Congresso desobedece STF e mantém orçamento secreto das emendas de relator; oposição vai de novo ao Supremo

O Congresso decidiu ontem manter em funcionamento o orçamento secreto, com repasses bilionários para redutos eleitorais dos parlamentares, sem mostrar quem apadrinhou essas verbas nos dois últimos anos. Na prática, os recursos poderão superar R$ 16 bilhões no ano eleitoral de 2022. Os deputados e senadores avalizaram um projeto de resolução apresentado pelas cúpulas da…

O Congresso decidiu ontem manter em funcionamento o orçamento secreto, com repasses bilionários para redutos eleitorais dos parlamentares, sem mostrar quem apadrinhou essas verbas nos dois últimos anos.

Na prática, os recursos poderão superar R$ 16 bilhões no ano eleitoral de 2022. Os deputados e senadores avalizaram um projeto de resolução apresentado pelas cúpulas da Câmara e do Senado, ocultando os nomes de quem se beneficiou com o pagamento em 2020 e 2021 e dando um nível de transparência, questionado até por técnicos, somente para as verbas no futuro.

O orçamento secreto foi revelado em série de reportagens do Estadão desde maio.

A Câmara aprovou a proposta com 268 votos a favor, 31 contra e uma abstenção. No Senado, o placar foi apertado: 34 a 32. As verbas do orçamento secreto foram suspensas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e o futuro dos repasses está nas mãos da relatora da ação na Corte, ministra Rosa Weber.

Além do projeto de resolução, um ato assinado e publicado pelos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), manteve em segredo os nomes dos padrinhos do orçamento secreto beneficiados com os repasses nos dois últimos anos.

A medida do Supremo determinou a divulgação dos autores. A cúpula do Congresso agirá agora para a Corte destravar os repasses.

O projeto aprovado garante para as emendas de relator um patamar igual à soma das emendas individuais, aquelas indicadas por cada deputado e senador, e das bancadas estaduais, viabilizadas pelo conjunto de parlamentares de um mesmo Estado.

Os repasses das verbas carimbadas como RP-9 poderão superar R$ 16 bilhões em 2022, ano em que o presidente Jair Bolsonaro tentará a reeleição, próximo ao valor autorizado para 2021.

O relator poderá indicar a destinação das verbas e dar publicidade ao nome do padrinho dos recursos, atualmente mantido nos bastidores. Essa indicação, no entanto, não será obrigatória. Técnicos do Senado avaliam que se trata de uma brecha para que tudo continue sob sigilo, como ocorre hoje.

Partidos de oposição se movimentam agora para acionar novamente o Supremo e derrubar o ato da cúpula do Legislativo e o projeto aprovado ontem. “O projeto legaliza e institucionaliza o chamado orçamento secreto e, ao mesmo tempo, cria o deputado de segunda, de terceira e de quarta categorias sem que o povo saiba quem são os deputados e deputadas que se beneficiaram desse orçamento secreto”, disse a vice-líder da oposição na Câmara Fernanda Melchionna (PSOL-RS).

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), defendeu a manutenção das emendas de relator e a ocultação dos nomes de quem apadrinhou o orçamento secreto nos dois últimos anos, contrariando a decisão do STF, e insistiu no argumento de que não há registro dessas indicações.

“Há mecanismos de combate desses malfeitos, desses desvios e desses crimes, mas não é a existência da emenda de relator que é por sua natureza algo ilícito, porque definitivamente não é. Aliás, é o que vai salvar muita gente no Brasil, muitos municípios, muitos hospitais, é justamente os recursos que estão indicados pelo relator e que precisam ser destravados”, afirmou Pacheco durante um discurso a empresários no Paraná.

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