A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa básica de juros em 15% ao ano levou os juros reais da economia brasileira a um patamar próximo de 10,6%, o mais alto desde maio de 2006, informa a Folha de S. Paulo. O cálculo considera a Selic nominal descontada da expectativa de inflação para os próximos 12 meses, atualmente estimada em torno de 4%, segundo o boletim Focus.
Durante cerca de 20 anos, os juros reais permaneceram abaixo de 10% no país e só voltaram a ultrapassar esse nível em julho do ano passado, quando a Selic alcançou os atuais 15%. Desde então, a combinação entre juros elevados e recuo gradual das projeções de inflação tem pressionado ainda mais a taxa real, aumentando o custo efetivo do crédito na economia.
Comparação com o cenário de 2006
O momento atual guarda semelhanças com o observado em maio de 2006. Naquela ocasião, a Selic estava em 15,25% ao ano e a expectativa de inflação girava em torno de 4,1%, resultando em juros reais de aproximadamente 10,7%. Desde então, mudanças estruturais ocorreram na economia brasileira, o que torna esse nível de taxa real menos comum nos anos recentes.
A decisão do Copom de manter os juros pela quinta reunião consecutiva foi tomada de forma unânime pelos diretores do Banco Central, sinalizando cautela diante do cenário inflacionário e das incertezas fiscais.
Eficácia limitada da política monetária
Para o professor da Fundação Getulio Vargas e colunista da Folha Bernardo Carvalho, o atual patamar dos juros reais foge do padrão observado na economia brasileira nos últimos anos. Segundo ele, no passado recente, taxas reais em torno de 7% já eram consideradas elevadas.
Carvalho avalia que os mecanismos de transmissão da política monetária no Brasil são menos eficazes do que em outros países. Um dos fatores é a grande presença de linhas de crédito direcionadas, como o financiamento habitacional atrelado à taxa da poupança e o crédito subsidiado oferecido por bancos públicos, como o BNDES. Isso reduz o universo de tomadores sujeitos diretamente às variações da Selic.
Além disso, mesmo quem não acessa linhas especiais acaba sendo pouco impactado por mudanças na taxa básica, devido ao elevado spread bancário. A diferença entre o custo de captação dos bancos e os juros cobrados ao consumidor costuma ser tão alta que variações na Selic têm efeito relativamente pequeno sobre o custo final do crédito.
Diante desse quadro, Carvalho afirma que, para surtir efeito, o Banco Central precisa elevar os juros de forma mais intensa. “dar uma porrada”, diz ele, ao se referir à necessidade de choques mais fortes na taxa básica para conter a inflação.
Credibilidade e transição no Banco Central
O economista também relaciona os aumentos recentes ao receio do Banco Central de perder credibilidade durante a transição de comando entre Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo. Segundo Carvalho, quando Galípolo assumiu a presidência da autoridade monetária, surgiram expectativas, que ele classifica como “completamente erradas”, de que haveria um afrouxamento da política monetária.
Para evitar que as expectativas de inflação “destrambelharem”, o Banco Central optou por elevações sucessivas de um ponto percentual na Selic, movimento que Carvalho considera excessivo, mas compreensível diante do risco de desancoragem.
Fiscal expansionista e consumo aquecido
Apesar do nível elevado dos juros reais, o economista Ailton Braga, assessor técnico do Senado e ex-analista do Banco Central, chama atenção para o comportamento das contas públicas. Segundo ele, o gasto público primário da União, dos estados e dos municípios cresceu a um ritmo médio de 7% ao ano entre 2022 e 2024.
Esse impulso fiscal, de acordo com Braga, contribui para o aumento da renda disponível e sustenta o consumo das famílias. Ele observa ainda que, em cenários de maior renda, o mercado de crédito tende a ampliar a oferta, reforçando o estímulo ao consumo mesmo em um ambiente de juros elevados.
Inflação de serviços no centro das preocupações
Para a professora do Insper Juliana Inhasz, o principal fator por trás da manutenção dos juros nominais em nível elevado, e da consequente alta dos juros reais, é o comportamento da inflação de serviços. Esse componente, segundo ela, segue resistente e impede uma flexibilização da política monetária no curto prazo.
“A alta de preços de serviços é resistente, ainda há expectativas desancoradas e o fiscal é um elemento de bastante transtorno”, afirma a economista, ao resumir os desafios enfrentados pelo Banco Central.






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