Confundido com criminoso, homem baleado por PMs luta para retomar a rotina

Bruno Patrocínio levou quatro tiros, sobreviveu com sequelas e tenta na Justiça a indenização e tratamento médico

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Um erro durante uma perseguição policial em Inhaúma, Zona Norte do Rio, mudou a vida de Bruno Bastos Patrocínio, de 47 anos. Confundido com criminosos em novembro de 2024, ele foi atingido por quatro disparos feitos por policiais militares e carrega até hoje sequelas físicas e psicológicas.

As gravações das câmeras corporais dos agentes, obtidas pelo RJ1, da TV Globo, mostram que os policiais não tinham certeza sobre o veículo que deveriam perseguir. As imagens revelam também que houve troca de versões e até recolhimento de cápsulas no carro de Bruno após os disparos.

A perseguição

Eram 15h10 do dia 10 de novembro quando um carro preto furou uma blitz do Batalhão de Policiamento em Vias Especiais (BPVE) na Avenida Pastor Martin Luther King Jr., saída da Linha Amarela. Os militares entraram em viaturas e partiram em perseguição.

Nos registros, é possível ouvir a confusão:

— “É um carro preto!”, disse um PM.
— “Eu acho que é esse carro, mané!”, arriscou outro.
— “Ah, não é, não. É um carro parecido”, rebateu o colega.

Bruno, que dirigia um veículo semelhante, acabou sendo o alvo. Mesmo tentando parar o carro com o freio de mão e fazendo gestos para sinalizar rendição, ele foi alvejado quase 20 vezes.

Câmera de segurança flagrou o momento em que o carro foi cercado | Reprodução

Ferido, foi socorrido pelos próprios policiais e levado ao Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier.

Combinação de versão

Na porta do hospital, os PMs discutem o que relatar ao batalhão e recolhem sete cápsulas que ficaram no carro da vítima. “Fala que o carro se evadiu (…) escutamos um estampido de disparo e disparamos e pronto. Foi o que aconteceu”, orienta um militar.

Militares combinaram versões | Reprodução

Outro chega a justificar: “Eu ia dar mais, mas eu fiquei com medo porque eu não sabia. Ele demorou pra c*ralho. Por que ele não saiu logo, cara? Ele continuou vindo com o carro.”.

As sequelas

Bruno sobreviveu, mas ainda tem quatro projéteis alojados na região abdominal. Dez meses depois, não conseguiu retomar sua rotina. Os médicos apontaram, transtorno de estresse pós-traumático e o consideraram temporariamente incapaz de voltar ao trabalho.

Na Justiça, Bruno pediu indenização e assistência. A juíza Aline Maria Gomes Massoni da Costa determinou que o Estado do Rio pague R$ 40 mil por danos morais, mas negou os pedidos de novo carro, cobertura de despesas médicas e compensação financeira. A defesa recorreu da decisão.

Processo contra os policiais

Quatro PMs participaram da perseguição. Três deles — o primeiro-sargento Fernando Gonçalves Pereira, o segundo-sargento Simon Santos do Nascimento e o cabo Max Moraes Braga Alves — respondem a processo criminal. O quarto, o soldado Alencar Nascimento, dirigia a viatura e não efetuou disparos.

O inquérito da Polícia Judiciária Militar concluiu que os agentes não tinham certeza sobre as características do carro perseguido e apontou irregularidades na conduta dos PMs, indicando crime doloso — quando há intenção de matar. O caso foi enviado ao Ministério Público Militar em julho e segue em análise.

O que dizem os citados

A Polícia Militar informou que os agentes continuam em atividade, pois não há decisão judicial que determine afastamento.

Já a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que Bruno é acompanhado na Clínica da Família Bibi Vogel, no Engenho da Rainha. Segundo a pasta, não há indicação médica para retirada dos projéteis, e desde fevereiro ele foi atendido em consultas de saúde mental e psiquiatria.

A Procuradoria-Geral do Estado (PGE) declarou que vai apresentar resposta ao recurso da defesa.

A reportagem não localizou a defesa dos citados, o espaço segue aberto para eventuais manifestações.

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