Uma operação secreta da Polícia Federal acompanhou durante semanas uma carga de produtos de higiene que saiu do Brasil com destino à Europa. Dentro de frascos de xampu havia cocaína, segundo a investigação. A remessa tinha 403 litros e foi retirada de uma fábrica em São Paulo antes de seguir para o Aeroporto Internacional de Guarulhos.
A ação foi detalhada pelo Fantástico, que acompanhou as imagens produzidas durante a investigação. A PF informou que a fabricante dos produtos não tinha envolvimento com o esquema e que os itens eram retirados da empresa, adulterados posteriormente e enviados ao exterior.
A investigação começou depois que os policiais receberam informações de que cosméticos estavam sendo utilizados para transportar cocaína para a Europa. Quando a denúncia chegou às autoridades, duas cargas já haviam sido encaminhadas para a Alemanha.
Carga foi monitorada desde a fábrica
Em 14 de agosto, agentes acompanharam de dentro da fábrica a retirada dos 403 litros de xampu que seriam enviados para Berlim, com escala em Lisboa. A mercadoria permaneceu mais de um dia parada antes de voltar a ser movimentada.
No domingo, 16 de agosto, os investigadores acompanharam os envolvidos até uma casa de curta temporada em Diadema, na Grande São Paulo. Segundo a PF, foi nesse imóvel que os frascos foram adulterados.
Entre os monitorados estava Aline Morgado Cassaro. No dia seguinte, a carga foi levada de Diadema para o complexo do Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Os produtos passaram pelo raio-X e seguiram o fluxo normal do terminal. Depois, foram encaminhados para a área de montagem, presos a uma rede de contenção e transportados pelo pátio até a aeronave.
Na madrugada de 19 de agosto, o avião deixou o Brasil. A operação continuou em sigilo e as autoridades acompanharam toda a movimentação da carga.
A PF afirmou que não encontrou indícios de participação da empresa responsável pela fabricação do xampu, de funcionários do aeroporto ou da companhia aérea.
Droga passou por Portugal antes de chegar à Alemanha
Em Lisboa, policiais portugueses já aguardavam a remessa. Um dos frascos foi retirado para análise, e o teste confirmou a presença de cocaína.
Como ninguém apareceu para retirar a carga em Portugal, as autoridades permitiram que ela continuasse a viagem até a Alemanha. O objetivo era identificar quem receberia os produtos no destino final.
A Polícia Criminal Federal alemã passou a acompanhar a mercadoria e realizou a intervenção próximo ao local onde a carga seria descarregada.
Três suspeitos foram presos na Alemanha. Samir Shahade, administrador da empresa importadora que havia encomendado os produtos, foi preso posteriormente na Turquia.
No Brasil, a operação avançou em 15 de setembro, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Anticaspa, após aproximadamente um mês de acompanhamento sigiloso.
Operação Anticaspa prende suspeitos no Brasil
Aline Morgado Cassaro, identificada nas imagens durante a movimentação da carga em Diadema, foi presa. Danilo de Oliveira também foi detido.
Na residência de Danilo, os policiais encontraram frascos do mesmo tipo de xampu usado na carga e recipientes com ácido clorídrico, substância que pode ser empregada no processamento da cocaína.
O motorista responsável pela retirada da carga, Marcelo Andrade dos Passos, está foragido.
Aline já havia sido identificada em outra ocorrência envolvendo cocaína. Em 28 de julho, ela estava em um carro parado na Rodovia Presidente Dutra onde foram encontrados 50 tabletes da droga.
Na ocasião, o motorista afirmou à polícia que Aline não sabia da existência da cocaína. Ele permaneceu preso, enquanto ela foi liberada.
No âmbito da Operação Anticaspa, Aline teve prisão temporária decretada por 30 dias. A defesa pediu a revogação da medida e afirmou que pretende demonstrar a inocência dela.
A defesa de Danilo de Oliveira não havia sido localizada.
Cocaína já foi escondida em outros materiais
O uso de produtos aparentemente comuns para transportar cocaína não é uma prática isolada. Segundo as informações apresentadas pelo Fantástico, autoridades já encontraram a droga incorporada a líquidos, plásticos, tecidos, carvão e cera de abelha.
Um relatório da Organização das Nações Unidas aponta crescimento da chamada camuflagem química na Europa. Laboratórios clandestinos especializados em recuperar a cocaína de materiais usados para esconder a droga também foram identificados no continente.
Na Holanda, segundo a polícia local, grupos criminosos chegaram a contratar especialistas colombianos para separar a cocaína dos materiais utilizados como disfarce.
A professora de Química Forense da USP Ribeirão Preto Aline Thais Bruni explicou que uma substância pode ser dissolvida em outro material e, posteriormente, recuperada por processos químicos.
Em Valência, na Espanha, mais de oito quilos de cocaína líquida foram encontrados recentemente dentro de frascos de xampu. Os recipientes tinham uma pequena quantidade de xampu verdadeiro no gargalo para reforçar a aparência de produto convencional.
Em 2023, autoridades de Hong Kong também apreenderam cocaína líquida em 17 lençóis. A quantidade total chegou a dez quilos.
PF ainda aguarda análise sobre o método usado
No caso da carga brasileira enviada para a Alemanha, a Polícia Federal ainda não sabe exatamente como a cocaína foi colocada nos frascos de xampu.
Os investigadores aguardam os resultados do laboratório da polícia alemã para determinar se a droga foi transformada em cocaína líquida ou se foi transportada em pó dentro de recipientes colocados nos frascos.
Para a PF, o caso também demonstra como grupos criminosos mudam os métodos de transporte quando as autoridades conseguem identificar e bloquear determinadas rotas.
A investigação continua para esclarecer a participação de todos os envolvidos e identificar outras pessoas eventualmente ligadas ao esquema.







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