O uso de drones pelo crime organizado está aumentando a capacidade de ataque das quadrilhas no Rio de Janeiro e introduzindo uma nova dinâmica nos confrontos por território. Levantamento interno da Polícia Civil, elaborado a partir de registros de ocorrências, identificou pelo menos 17 ataques com utilização desses equipamentos desde o ano passado. Somente em 2026, foram contabilizados 12 casos.
Segundo informações da repórter Roberta de Souza, em apuração publicada em O Globo, os drones são empregados pelas forças de segurança para monitoramento e inteligência, mas também passaram a ser utilizados por traficantes em disputas entre grupos criminosos. Além de observar a movimentação de policiais e rivais, os equipamentos são usados para transportar armas e lançar explosivos.
A expansão dessa tecnologia é tratada por especialistas em segurança como uma mudança no padrão dos confrontos no estado. A utilização de drones acrescenta uma capacidade de ataque à distância em áreas onde a circulação de criminosos e agentes públicos já é marcada por confrontos armados.
Tecnologia passa a fazer parte da disputa territorial
A Polícia Civil encontrou evidências do uso de drones no planejamento de ações criminosas. Em uma troca de mensagens obtida durante investigação, um traficante enviou a Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, imagens aéreas de uma comunidade controlada pelo Terceiro Comando Puro (TCP), em Irajá, na Zona Norte.
Em outra conversa, Doca recebeu imagens produzidas por um drone equipado com câmera térmica. As imagens mostravam a movimentação em um dos acessos ao Complexo da Penha, área considerada estratégica para a facção.
A tecnologia também já foi empregada diretamente contra policiais. Em julho, uma equipe do 16º BPM foi alvo de explosivos lançados por drones durante uma operação na comunidade Cinco Bocas, no Complexo de Israel, área controlada pelo TCP.
Ataques ampliam preocupação das forças de segurança
A utilização dos equipamentos em áreas densamente povoadas aumenta a preocupação das forças de segurança. O secretário da Polícia Militar, coronel Sylvio Ricardo Ciuffo Guerra, afirmou que o emprego dos drones reproduz estratégias observadas em conflitos armados de outras partes do mundo.
Segundo ele, o lançamento de uma granada dentro de uma comunidade pode provocar danos de grandes proporções. Por isso, a Polícia Militar defende investimentos em sistemas capazes de identificar e neutralizar drones durante operações.
Para transformar equipamentos comerciais em armas, criminosos utilizam adaptações. Segundo a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas da Polícia Civil, 31 drones foram apreendidos neste ano com pessoas suspeitas de integrar organizações criminosas.
Adaptações tornam drones comerciais em armas
Um dos equipamentos identificados pelas autoridades era originalmente utilizado para liberar pétalas em cerimônias. Adaptado a um drone e acionado por sensor de luz, o dispositivo passou a ser empregado para liberar explosivos à distância.
Um relatório da organização Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED) também apontou a facilidade de adaptação de drones comerciais de baixo custo para utilização por organizações criminosas na América Latina. Segundo a entidade, enquanto a transformação do equipamento em arma pode ser relativamente simples, sistemas de detecção e bloqueio são mais caros e complexos.
O pesquisador Roberto Uchôa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisador na Universidade de Coimbra, avalia que o avanço dessa tecnologia pode representar uma nova mudança no padrão dos conflitos. Ele também chama atenção para a possibilidade de organizações criminosas incorporarem conhecimentos adquiridos em outros cenários de conflito.
Crime também busca equipamentos antidrones
As organizações criminosas também passaram a procurar recursos para identificar e evitar drones. No início de agosto, depois de uma troca de tiros entre policiais militares e traficantes na comunidade do Corte 8, em Duque de Caxias, agentes encontraram com integrantes do Comando Vermelho um equipamento capaz de detectar a presença de drones.
Outro caso aparece em uma denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal contra o ex-deputado estadual Thiago Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Jóias. Segundo a investigação, conversas envolvendo Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o Dudu, e um integrante do TCP tratavam da aquisição de equipamentos para identificar drones.
A denúncia também aponta que esses dispositivos eram comprados pela internet e posteriormente repassados a traficantes. Em uma das conversas investigadas, aparece ainda uma referência a R$ 55 mil relacionada à aquisição de equipamentos associados ao uso de drones.
Estado busca resposta para nova ameaça
O delegado Fabrício Oliveira, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), defende que as forças de segurança tenham acesso a sistemas capazes de detectar, localizar e neutralizar os equipamentos utilizados pelo crime.
O governo do Rio iniciou, no ano passado, um processo para adquirir tecnologia antidrones. Segundo o Estado, a iniciativa foi interrompida após mudanças na regulamentação federal relacionada ao uso de radiofrequências desses equipamentos.
O Ministério da Justiça informou que está adquirindo sistemas antidrones para distribuir aos estados onde já foram registrados ataques de organizações criminosas com esse tipo de tecnologia. De acordo com o ministério, o primeiro contrato foi assinado e equipamentos deverão ser disponibilizados às forças de segurança do Rio de Janeiro e de outros estados.
A discussão, porém, envolve não apenas a capacidade de detectar os drones, mas também a origem dos explosivos e a cadeia de fornecimento utilizada pelas organizações criminosas. A expansão dos ataques coloca a tecnologia como mais um elemento no aumento da complexidade dos confrontos armados no Rio de Janeiro.







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