A Copa do Mundo de 2026 começa sob um dos maiores esquemas de segurança já montados para um evento esportivo. Com partidas distribuídas entre Estados Unidos, México e Canadá, o torneio mobiliza centenas de órgãos de segurança, bilhões de dólares em investimentos e um aparato tecnológico que inclui sistemas antidrones, reconhecimento facial e agentes especializados acompanhando cada uma das 48 seleções classificadas.
Nos Estados Unidos, país que concentra a maior parte da competição, as autoridades classificam a operação como um desafio histórico. Em entrevista ao portal UOL, os responsáveis pela segurança em Nova York e Nova Jersey definiram o Mundial como um evento de proporções “épicas” e “sem precedentes”, tanto pelo tamanho quanto pelos riscos envolvidos.
A eles caberá a responsabilidade de proteger seleções como Brasil, Marrocos, Haiti e Senegal durante a fase de grupos, além de garantir a segurança de partidas decisivas, incluindo a grande final marcada para 19 de julho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.
A edição de 2026 já entrou para a história como a maior Copa do Mundo já realizada, reunindo 48 seleções e três países-sede. Embora o torneio tenha começado oficialmente no México, com a vitória dos anfitriões sobre a África do Sul por 2 a 0, os Estados Unidos concentram a maior parte da estrutura da competição, com 11 das 16 cidades-sede.
Operação reúne mais de 400 órgãos de segurança
A dimensão do desafio levou o governo dos EUA a ampliar significativamente os investimentos em segurança. Foram destinados US$ 625 milhões em recursos federais adicionais para reforçar os orçamentos locais das cidades que recebem partidas.
Mais de 400 órgãos de segurança pública atuam de forma integrada com o governo federal e empresas privadas para proteger os 78 jogos realizados em território estadunidense ao longo de 39 dias de competição.
A operação inclui ainda a proteção permanente das delegações nos hotéis, centros de treinamento e deslocamentos oficiais.
Uma das medidas mais rigorosas é a designação de um agente do Serviço Secreto dos Estados Unidos para acompanhar cada seleção durante todo o torneio.
O profissional atua em regime integral, 24 horas por dia, sete dias por semana, funcionando como elo entre as delegações e os órgãos de segurança.
A exigência é que o agente designado domine o idioma da seleção acompanhada para facilitar a comunicação e agilizar respostas diante de qualquer situação de emergência.
Embora as autoridades reconheçam que algumas equipes exigem atenção especial em razão do cenário geopolítico internacional, elas evitam divulgar quais delegações são consideradas mais vulneráveis.
Guerra entre EUA e Irã amplia preocupações
O Mundial acontece em meio a um contexto internacional particularmente delicado.
Uma das situações que mais mobilizam as autoridades envolve justamente duas seleções participantes da competição: Estados Unidos e Irã.
Os dois países vivem um período de forte tensão militar e diplomática, o que obrigou os organizadores a adotar protocolos específicos para a equipe iraniana.
A delegação chegou a transferir sua base de treinamento do estado do Arizona para a cidade mexicana de Tijuana, embora todas as partidas da primeira fase estejam programadas para acontecer em solo estadunidense.
O cenário elevou o grau de atenção das forças de segurança responsáveis pelo torneio, que monitoram possíveis riscos relacionados a protestos, ameaças externas e ações de grupos extremistas.
Drones estão entre as maiores ameaças
Entre os riscos considerados mais preocupantes pelas autoridades está a possibilidade de ataques com drones.
O avanço tecnológico e a popularização desses equipamentos transformaram os dispositivos em uma preocupação crescente para os órgãos de segurança em todo o mundo.
Conflitos recentes, como as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, demonstraram o potencial destrutivo de drones relativamente simples e de baixo custo.
Como resposta, o FBI e outras agências federais ampliaram sua capacidade de monitoramento e neutralização desses equipamentos.
Embora os detalhes técnicos permaneçam sob sigilo, os organizadores garantem que todos os jogos contarão com sistemas especializados de detecção e resposta a ameaças aéreas.
Para reforçar a estrutura, uma lei sancionada pelo presidente Donald Trump destinou US$ 250 milhões para que as cidades-sede adquirissem tecnologias antidrones.
Além disso, 60 agentes de 30 diferentes jurisdições estaduais e locais receberam treinamento específico para atuar contra ameaças aéreas durante a competição.
Controle nos estádios será semelhante ao de aeroportos
Os torcedores que comparecerem aos estádios devem encontrar procedimentos de segurança semelhantes aos adotados em aeroportos internacionais.
A entrada contará com scanners corporais, detectores de metais, inspeções de mochilas e bolsas, além do uso de tecnologias avançadas de reconhecimento facial.
O modelo tem gerado debates sobre privacidade e proteção de dados.
O analista sênior do Instituto de Políticas Migratórias, Ariel Ruiz, demonstrou preocupação com o uso futuro dessas informações.
“A questão gira em torno de como essas tecnologias poderão ser utilizadas em operações futuras e por quanto tempo, por exemplo, eles manterão bancos de dados com essas informações. Isso não está claro. Até o momento, a administração Trump afirmou que haverá certas restrições — como, por exemplo, não registrar imagens nem monitorar cidadãos americanos. No entanto, eles foram menos claros quanto ao que acontece com informações de não cidadãos e imigrantes nos Estados Unidos”, afirmou ao UOL Ariel Ruiz, analista sênior do Instituto de Políticas Migratórias, think tank em Washington D.C.
As autoridades responsáveis pela Copa rejeitam críticas sobre possíveis excessos na coleta de dados.
“Estamos trabalhando com a assessoria do nosso time legal e não estamos preocupados porque não estamos invadindo a privacidade de ninguém”, afirmou o Tenente Coronel David Sierotowicz, comandante de Incidente da Copa do Mundo de 2026 em Nova York/ Nova Jersey.
Ele também recomendou que os torcedores cheguem com antecedência aos estádios devido ao rigor dos procedimentos de inspeção.
ICE não fará operações de deportação nos estádios
Outro tema que gerou preocupação antes da Copa foi a possibilidade de uso do aparato de segurança para ações migratórias.
A administração de Donald Trump mantém uma política rigorosa de combate à imigração irregular e vem promovendo operações frequentes de deportação em diversas regiões do país.
Mesmo assim, os responsáveis pela segurança do Mundial garantem que os estádios não serão utilizados para esse tipo de ação.
“Estamos aqui para proteger os torcedores e o próprios evento, de proporções épicas e sem precedentes; vamos deixar de lado outras prioridades nacionais em prol da segurança nesta área de atuação”, disse o tenente-coronel Doug Lemanowicz, da Polícia Estadual de Nova Jersey, vice-comandante de incidente da Copa, quando foi questionado especificamente sobre operações de deportação.
As autoridades esclarecem que possuem autonomia para definir quais atividades de segurança podem ocorrer dentro dos perímetros oficiais da competição.
Ainda assim, não há garantias sobre eventuais operações migratórias realizadas fora das áreas sob controle direto da organização do torneio.
Consultado sobre o assunto, o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) afirmou que participará da operação geral de segurança da Copa.
“Visitantes internacionais que vêm legalmente aos Estados Unidos para a Copa do Mundo não têm com o que se preocupar. O que torna alguém um alvo das ações de fiscalização de imigração é o fato de estar ou não ilegalmente nos EUA -ponto final. Especulações em contrário são fruto de desinformação”, diz o porta-voz do órgão.
O maior desafio da história recente do esporte
Com dezenas de seleções, milhões de torcedores e um cenário internacional marcado por conflitos armados, terrorismo, tensões diplomáticas e debates migratórios, a Copa do Mundo de 2026 representa um dos maiores desafios operacionais já enfrentados pelas forças de segurança dos EUA.
A expectativa das autoridades é que a combinação entre tecnologia, cooperação internacional e monitoramento permanente permita que o maior evento esportivo do planeta transcorra sem incidentes graves, transformando a atenção mundial voltada aos riscos em celebração dentro e fora dos estádios.






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