instituições, que banaliza a violência, que coloca em dúvida a legitimidade do voto, do parlamento, do judiciário.
Nesse terreno instável, a democracia é atacada de todos os lados. De um lado, defende-se a democracia contra o fascismo, mas muitas vezes ao preço de negar a legitimidade de milhões de vozes conservadoras. De outro, defende-se a moralidade contra a corrupção, mas ao custo de corroer as instituições democráticas e flertar com soluções autoritárias. O paradoxo é cruel: ao negar o outro, cada lado mina o próprio espaço em que a democracia poderia florescer. A erosão democrática não é apenas obra de um campo, mas resultado da incapacidade mútua de reconhecer que nenhum projeto de país pode existir sozinho.
O Brasil é, assim, uma nação rachada por duas narrativas que se excluem. Uma proclama ser o bastião da justiça social e da resistência ao fascismo. A outra proclama ser o guardião da moralidade e da pátria contra o comunismo e a corrupção. Ambas se percebem como a verdadeira encarnação da brasilidade, ambas acusam a outra de ser inimiga da democracia. O resultado é um país em guerra consigo mesmo, em que a política deixou de ser campo de divergência para se tornar campo de extermínio simbólico.
Não há como negar essa realidade sem se perder na ilusão. Ganhar eleições, repetir slogans, exaltar nacionalismos instrumentais não basta. A questão central é a democracia. Ela é o fio que pode evitar que a divisão se transforme em ruína definitiva. Mas para que isso aconteça, é preciso que os dois lados reconheçam sua própria responsabilidade na erosão em curso. É preciso que aceitem que o outro existe, que o outro também sonha, que o outro também é parte. Caso contrário, a democracia não será mais que uma palavra gasta, usada como bandeira de ocasião, incapaz de sustentar a vida comum.
Por enquanto, o que se vê é a persistência da polarização como destino. Não há neutralidade, não há silêncio, não há espaço livre dela. O país respira a divisão a cada instante. E se não aprender a transformar essa ferida em possibilidade de convivência, viverá aprisionado em um ciclo de ódio e exclusão, até que a democracia, já fragilizada, se torne apenas memória distante. O desafio é imenso, mas é o único que realmente importa: salvar a democracia de sua erosão lenta e cruel, resgatando-a como valor universal. Até lá, o Brasil continuará a ser uma casa partida, habitada por dois inimigos que se olham com desconfiança e fúria, incapazes de enxergar no outro o espelho da própria humanidade.
* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ






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