comScore img tag

A narrativa usada por Donald Trump para justificar a captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro e a cogitação de uma possível operação militar na Colômbia sob o pretexto de combate ao narcotráfico coloca o Brasil sob ameaça de intervenção.

Especialistas ouvidos pela Agenda do Poder analisam os rumos da invasão à Venezuela desde a eleição sob suspeição de 2024 e o interesse dos EUA na maior reserva de petróleo do mundo. Cientistas políticos dizem ver uma “nova ordem mundial”, com o avanço de Trump sobre os países da América Latina como área de influência, com uma tentativa de afastar negócios de países do continente com a China. A Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou nesta terça-feira (6) que a invasão Venezuela violou um dos princípios fundamentais do direito internacional de garantia de independência política aos países.

Maduro foi capturado pelos EUA / Crédito: Reprodução CNN

Autor de um livro sobre o chavismo e professor da UERJ, o historiador Rafael Araújo diz que a captura de Maduro segue nessa linha. Segundo ele, a ação dos EUA foi um ataque à soberania da Venezuela. “Embora eu seja crítico em relação às eleições de 2024, os EUA têm sido claramente imperialista. Estamos falando de um presidente que foi sequestrado em uma ação militar norte-americana”.

Segundo ele, a ameaça direta à Colômbia após a captura de Maduro dá indícios de que novas ofensivas militares podem ocorrer. “A ação na Venezuela tende a inaugurar um momento novo na relação com a América Latina. O Trump continua ameaçando, e deixando claro que não tem o menor pudor em colocar tropas militares em nome dos interesses norte-americanos”, analisa.

Ato na Cinelândia | Gilberto Costa/Agência Brasil

Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC paulista (UFABC), Gilberto Maringoni questiona a postura de Trump de alegar um combate ao narcotráfico para justificar a sua ofensiva contra a América Latina.

“É uma agressão sem justificativa clara e com pretexto frágil, alegando que Maduro tem ligações com o narcoterrorismo, mas sem apresentar provas. A questão central, além do petróleo, é tirar os investimentos com parcerias e instalações de indústrias da China. É uma nova partilha do mundo, com protagonismo das grandes potências no seu entorno”.

Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais

Autor de livros sobre a Venezuela, Maringoni diz ver um cenário delicado para os países do continente, incluindo o Brasil. “O Trump abre uma fase de anarquia internacional, e todos os países da América Latina estão sob ameaça, com os EUA deixando uma mensagem clara: ‘ou faz do jeito que eu quero ou parto para cima’. Não vai haver guerra entre as grandes potências, mas é um período de instabilidade total”.

Como é Pacaraima (RR), cidade na divisa com a Venezuela / Crédito: Assembleia Legislativa de Roraima

Quais os riscos ao Brasil

Professora de Geopolítica da Escola Superior de Guerra do Ministério da Defesa, Mariana Kalil diz que não há custo político a Trump pela retirada de Maduro do poder devido aos indícios de eleições fraudulentas em 2024. Mas afirma que a captura representa uma violação ao direito internacional, com riscos ao Brasil, já que Trump tem dado declarações que indicam uma suposta ofensiva contra o narcotráfico na América Latina.

“Há um ponto de alerta, porque cartéis narcoterroristas da Colômbia e Venezuela estão presentes em território brasileiro, com conexões com organizações criminosas do país. O Brasil também pode entrar no radar de possíveis intervenções militares, especialmente na Amazônia”.

Mariana Kalil, professora de Geopolítica

Professor de Relações Internacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF), o cientista político Rafael Morais diz que o movimento de Trump olha para o Brasil como o país mais relevante da América Latina.

Donald Trump acusa Venezuela de ligações com narcotráfico / Foto: Molly Riley/ Casa Branca

“Isso aponta para um cenário de constrangimento político em um ano eleitoral, limitando qualquer medida do Brasil com política de soberania. Isso alimenta inclusive pretensões golpistas no país”. Ele argumenta, ainda, que a captura de Maduro foi o ápice de questionamentos desde a chegada de Hugo Chávez ao poder.

“A Venezuela é o pivô de um jogo bem mais amplo, com a consolidação da esquerda no poder com uma visão anti-EUA, que traziam questionamentos à hegemonia global. A captura de Maduro abre um precedente para que os EUA e outras potências tratem os seus quintais como áreas de influência, sem respeito à ordem internacional”.

Rafael Morais, cientista político

Petróleo e desinteresse pelas reações no mundo

Professor de Relações Internacionais na UFF, o cientista político Thiago Rodrigues diz que Trump tem apostado nas alegações de combate ao narcotráfico para fazer intervenções sem precisar passar pelo Congresso, voltadas apenas ao público interno.

“Ele não está muito interessado nas reações da comunidade internacional. A questão central é o acesso ao petróleo do país com a maior reserva do mundo”, analisa.

Rodrigues diz, ainda, que pode ser o início de uma ofensiva com impacto direto nas eleições deste ano no Brasil, Peru e Colômbia.

“O que paira agora sobre a América Latina é uma espécie de chantagem, com ameaça de intervenção em processos eleitorais. Os EUA mostraram, com essa intervenção, que estão dispostos a fazer uma ação militar, se julgarem que isso seja necessário para que defendam os seus interesses geopolíticos e geoeconômicos”.

Thiago Rodrigues, cientista político

Entrega de 50 milhões de barris e acusações: quais os desdobramentos da ação

O interesse pelo petróleo como objetivo principal por trás da captura de Maduro tem se confirmado em meio aos desdobramentos de uma operação militar que deixou ao menos 40 pessoas mortas na Venezuela. O presidente Donald Trump divulgou nesta terça-feira (6) que o governo interino da Venezuela concordou em entregar entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo aos EUA. “Este petróleo será vendido ao seu preço de mercado, e esse dinheiro será controlado por mim para garantir que seja usado em benefício dos povos da Venezuela e dos EUA”, escreveu na Truth Social.

Um alto funcionário do governo dos EUA disse à CNN Internacional sob a condição de anonimato que a maioria do produto está em navios e será enviada para instalações norte-americanas no Golfo do México para ser refinada. Quantidade de barris divulgada parece muito, mas os EUA consumiram cerca de 20 milhões de barris por dia no mês passado.

Delcy Rodríguez é presidente interina da Venezuela / Crédito: Divulgação

A vice-presidente Delcy Rodríguez tomou posse como presidente interina da Venezuela após a captura de Maduro. A presidente interina se referiu a Maduro, se referindo a ele e sua esposa Cilia Flores, também presa pelos EUA, como heróis. Ela disse, ainda, que “nenhum agente externo” exerce o poder no seu país. “O governo da Venezuela vigora em nosso país, mais ninguém. Não há agente externo que governe a Venezuela. É o seu governo constitucional, o poder popular consolidado”, declarou a presidente em um comunicado exibido na TV venezuelana.

Em audiência nos EUA ocorrida nesta segunda-feira (5), Maduro se declarou inocente disse ser “prisioneiro de guerra”. O governo Trump revisou as acusações, abandonando a tese de que ele chefia o “Cartel de Los Soles”, mas manteve o foco em narcoterrorismo. Maduro responde por quatro crimes principais no Tribunal do Distrito Sul de Nova York: conspiração para narcoterrorismo, conspiração para tráfico de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos explosivos, e conspiração para posse de armas para o narcotráfico. As denúncias destacam benefícios pessoais de corrupção via drogas, passaportes diplomáticos a traficantes e proteção policial a carregamentos.

Deixe um comentário

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading