Corrida por minerais críticos no Brasil faz pedidos de pesquisa subirem 81% em um ano

Interesse global por terras raras e insumos da transição energética impulsiona acordos internacionais e desafia capacidade da agência reguladora

O avanço global da transição energética e a disputa geopolítica por insumos estratégicos colocaram o Brasil no centro da corrida por minerais críticos. Em 2025, a Agência Nacional de Mineração (ANM) registrou uma explosão nos pedidos de autorização de pesquisa mineral, com crescimento de 81% entre o primeiro e o quarto trimestre do ano, informa a Folha de S. Paulo.

Nos três primeiros meses de 2025, foram protocolados 1.637 requerimentos de pesquisa mineral. Já entre outubro e dezembro, o volume saltou para 2.960 solicitações. No acumulado do ano passado, a agência contabilizou 9.319 pedidos de pesquisa em todo o país.

Segundo relatório concluído neste mês, a ANM atribui o aumento à movimentação do mercado em busca de minerais críticos, grupo que inclui terras raras, lítio, níquel e cobalto, essenciais para baterias, veículos elétricos e tecnologias de energia limpa.

“A movimentação do mercado por busca de minerais críticos impactou o número de requerimentos de pesquisa especialmente na segunda quinzena de novembro e dezembro de 2025 sem que haja tempo hábil para análise imediata”, afirma a agência no documento.

Acordo com a Índia

O interesse crescente também se reflete na diplomacia brasileira. No sábado (21), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, assinaram um acordo de cooperação voltado a minerais críticos e terras raras.

O instrumento, formalizado como memorando de entendimento, não estabelece metas financeiras nem obrigações vinculantes entre os países. Trata-se de um acordo de intenções, que depende da implementação prática pelos governos.

“Ampliar os investimentos e a cooperação em matéria de energias renováveis e minerais críticos está no cerne do acordo pioneiro que assinamos hoje”, disse Lula. “Nossos países estão assegurando o devido espaço para essa tecnologia na agenda climática e energética global.”

O texto prevê cooperação técnica e política, mas não permite que uma das partes cobre formalmente a outra caso as medidas não sejam executadas.

Potencial geológico e baixa produção

Dados da ANM mostram que o Brasil ocupa posição relevante em reservas minerais estratégicas. O país concentra 94,1% das reservas mundiais de nióbio, 22,4% de grafita, 16% de níquel e 9,1% de terras raras, além de estar na sétima posição global em lítio.

Apesar do potencial, a participação brasileira na produção global ainda é limitada. O país responde por apenas 0,002% da produção mundial de lítio, 0,03% de terras raras, 3% de níquel e 2% de cobre. A produção de cobalto também é considerada mínima.

O cenário internacional é marcado por forte concentração. A China controla 82% da produção mundial de grafite e detém cerca de 70% das reservas globais de minerais críticos, além de aproximadamente 90% da capacidade de processamento dessas substâncias. No caso do níquel, cerca de 60% da oferta mundial está concentrada na Indonésia.

Ao mesmo tempo, projeções apontam para possíveis déficits globais de cobre, lítio, níquel e cobalto na próxima década, mesmo com novos projetos em andamento.

Entre 2017 e 2022, a demanda global por lítio triplicou, impulsionada pelo crescimento das baterias para veículos elétricos. No mesmo período, o consumo de cobalto avançou 70% e o de níquel, 40%.

Desafio do processamento

O governo brasileiro tem sinalizado que pretende ampliar sua participação na cadeia produtiva, indo além da simples extração do minério. Produtos como sulfato de níquel e ímãs de terras raras, fundamentais para baterias e equipamentos eletrônicos, ainda não são produzidos em escala no país.

A dependência do processamento externo, especialmente da China, é vista como um gargalo estratégico. O domínio chinês envolve etapas industriais de alta complexidade, que exigem investimentos elevados e domínio tecnológico.

Mesmo com essa lacuna, o setor mineral já tem peso significativo na economia nacional. Em 2024, a produção mineral brasileira movimentou R$ 270,4 bilhões, respondeu por 33% do superávit da balança comercial e por quase 20% das exportações. O segmento também gerou R$ 93,4 bilhões em tributos.

Estrutura pressionada

O crescimento acelerado dos pedidos de pesquisa, porém, expôs limitações estruturais da ANM. A análise das solicitações vinha sendo feita com apoio de forças-tarefa em algumas unidades regionais, que deixaram de operar ao longo do ano devido a restrições orçamentárias.

A agência também enfrenta escassez de servidores dedicados exclusivamente ao controle de áreas minerárias. Uma nova força-tarefa foi organizada em dezembro, quando o número de pedidos já havia atingido o pico, mas não conseguiu dar vazão à demanda por alvarás.

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