Comando Vermelho expande domínio no Rio com drones de carga, mineração de criptomoedas e banker na mata

A facção ampliou sua atuação para além do tráfico de drogas e passou a investir na expansão territorial, fortalecimento logístico, diversificação de receitas e aumento de influência criminosa.

O avanço da facção criminosa conhecida como Comando Vermelho deixou de se restringir ao tráfico tradicional de drogas e passou a incorporar estratégias de guerra, tecnologia, novas fontes de financiamento e expansão territorial em diferentes regiões do Rio de Janeiro.

Investigações e operações realizadas nos últimos meses revelam uma estrutura criminosa cada vez mais sofisticada, com atuação que inclui drones de grande porte, mineração clandestina de criptomoedas, exploração ilegal de serviços de internet e até suspeitas de infiltração política.

Os levantamentos conduzidos por órgãos de segurança pública e inteligência mostram que a facção vem ampliando poder logístico, influência territorial e capacidade financeira, enquanto mantém sob proteção alguns dos principais chefes criminosos escondidos nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio.

Drones e treinamento militar

Uma das principais preocupações das autoridades envolve o uso de drones de grande porte adquiridos por traficantes do Complexo do Alemão. Segundo a Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança, os equipamentos eram originalmente utilizados em atividades agrícolas e transporte de carga, mas passaram a ser adaptados para operações criminosas.

Os drones têm capacidade para transportar até 80 quilos, o equivalente a cerca de 20 fuzis, autonomia de até 12 quilômetros e custo superior a R$ 200 mil cada.

Imagens captadas por uma aeronave da Polícia Militar mostraram um treinamento envolvendo um equipamento de aproximadamente três metros de comprimento cercado por ao menos dez pessoas antes da decolagem.

De acordo com as investigações, o treinamento teria sido conduzido por um brasileiro que participou da guerra na Ucrânia como voluntário contra a Rússia. A suspeita é de que ele tenha repassado técnicas militares aos integrantes da facção.

Criptomoedas e energia clandestina

Outra descoberta recente ocorreu durante mais uma fase da Operação Contenção, no Complexo do Lins. Policiais civis encontraram uma estrutura clandestina de mineração de criptomoedas funcionando nos fundos de um mercado da comunidade.

O espaço abrigava dezenas de computadores usados para validar transações de bitcoin e outras moedas digitais. Segundo os investigadores, os equipamentos estavam ligados a uma rede improvisada de energia, reduzindo os custos da operação ilegal.

A ofensiva policial tinha como alvo integrantes do Comando Vermelho suspeitos de envolvimento com tráfico de drogas, roubos de veículos, assaltos e monitoramento armado dos acessos da comunidade.

As investigações apontam que os criminosos acompanhavam em tempo real deslocamentos de viaturas, blindados e aeronaves policiais, utilizando canais restritos de comunicação para coordenar ações operacionais.

Central de celulares roubados

Em outra operação, realizada no Morro do Fallet-Fogueteiro, em Santa Teresa, agentes localizaram uma central clandestina de desbloqueio de celulares escondida atrás de um bar.

No local, foram encontrados cerca de 200 aparelhos roubados ou furtados, além de softwares e equipamentos utilizados para alterar IMEIs e desbloquear dispositivos ilegalmente, inclusive modelos de iPhone.

Segundo a polícia, os criminosos utilizavam links falsos que simulavam comunicações oficiais da Apple para obter acesso às contas das vítimas.

As investigações indicam ainda que programas automatizados testavam milhares de combinações de senha até conseguir desbloquear os aparelhos. Em muitos casos, vítimas eram coagidas durante os assaltos a fornecer senhas e retirar mecanismos de segurança.

Suspeitas de infiltração

As investigações também alcançaram o meio político e jurídico. A Procuradoria-Geral da República apresentou denúncia ao Supremo Tribunal Federal envolvendo o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar, o ex-deputado TH Joias e o desembargador Macário Ramos Júdice Neto.

Segundo a acusação, eles teriam atuado para obstruir investigações relacionadas ao Comando Vermelho por meio do repasse de informações sigilosas sobre operações policiais. As defesas negam irregularidades.

Um dos episódios citados envolve a Operação Zargun, deflagrada pela Polícia Federal para investigar supostas ligações de TH Joias com a facção criminosa.

Avanço fora das favelas

A expansão territorial do Comando Vermelho também passou a ser percebida em áreas urbanizadas fora das comunidades tradicionalmente controladas pela facção.

Em Jacarepaguá, moradores relataram a rápida consolidação do grupo em uma área entre a Estrada Santa Maura e a Rua Abadiana, região historicamente associada à milícia.

Segundo relatos, homens armados passaram a circular pelas ruas efetuando disparos e anunciando a chegada da facção. Comerciantes e moradores denunciaram cobranças ilegais, ameaças e expulsão de trabalhadores.

Especialistas classificam o fenômeno como uma etapa de “território sob influência”, marcada pela presença armada, imposição de ordens e extorsões antes da instalação de um domínio territorial permanente.

Internet vira fonte bilionária

As investigações revelam ainda que a exploração clandestina de serviços de internet se transformou em uma das principais fontes de receita do crime organizado no estado.

Segundo levantamentos das autoridades, facções criminosas e milícias já atuam nesse setor em ao menos 37 dos 92 municípios fluminenses, alcançando aproximadamente 40% do território estadual.

Empresas que se recusam a pagar taxas ou perder espaço para operadores ligados ao crime passaram a sofrer ataques. Somente nos primeiros meses do ano foram registrados incêndios contra veículos, escritórios e estruturas de empresas de internet em cidades como Maricá, Japeri, Paracambi e Cachoeiras de Macacu.

De acordo com a Secretaria de Segurança, apenas nas regiões da Muzema, Rio das Pedras e Gardênia Azul foram identificadas 18 empresas explorando o serviço de internet sob influência criminosa. A arrecadação estimada nessas áreas chega a R$ 3 milhões por mês.

Cúpula escondida nos complexos

Grande parte dessa estrutura continua ligada aos principais chefes da facção escondidos nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio.

A Delegacia de Homicídios da Capital concluiu recentemente as investigações sobre a emboscada que matou cinco policiais civis e militares durante operação realizada em outubro de 2025.

Entre os indiciados estão Edgar Alves de Andrade, Carlos da Costa Neves e Pedro Paulo Guedes.

Segundo a polícia, Doca integra a cúpula do Comando Vermelho e possui centenas de anotações criminais e dezenas de mandados de prisão. Já Gadernal seria responsável pela logística financeira e operacional da facção, enquanto Pedro Bala atuaria na coordenação armada para manutenção do domínio territorial.

As investigações apontam que o grupo montou uma emboscada para atingir agentes de segurança durante a operação realizada na região da Vila Cruzeiro. Sete suspeitos envolvidos no confronto acabaram presos em uma estrutura semelhante a um bunker em área de mata.

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