Eu escrevo crônicas porque não consigo passar ileso pela vida. Há gente que olha a cidade e vê apenas trânsito, concreto, buzina, disputa e pressa. Eu vejo outra coisa. Vejo cansaço humano, claro. Vejo injustiças antigas se repetindo diante dos olhos de todo mundo. Mas vejo também uma beleza quase teimosa insistindo em sobreviver nos lugares mais improváveis. Talvez seja isso que me mantém escrevendo. A vontade de não permitir que a brutalidade seja a única narrativa possível sobre o nosso tempo.
Nunca consegui olhar a vida com distância técnica. Sempre fui afetado pelas pequenas cenas. Um homem cochilando no ônibus antes do amanhecer. Uma balconista sorrindo, mesmo depois de um dia inteiro de trabalho. Um menino correndo atrás da bola na rua como se o mundo ainda fosse simples. Há uma humanidade viva circulando pelas cidades e, às vezes, ela aparece justamente onde quase ninguém presta atenção.
Outro dia, fiquei parado olhando uma árvore florida no Parque do Flamengo. As flores caíam lentamente sobre a grama como se o tempo tivesse diminuído o ritmo apenas por alguns segundos. As pessoas passavam correndo, olhando os celulares, atravessando compromissos, tentando vencer o relógio. Mas a árvore permanecia ali, oferecendo beleza gratuita para uma cidade quase sempre distraída demais para perceber delicadezas. Acho que a crônica nasce exatamente desse instante. Quando alguma coisa aparentemente banal abre uma fresta dentro da gente.
Também gosto de observar os cachorros. Pode parecer estranho, mas os cachorros ainda sabem habitar o mundo sem cinismo. Eles caminham ao lado de moças bonitas, de velhas senhoras elegantes, de homens silenciosos carregando seus próprios pensamentos. Um cachorro feliz puxando sua dona pela calçada ensolarada possui mais verdade do que muito discurso sofisticado. Há uma pureza nesses encontros diários que me emociona. E talvez escrever crônicas seja justamente tentar proteger essas pequenas cenas do esquecimento.
Nem tudo é dor. Isso é importante dizer. Existe alegria circulando pelas ruas. Existe calma. Existe uma tranquilidade humana que resiste mesmo em tempos ásperos. Basta caminhar devagar pela Rua do Catete em certas manhãs. As pessoas seguem a pé com seus sacos de pão, suas bolsas de trabalho, seus cafés nas mãos, suas conversas simples sobre o calor, sobre futebol, sobre a vida.
O Largo do Machado continua reunindo idosos sentados observando o movimento, crianças correndo perto da praça, trabalhadores comprando alguma coisa antes do expediente. E a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, com toda a sua mistura humana, ainda guarda algo bonito. Gente caminhando sem medo, turistas olhando vitrines, aposentados conversando nas esquinas, casais dividindo silêncio enquanto seguem lado a lado. Existe vida comum acontecendo. Existe normalidade humana sobrevivendo, apesar do excesso de violência transmitido diariamente pelas telas.
Às vezes, penso que as cidades são maiores do que suas tragédias. Há uma insistência silenciosa das pessoas em continuar vivendo. Isso me comove. A mulher que compra flores para casa numa quarta-feira qualquer. O homem que para para ouvir um músico tocando saxofone na calçada. O jornaleiro que conhece o nome dos clientes antigos, que já não compram mais jornal, pois as bancas de revista são pequenas lojas que vendem de tudo um pouco. O vendedor de mate sorrindo para quem passa na praia. Pequenas alegrias. Pequenos rituais de permanência humana.
E existe o mar. Sempre o mar. Não apenas o mar glorioso dos cartões-postais. Também o mar cinza dos dias nublados, quando o horizonte parece cansado e o vento sopra mais frio. Gosto desse mar porque ele se parece conosco. Nem sempre luminoso. Nem sempre heroico. Às vezes, apenas respirando em silêncio diante da vida. Fico olhando as ondas e pensando na quantidade de gente tentando recomeçar alguma coisa naquele exato momento. O mar conhece nossos fracassos, mas conhece também nossa capacidade de continuar.
O futebol também entra nas minhas crônicas porque ele ainda revela muito sobre quem somos. As convocações da seleção movimentam mesas de bar, provocam discussões apaixonadas, criam especialistas instantâneos em cada esquina da cidade. Há algo bonito nisso. Um país inteiro debatendo nomes, esquemas táticos e injustiças esportivas como se ainda existisse um espaço coletivo possível. O futebol, às vezes, oferece uma espécie de infância compartilhada que a vida adulta tenta destruir todos os dias.
Talvez eu escreva porque não acredito na neutralidade como virtude absoluta. Neutralidade demais costuma esconder acomodação. Quem escreve sobre a vida precisa se comprometer com ela. Precisa aceitar o desconforto de enxergar. Há notícias que me amargam o café da manhã. Há frases ouvidas na rua que permanecem comigo durante dias inteiros. E então eu escrevo. Não para ensinar ninguém. Não para parecer sábio. Apenas porque certas emoções adoecem quando não encontram palavra.
A política aparece nas minhas crônicas do mesmo jeito que aparece na vida real. Sem pedir licença. Ela está no preço da comida, na senhora esperando horas por atendimento, no trabalhador ignorado dentro do ônibus lotado, no jovem revistado pela polícia na esquina, mas também está na praça cheia de gente caminhando em paz num domingo de sol. Política é o modo como a cidade acolhe ou rejeita seus habitantes. É o direito de viver sem medo. É a possibilidade de caminhar tranquilamente pela rua sentindo que a vida ainda pode ser simples por alguns instantes.
Escrever crônicas talvez tenha me salvado do cinismo completo. O cinismo protege, é verdade. Quem se torna cínico já não se decepciona tanto. Mas também perde a capacidade de se emocionar. E eu ainda quero me emocionar com a vida. Quero continuar olhando as pessoas sem transformar tudo em ironia, cálculo ou espetáculo.
Por isso continuo escrevendo. Porque ainda me importo com o homem que vende bala no sinal, mas também com a menina sorrindo enquanto toma sorvete caminhando pela calçada. Porque ainda me importo com o velho sentado diante do mar, mas também com os jovens jogando altinha na praia ao entardecer. Porque ainda me importo com a árvore florida resistindo ao concreto, com o cachorro correndo feliz atrás de uma bola, com o casal caminhando devagar pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana sem dizer quase nada. Há dor no mundo, claro. Mas há também uma quantidade silenciosa de beleza que continua sustentando a vida humana.
E, ao fim e ao cabo, escrever crônicas é minha maneira de dizer: eu estava aqui. Eu vi. Eu senti. Eu não passei indiferente. Vi a cidade machucada, mas vi também sua ternura escondida. Vi a tristeza, mas vi igualmente as alegrias pequenas que insistem em nascer no meio do caos. E talvez seja só isso que um cronista consiga deixar para o mundo. Um punhado de palavras tentando impedir que a vida desapareça sem testemunha.
Paulo Baía, na cidade do Rio de Janeiro, em 19 de maio de 2026, no bairro do Flamengo.






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