Crise que mata 200 por dia nos EUA se aproxima do Brasil

No ano passado, mais de 80 mil pessoas morreram por uso das substâncias

Nos Estados Unidos, uma crise silenciosa e devastadora mata cerca de 200 pessoas por dia: a epidemia dos opioides, resultado de décadas de prescrições em massa de analgésicos potentes, como OxyContin, nas mãos de pacientes e médicos seduzidos por vantagens e marketing agressivo dos grandes laboratórios.

Desde os anos 1990, a prescrição excessiva desencadeou ondas de dependência, que evoluíram com o avanço da heroína e, recentemente, do fentanil sintético — até 100 vezes mais potente que a morfina. Em 2023, mais de 81 mil mortes foram diretamente causadas por opioides, sendo quase 75 mil atribuídas exclusivamente aos sintético. No ano passado, morreram 80.391 pessoas, sendo quase a metade devido aos fabricados em laboratórios.

O fentanil, em particular, se tornou o maior responsável pelo genocídio químico silencioso que devasta comunidades inteiras nos EUA: adulterado em outras drogas, circulando no mercado negro e entrando pelas frestas nas políticas de controle público, provoca mais mortes que acidentes de carro ou armas de fogo. Apesar de leve queda de 2022 para 2023, o número de óbitos permanece em patamares extremamente altos — acima de 80 000, mantendo o alarmante índice de quase uma morte a cada cinco minutos.

No Brasil, o panorama ainda não alcança a magnitude dessa catástrofe, mas as autoridades de saúde já ligaram o alerta vermelho. Uma pesquisa da Unifesp mostrou que o consumo de opioides saltou de 0,8 % em 2012 para 7,6 % em 2023, atingindo especialmente as mulheres (8,8 %). Substâncias como morfina e tramadol, inicialmente restritas ao ambiente hospitalar, começaram a circular com mais frequência, e o fentanil já foi apreendido em operações policiais no Espírito Santo. Embora especialistas alertem que ainda não há uma crise de proporções americanas, o crescimento expressivo exige vigilância rigorosa, regulação de prescrição e prevenção — ou corremos o risco de repetir o pesadelo dos EUA aqui.

Frasco de OxyContin | Reprodução

 O que são os opioides?

Opioides são substâncias que se ligam aos receptores de dor no nosso sistema nervoso central. Eles incluem desde a morfina (natural) até a hidrocodona e fentanil (semi/sintéticos), sendo o fentanil até 100 vezes mais potente que a morfina. Pode ser natural (ópio), semi (heroína) ou totalmente sintético (metadona, fentanil). Sua função médica é legítima: mascarar dores intensas (pós-cirúrgicas, câncer etc). Mas o perigo está na tolerância e dependência física e psicológica. O corpo exige doses cada vez maiores para que o cérebro se prenda à sensação de bem-estar.

O que causou a crise nos Estados Unidos?

Nos anos 1990, a Federal Drug Administration (FDA) liberou aval para o uso massivo de opioides, e médicos passaram a prescrevê-lo como se fosse uma panaceia contra a dor — isso sem falar dos bônus que as farmacêuticas pagavam aos profissionais. Em pouco tempo, virou uma epidemia. Pesquisas apontam que a combinação entre oferta abusiva e marketing agressivo criou uma legião de viciados antes mesmo de muitos perceberem.

Se a primeira “onda” foi impulsionada pela prescrição médica, a segunda pela migração ao crack e heroína, a terceira pela invasão do fentanil sintético e, desde 2015, estamos na quarta onda: mistura de fentanil com cocaína e metanfetamina, que causaram juntas cerca 120 mil mortes em 2023. Além disso, a epidemia traz impacto geracional: nos EUA, entre 2011 e 2021, mais de 321.000 crianças perderam um dos pais por overdose. E estas crianças têm maior risco de adoecimento psicológico e abuso de drogas.

Fentanil causa mortes e arruína vidas de sem-teto | Reprodução

️Quantas pessoas morreram em 2024 nos EUA por overdose de opioides?

Em 2023, cerca de 81.083 mortes foram diretamente associadas a opioides, incluindo heroína, fentanil e analgésicos — uma queda leve, mas ainda altíssima. Somente os opioides sintéticos (como o fentanil) causaram 74.702 dessas mortes, número só ligeiramente menor que os 76.226 em 2022. Apesar da leve retração, os óbitos totais por overdose continuam beirando os 107.500, o que coloca as drogas como terceira maior causa de morte não intencional nos EUA. E não pense que está resolvido: em 2024, houve  cerca de 80.400 mortes confirmadas até dezembro.

Quais as diferenças em relação ao Brasil?

Nos EUA, o acesso fácil e o tráfico de opioides sintéticos transformaram a crise em um tsunami que matou quase meio milhão de pessoas desde 2016. Já no Brasil, apesar de 4,4 milhões de usuários sem prescrição identificados pela Fiocruz em 2019, ainda não ocorreu a explosão mortal vista lá. O uso por aqui ainda é mais associado a dor crônica e ambiente hospitalar, com controle e vigilância muito mais rígidos das receitas.

“As pessoas hoje têm mais acesso a cuidados paliativos. Precisamos lutar pela disponibilidade de opioides para quem precisa, ensinando a melhor forma de prescrever os medicamentos”, diz João Batista Garcia, diretor científico da Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP): “mas também temos de combater a prescrição indiscriminada de opioides.”

Temos duas realidades. Nos EUA, o vício foi impulsionado por prescrição e mercado paralelo, mas já afetou pessoas de todos os níveis sociais. No Brasil, apesar de surpresas no consumo, ainda não chegamos ao colapso. A gravidade está em prevenir logo, antes que o fentanil vire febre por aqui.

 A venda está aumentando no Brasil?

O mercado global de opioides em 2023 foi estimado em US$ 22,2 bilhões, crescendo para US$ 29,5 bilhões até 2033. No Brasil, embora não haja gráficos claros das receitas (médicas), pesquisadores alertam: há opioides circulando no mercado paralelo e 4,4 milhões já consumiram sem prescrição — ou seja, a demanda existe.  Apesar disso, no sistema legal, a prescrição continua cautelosa.

O Brasil tem “manejo ruim da dor”, ou seja, falha tanto por excesso como por subprescrição. A tendência é preocupante: sem regulação mais eficaz e controle de estoque, podemos replicar o desastre norte-americano. “Cerca de 80% dos pacientes com câncer vão apresentar dor no curso da doença ou do tratamento, mas é uma condição subtratada aqui no país”, afirma Christiane Pellegrino, uma das responsáveis pelo Núcleo de Dor Aguda do Hospital Sírio Libanês (SP).

Quais casos provocam dependência e vício?

O uso médico prolongado, especialmente em dor crônica, já é fator de risco: cerca de 4% dos pacientes continuam usando opioides meses após cirurgia. Outros fatores incluem idade jovem, histórico de uso de substâncias, diagnóstico psiquiátrico, uso de álcool/tabaco e doses elevadas ou prolongadas. A neurobiologia explica: os opioides ativam o sistema de recompensa (via dopamina), levando à tolerância e à síndrome de abstinência (náusea, tremores, insônia). A linha entre uso e vício é tênue, e muitos passam por ela sem perceber.

Quais os efeitos colaterais?

O uso precoce já causa constipação e sonolência. A longo prazo, surgem hipnoticidade mental, depressão respiratória e bradicardia, os principais responsáveis pelas overdoses. Usuários injetáveis também correm risco de infecções graves como HIV e hepatite C. Além disso, a dependência pode provocar depressão, isolamento e declínio social.

A recuperação é lenta e a abstinência cruel, apresentando quadros de diarreia, dor muscular, insônia, agitação e vontade insaciável pela substância. “No Brasil utilizamos uma estratégia mais moderna: administramos não só o opioide, mas também a dipirona e o paracetamol, por exemplo. Quando fazemos essas combinações, conseguimos usar o opioide em menores doses”, diz a doutora Christiane Pellegrino.

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