Copom avalia manter Selic em 13,75% por eleições e com pressão sobre a inflação

Algumas instituições financeiras já trabalham com a possibilidade de interrupção dos cortes por período prolongado, enquanto outras ainda consideram possível uma redução na reunião de novembro

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A primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central após as eleições ocorre em meio ao avanço da inflação, à desvalorização do real e às incertezas sobre a política fiscal do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo análise em reportagem de Élida Olivdira, do portal especializado Infomoney, o cenário alterou as expectativas do mercado financeiro, que passou a considerar mais provável a manutenção da taxa básica de juros em 13,75% ao ano.

Até poucos dias antes do segundo turno, a previsão predominante era de um novo corte de 0,25 ponto percentual na Selic. Entretanto, a reação dos mercados ao resultado eleitoral mudou as projeções e reduziu o espaço esperado para a continuidade do ciclo de flexibilização monetária.

Algumas instituições financeiras já trabalham com a possibilidade de interrupção dos cortes por período prolongado, enquanto outras ainda consideram possível uma redução na reunião de novembro.

Dólar e inflação mudam as expectativas do mercado

A cotação do dólar passou de R$ 4,96, registrada na sexta-feira anterior ao segundo turno, para aproximadamente R$ 5,40 até esta terça-feira (3). A desvalorização da moeda brasileira aumentou as preocupações com o repasse dos custos de produtos importados aos preços internos.

Outro fator de pressão é o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que acumula alta de 4,58% em 12 meses, acima do teto da meta de inflação, estabelecido em 4,5%.

Para Guilherme Ghidetti, sócio e diretor de investimentos da Jera Capital, a mudança no cenário cambial e nas expectativas de inflação reduziu a possibilidade de um novo corte nos juros.

Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos da AW Capital, também avalia que a reação do mercado à eleição modificou as perspectivas para a decisão do Banco Central. Segundo ele, embora os indicadores de inflação e atividade econômica permitissem uma redução, o comportamento dos juros futuros aponta para uma possível manutenção.

Serviços e custos trabalhistas pressionam a Selic

A inflação de serviços também aparece entre os fatores que dificultam a redução dos juros. Os preços desse segmento apresentam resistência à desaceleração, especialmente nas atividades com maior participação de mão de obra.

Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, afirma que os serviços intensivos em trabalho já registram aumento superior a 7%. O indicador é acompanhado pelo mercado por refletir as condições da demanda interna e a evolução dos salários.

A avaliação é que a persistência dessas pressões pode exigir a manutenção de uma política monetária restritiva por mais tempo, reduzindo a margem para novos cortes da Selic.

Instituições projetam interrupção dos cortes

Entre as instituições que trabalham com a manutenção dos juros está a Suno Research. O economista-chefe da empresa, Gustavo Sung, projeta que a Selic permaneça em 13,75% até o fim de 2026, com possibilidade de recuo para 12% ao final de 2027.

Na avaliação de Sung, fatores como o impacto do El Niño sobre os alimentos, o petróleo acima de US$ 110 por barril e os custos trabalhistas associados ao fim da escala 6×1 limitam as possibilidades de flexibilização monetária.

Carlos Lopes, economista do BV, também não espera redução dos juros em novembro ou dezembro. Sua projeção considera a possibilidade de manutenção da taxa por período prolongado, pelo menos até o segundo trimestre de 2027.

A XP, por sua vez, trabalha com um cenário de interrupção do ciclo de cortes até o fim de 2027, diante das perspectivas para a inflação.

Parte dos analistas ainda prevê redução de 0,25 ponto

Apesar da mudança nas expectativas, há economistas que mantêm a previsão de um corte de 0,25 ponto percentual na reunião de novembro, levando a Selic de 13,75% para 13,5% ao ano.

É o caso de Leandro Padulla, economista do ASA, e Rafaela Vitoria, economista-chefe do Inter.

Padulla considera que a desaceleração da atividade econômica e as projeções de inflação no horizonte relevante ainda justificam uma redução. Ele ressalta, entretanto, que a desvalorização do real e a possível piora das expectativas diminuíram o espaço para o corte.

Rafaela Vitoria também mantém a previsão de redução para 13,5%, mas considera provável uma pausa no ciclo de ajustes na reunião seguinte. Segundo a economista, a taxa continuaria em nível restritivo, enquanto a retomada dos cortes dependeria de medidas fiscais estruturantes.

Redução prematura pode encarecer o crédito

Roberto Simioni, da Blue3 Investimentos, alerta que uma redução antecipada dos juros pode provocar um efeito contrário ao esperado pela política monetária.

Segundo o economista, caso o Banco Central reduza a taxa básica em um ambiente de desconfiança fiscal e expectativas de inflação desancoradas, os juros de longo prazo podem subir.

Esse movimento poderia elevar os custos do crédito imobiliário, dos investimentos produtivos e do financiamento da dívida pública, mesmo com uma eventual redução da Selic.

A preocupação é que a desconfiança dos investidores aumente os prêmios exigidos para financiar o governo e as empresas, dificultando a melhora das condições de crédito na economia.

Cenário internacional aumenta pressão sobre o Banco Central

O ambiente externo também influencia as decisões do Copom. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) mantém os juros entre 3,75% e 4%, reduzindo o diferencial entre as taxas brasileiras e americanas.

Segundo Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, essa diferença menor reduz a atratividade das operações de carry trade e pode manter a pressão sobre o real.

A desvalorização cambial aumenta o custo de produtos importados e combustíveis, com possibilidade de reflexos nas projeções de inflação. O petróleo acima de US$ 110 por barril, as tensões no Oriente Médio e os efeitos do El Niño sobre os alimentos também integram a lista de preocupações.

Nesse contexto, o Banco Central precisa considerar os riscos externos e internos antes de definir o ritmo da política monetária.

Risco fiscal influencia projeções para 2027 e 2028

A preocupação com as contas públicas brasileiras é outro elemento que interfere nas expectativas do mercado. Investidores acompanham a capacidade do governo de controlar despesas e apresentar medidas capazes de estabilizar a trajetória da dívida pública.

Guilherme Ghidetti, da Jera Capital, destaca que a independência do Banco Central é considerada um fator importante para a confiança dos investidores. Ele lembra que, sob a presidência de Gabriel Galípolo, a instituição elevou a Selic até 15% em junho de 2025 e iniciou os cortes somente em março de 2026.

As projeções do Boletim Focus também refletem a mudança de percepção. Segundo André Matos, CEO da MA7 Capital, a estimativa para a Selic no fim de 2027 passou de 11,75% para 12,50%. A expectativa de inflação para o mesmo período de referência mencionado na análise subiu de 4,34% para 4,76%.

Matos afirma que cada ponto percentual adicional na taxa básica representa um custo anual aproximado de R$ 50 bilhões em juros para o governo. Sem um plano fiscal considerado convincente, a dívida pública poderá chegar a 77% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2028.

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, e Gustavo Assis, CEO da Asset, também apontam o controle das despesas obrigatórias como condição para uma trajetória de juros menores nos próximos anos.

A decisão do Copom, portanto, ocorre em um cenário de divergência entre os analistas, com a manutenção da Selic em 13,75% ganhando força diante das pressões inflacionárias, da desvalorização cambial e das incertezas sobre as contas públicas.

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