Neste sábado, 26 de abril, dois dos últimos veteranos da Força Expedicionária Brasileira (FEB) irão marcar presença em uma cerimônia histórica em Caçapava (SP) para celebrar a rendição alemã e a vitória aliada na Segunda Guerra Mundial. A reportafem é do jornal Estado de São Paulo, Estadão.
Jarbas Dias Ferreira, de 103 anos, e Florentino Zandonadi, de 102 anos, foram alistados há mais de 80 anos no 6.º Regimento de Infantaria (6.º RI), a unidade que, em 1944, desembarcou na Itália para combater as forças nazifascistas, participando da histórica campanha de libertação do país. Eles são os únicos veteranos restantes que vivenciaram de perto o confronto que levou à rendição de 15 mil soldados alemães, na manhã de 29 de abril de 1945, durante a última grande batalha da FEB entre Collecchio e Fornovo di Taro, no norte da Itália.
A cerimônia, que acontecerá no pátio do 6.º Batalhão de Infantaria Aeromóvel (6.º BI Amv), ocorrerá com uma tradicional saudação militar: o toque do veterano, que simboliza o reconhecimento da presença dos antigos combatentes. Durante a solenidade, Jarbas e Florentino, ambos com visível emoção, irão recordar não apenas o cerco aos soldados da 148.ª Divisão alemã, mas também o sacrifício e a coragem de seus companheiros. Com mais de 462 brasileiros mortos durante os combates, o evento também serve como um tributo àqueles que deram suas vidas em nome da liberdade.
A campanha italiana foi marcada por inúmeros desafios e confrontos ferozes. Um desses episódios é relembrado por muitos ex-combatentes, como o coronel Jairo Junqueira, que lutou em Collecchio. Ele descreveu como foi atingido por fogo inimigo enquanto tentava localizar as posições alemãs a partir de um campanário. “Os alemães me descobriram e atiraram no sino da torre. O som foi ensurdecedor e me deixou com deficiência auditiva”, recorda Junqueira, que foi condecorado com a Cruz de Combate de Segunda Classe. Ao longo das décadas, ele se manteve presente nas solenidades do 6.º BI Amv, sempre com a lembrança vívida da dureza do combate.
Além dos relatos de heroísmo, outros veteranos como o coronel Amerino Raposo Filho, que foi responsável pelos últimos disparos de artilharia brasileira na Itália, também compartilharam suas experiências de guerra. Raposo, já falecido em 2021, comandou a última salva de obuses contra as forças nazistas, pouco antes da rendição formal, num gesto de cautela para evitar traições. Sua história e a de tantos outros combatentes continuam a ser uma parte fundamental da memória coletiva brasileira sobre a 2ª Guerra Mundial.
Na mesma linha, o tenente Zandonadi, que foi um dos primeiros a desembarcar na Itália, também estará presente na formatura, acompanhado de sua filha, a professora Regina Zandonadi. “Meu pai era um dos mais jovens que embarcaram para a Itália”, diz Ulysses Ferreira, filho de Jarbas, emocionado pela oportunidade de acompanhar o pai até o evento. Jarbas, que se alistou como cabo responsável por uma metralhadora, conta com nostalgia sobre a experiência da guerra e o que vivenciou ao lado dos companheiros.
Essas histórias de coragem e superação refletem a força da memória de uma geração que enfrentou os horrores do nazifascismo, mas que hoje, com a idade avançada, se vê cada vez mais distante das grandes comemorações. O general Pedro Celso Coelho Montenegro, comandante do Comando Militar do Sudeste (CMSE), lembra: “São esses heróis que deram sua vida em defesa da liberdade. Temos que reviver essa epopeia, onde mais de 25 mil brasileiros partiram para combater na Itália.”
Em um momento de grande reflexão histórica, a cerimônia em Caçapava simboliza não apenas a celebração da vitória, mas também o reconhecimento contínuo daqueles que, com coragem e sacrifício, ajudaram a mudar o curso da história.





