Delegados da Polícia Federal decidiram intensificar o movimento de paralisação iniciado há duas semanas e aumentar a pressão sobre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A mobilização tem como principal reivindicação a criação de um fundo anticrime abastecido com recursos bilionários apreendidos em operações contra o crime organizado.
A decisão foi tomada nesta segunda-feira pela Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, que aprovou o movimento batizado de “82 horas sem PF” — referência aos 82 anos da corporação, celebrados no próximo sábado, informa Malu Gaspar, em O Globo. A proposta prevê a interrupção de atividades a partir de quarta-feira.
Serviços afetados e impacto nacional
Desde a semana passada, a mobilização já vem provocando impactos em serviços prestados à população. Entre os principais efeitos estão atrasos no agendamento para emissão e renovação de passaportes em diversos estados, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo, além da redução no atendimento a colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs).
Segundo a entidade, cerca de 90% dos inquéritos conduzidos pela PF já sofrem algum tipo de impacto. Com a ampliação da paralisação, há preocupação de que operações policiais também sejam afetadas nos próximos dias, embora ainda não haja confirmação oficial.
Exceções e atuação da direção da PF
A ADPF informou que a paralisação não atinge investigações consideradas sensíveis. Permanecem fora do movimento casos que envolvem pessoas com foro privilegiado, além de apurações relacionadas a crimes contra crianças, adolescentes e idosos, ou que tenham como objetivo prevenir ataques e homicídios.
Procurada, a Polícia Federal não se manifestou oficialmente sobre o movimento. Nos bastidores, no entanto, fontes indicam que o diretor-geral Andrei Rodrigues trabalha para minimizar os impactos e normalizar o atendimento à população.
Promessa não cumprida e cobrança ao governo
De acordo com o presidente da ADPF, Edvandir Paiva, a criação do Fundo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (Funcoc) foi uma promessa feita pelo então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, em novembro do ano passado, durante visita à superintendência da PF em Brasília.
Lewandowski deixou o cargo em janeiro, e a proposta ainda não foi implementada pelo governo federal. A expectativa da categoria é que o fundo seja criado inicialmente por meio de medida provisória e, posteriormente, regulamentado pelo Congresso Nacional.
Recursos bilionários e proposta de distribuição
Segundo a ADPF, operações contra o crime organizado resultaram na apreensão de cerca de R$ 9,5 bilhões no último ano. Atualmente, esses valores são destinados ao Tesouro Nacional. A proposta dos delegados é que os recursos passem a ser direcionados ao novo fundo.
A ideia é dividir os valores entre as três forças policiais da União — Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Polícia Penal — para investimentos em capacitação, melhoria da estrutura e pagamento de bonificações, em modelo semelhante ao adotado pela Receita Federal.






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