As vezes a vida muda dentro de um ônibus. No dia 1º de abril de 2001, às duas da tarde, Ivhone Gomes Delgado, hoje com 70 anos, entrou na quadra da Unidos da Tijuca pela primeira vez. Estava triste. Um amigo insistiu para que ela conhecesse a escola e ela aceitou o convite sem imaginar que aquela decisão reorganizaria completamente o rumo da própria vida. O amigo partiu, ela ficou. E, 25 anos depois, preside a ala mais tradicional das escolas de samba: as baianas.
“Eu comecei no Carnaval por acaso. Eu gostava de assistir pela televisão e tinha uma paixãozinha pela ala das baianas. Um dia, eu estava dentro do ônibus com um amigo, e ele me levou para conhecer esse mundo mágico. Eu me apaixonei e mergulhei de cabeça. Quando eu vi, já estava dentro”, contou a presidente em mais um capítulo da série Artistas da Avenida, da Agenda do Poder.
Até então, Ivhone construía trajetória na área administrativa da educação. Trabalhava como secretária na coordenação de um colégio. Lidava com organização, responsabilidade e planejamento. A rotina era típica de uma funcionária pública: estável, previsível e segura.
O Carnaval representava o completo oposto disso, com intensidade, risco e entrega total. Mesmo assim, quando surgiu o convite para assumir um cargo dentro de uma escola de samba mirim, decidiu romper com a estabilidade.
Eu falei para a minha coordenadora: ‘Me manda embora? Porque eu preciso assumir um cargo que eu não tenho a menor ideia de como fazer’. Eu larguei meu emprego. Nem o seguro-desemprego peguei. Eu tinha medo, mas se fosse para fazer, queria fazer direito”
A decisão provocou espanto. O então presidente questionou a escolha e os amigos consideraram precipitação. Ivone, porém, enxergou o propósito.
Em um desses carnavais, assistia a um homem presidir a ala das baianas quando resolveu perguntar: “como eu consigo fazer isso?”. De lá, saiu inspirada e decidiu procurar uma escola do Grupo Especial para integrar.
“Eu comecei saindo de fantasia numa escola, mas aquilo não era realmente minha praia. Aí, no ano seguinte, fui a uma festa e encontrei um presidente de ala de baiana. E você sabe, é uma coceirinha de querer mais, né? Procurei outra escola.”

A construção de uma liderança sem imposição
Ivhone começou na parte administrativa da escola de samba. Não tinha ligação direta com a Ala das Baianas. Cuidava da organização interna, dos processos, dos bastidores. Com o tempo, a direção a convidou para assumir a ala. A partir desse momento, encontrou seu território definitivo dentro da escola.
“Uma é mãe da outra, uma cuida da outra, são irmãs, uma família. É uma responsabilidade, uma fantasia imponente. A baiana não dá ponto, mas ela tira ponto. Então, ela tem que ter aquela responsabilidade de estar na avenida. Eu não me considero presidente, sou igual a todas elas, só organizo”, conta.
Organizar, no vocabulário da carioca, significa mais do que distribuir fantasias. Ela acompanha provas de roupa ao longo do ano, analisa qual modelo veste melhor cada corpo, observa quem precisa de ajuste e pensa no conforto para que ninguém sofra na Avenida.
Também controla as inscrições, acompanha a presença nos ensaios e cria uma rede de cuidado que ultrapassa o Carnaval. Sob a fala firme e o jeito de general, esconde-se o coração de uma mãe, um sentimento quase maternal pelas baianas e por outros componentes da escola.

“Eu nunca imponho. Eu não digo: ‘Vocês têm que usar tal roupa’. Eu pergunto: qual roupa vocês querem? Se alguém não tem, eu busco. Eu posso dar uma ideia na hora de levar no ateliê para fazer, mas não mando. Eu imponho, sim, que estejam com a roupa direitinha, arrumadinha, para que todas estejam bonitas.”
”Não é qualquer um que pode colocar uma saia e rodar”
Essa postura construiu uma autoridade baseada na confiança e se reflete na forma como as colegas de ala se dirigem a ela. As baianas avisam quando chegam em casa, compartilham problemas pessoais, pedem orientação. Para Ivone, o setor funciona como extensão da vida.
“Chegou? Bota lá no grupo: cheguei. Tá bem de saúde? Tá fazendo o quê? Viajou para onde? São essas coisas que a gente cuida.”
No setor tradicional da Azul e Amarelo da Tijuca, o sentimento é de maternidade coletiva. Há baianas de 20 anos a baianas de 80. A maioria é negra, como ela ressalta. Algumas são mães, outras não, mas compartilham uma irmandade.
“Quer me matar é dizer: ‘Se não fizer direito vai desfilar na ala das baianas’, como se fosse castigo. Não é castigo. Ala das baianas é amor, é sacrifício porque algumas roupas podem machucar, é compromisso.”
Ivhone Gomes, diretora da Ala das Baianas da Unidos da Tijuca
Segundo Ivhone, não há uma coreografia fixa, mas é preciso ter o segredo do bailado: “Não é qualquer um que chega, coloca aquela roupa e roda, não. Tem que levar jeito. A baiana gira para um lado, gira para o outro durante o refrão. E a baiana tem aquele gingado, aquele corpo de senhoras”, explica.
Apesar de parecer simples, é necessário treino e método para construir uma sincronia visível na Avenida.

“Eu peço sempre: vamos aos ensaios para aperfeiçoar, ver o lado de girar, a hora de parar de rodar, a hora de avançar, o jeito de fazer a curva. Essas coisas todas a gente tem que aprender durante o ano, para que, quando chegar o dia, estejam todas maravilhosas.”
Hoje, a Tijuca ocupa espaço central na vida da presidente. Seu cuidado vai além da própria ala: “Se eu tiver que dormir no barracão, eu durmo. Se tiver que varrer a quadra, eu varro. A gente está aqui para ajudar. É um todo.”
O amor que contagiou a família
Moradora da Ilha de Paquetá, na capital fluminense, a presidente diz que nunca se deslumbrou com luxo ou fantasia cara. O que a encantou foi a imagem coletiva das saias rodando em sincronia e o peso histórico da ala que representa as tias baianas, as matriarcas do samba.
O amor foi tanto que atravessou gerações e chegou ao filho mais velho. Mãe de três homens e avó de três meninas, depois de tantos anos, a escola se tornou parte da dinâmica familiar.
“Esse mesmo amor, por incrível que pareça, passou para um filho meu mais velho. Em época de Carnaval eu não vejo filho, neto. Mas o mais velho falou um dia pra mim assim: ‘Mãe, posso ir com você no barracão te ajudar?’ E realmente, ele tem um carinho com elas (baianas). Me pergunta: ‘Mãe, você deu água para elas?’” lembra, aos risos.

As baianas em Carolina Maria de Jesus na Avenida
Em 2026, a Unidos da Tijuca leva para a Marquês de Sapucaí a história de Carolina Maria de Jesus, escritora negra que registrou a fome, a pobreza e a dignidade da vida na favela do Canindé em Quarto de Despejo. Descoberta por um jornalista, a jovem teve os escritos publicados, o que gerou ampla identificação.
Ivhone reconhece nas baianas essa mesma estrutura de força.
“O que Carolina tem das baianas? Luta. Dificuldade. Alegria. Força de vontade. Raça. As baianas passam por lutas e não perdem o prazer de vir. Trabalham até pelo outro. São mulheres fortes”, pontua.
Assinado pelo carnavalesco Edson Pereira, o tema do enredo dialoga diretamente com o perfil da ala, diz a presidente: “É um enredo de uma mulher negra. E a maioria das nossas baianas são mulheres negras. Mulheres que superam todo dia. Se fosse baiana, tinha que ser. Porque não é qualquer uma que veste aquela roupa e roda.”
A presidente-matriarca pretende se despedir do Carnaval neste ano. Entre um choro emocionado, Ivone agradeceu às mulheres que caminharam ao seu lado.
“Eu acho que tá chegando a hora de parar. Tá começando a chegar a hora de dar a vez para o outro. E o que eu vou dizer pra elas? Muito obrigada. Se não fossem elas eu também não estaria nesse lugar”.
A Unidos da Tijuca será a última escola a se apresentar na Marquês de Sapucaí, na segunda-feira (16). O desfile deve começar entre 2h30 e 3h.
*Estagiária sob supervisão de Thiago Antunes






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