Imagine o drama. Você é um oficial de inteligência alemão, que passou anos estudando o português falado em Portugal, tremendo de frio no inverno italiano de 1943, quando ouve em rádio aberto a seguinte transmissão: “Ó meu rei, o boi tá no pasto, mas a cerca tá frouxa. Manda os caras com as ferramentas que a coisa vai desandar, tá ligado?” Dava um desespero de derreter suásticas. Hollywood já explorou uma história parecida no filme “Códigos de Guerra”, no qual os norte-americanos convocam índios navajo para cuidar das transmissões em sua língua nativa na guerra com o Japão. Só que o Brasil fez isso também, mas com nosso jeitinho.

Histórias como essas, repetidas em livros, reportagens e na memória oral dos veteranos, misturam realidade com algum exagero. A verdade, descoberta após rigorosa checagem em fontes como os relatórios do TICOM (Target Intelligence Committee) e documentos da inteligência alemã, revela um cenário fascinante. O que os nazistas realmente enfrentaram no front italiano, especialmente a partir de 1944, não foi a dificuldade técnica em entender português, mas sim a absoluta falta de preparação para lidar com um idioma que tinha os mais variados, sonoros e intraduzíveis dialetos.

O que os brasileiros fizeram na Itália não foi decisivo para a derrota da Alemanha no sentido estratégico. Mas foi real, custou vidas, gerou vitórias, capturou mais de 20 mil prisioneiros e terminou com uma divisão alemã entregando dois generais e 15 mil soldados a um país que, para o Terceiro Reich, era quase primitivo. Só que a cobra fumou. E fumou em português.

Pracinhas brasileiros embarcando na Guanabara para o front na Itália (Crédito: Reprodução)

Durante a Segunda Guerra Mundial, os brasileiros realmente se comunicavam em rádio aberto e sem códigos? 

No front italiano de 1944 e 1945, as comunicações táticas da FEB se davam por uma rede de rádios portáteis, telefones de campanha e sistemas de comunicação fornecidos pelo exército norte-americano. Segundo o portal de história militar brasileiro “Ecos da Segunda Guerra”, a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária utilizava 29 rádios de mão, 48 rádios de mochila e 10 rádios de mesa, além de 72 telefones de campanha e 174 aparelhos magnéticos. Tudo isso conectando frente de batalha, postos de comando e retaguarda numa rede de comunicações constante. 

Mas o que distinguia os brasileiros não era apenas o uso de rádio aberto, o que era uma prática relativamente comum entre todas as tropas aliadas para comunicações táticas de nível de pelotão e companhia, mas o idioma em que essas comunicações ocorriam. 

Enquanto britânicos, americanos, poloneses e franceses utilizavam códigos táticos e procedimentos padronizados em seus respectivos idiomas (todos bem conhecidos pela inteligência alemã), os pracinhas se comunicavam num português brasileiro coloquial, carregado de regionalismos, gírias do interior e expressões que simplesmente não existiam nos dicionários alemães.  

Historiadores como o americano Frank McCann, um dos principais estudiosos da FEB, observaram que o maior desafio americano na incorporação dos brasileiros à 5ª Armada não era tático ou logístico, mas linguístico: os próprios aliados tinham dificuldade em encontrar quem falasse português. E se era difícil para os Aliados, imagine para os nazistas. 

Em 1944 a Alemanha tinha mesmo o melhor sistema de inteligência por sinais da Segunda Guerra? 

De acordo com documentos da NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA), a Abwehr, a inteligência militar alemã, investiu recursos significativos em linguistas, formando um corpo que incluía muitos que eram fluentemente bilíngues. Perto do fim do conflito, cerca de 12.000 soldados do exército alemão estavam engajados em operações de interceptação de sinais contra inimigos cada vez mais poderosos. 

O sistema se organizava em torno das chamadas KONA (Kommandeur der Nachrichtenaufklärung, ou Regimento de Inteligência de Sinais), unidades móveis de reconhecimento de comunicações atribuídas a grupos de exércitos, que operavam próximas às linhas de frente para interceptar e construir inteligência por meio de serviços de avaliação, incluindo criptoanálise, e informar o resultado para o estado-maior. 

Dentro dessas unidades havia linguistas treinados para o inglês, francês, russo, polonês e outros idiomas dos Aliados, além de criptógrafos capazes de quebrar cifras de baixo e médio nível. O sistema era impressionante: graças à inteligência de comunicações, os comandantes alemães estavam mais bem informados sobre o inimigo e suas intenções do que em qualquer guerra anterior. 

Só que nem sempre sofisticação tecnológica é vantagem. 

Soldados do exército alemão em operações de interceptação de sinais (Crédito: Reprodução)

Quais idiomas eram monitorados pela inteligência nazista no front italiano? 

Antes de 1943, o Exército alemão não tinha unidades de inteligência de sinais na Itália. Em fevereiro daquele ano, a KONA 7 foi estabelecida com a tarefa de interceptar tráfego da Itália e do norte da África. O tráfego interceptado consistia em comunicações dos exércitos britânico, americano, polonês, francês e brasileiro nessas regiões. 

Mas interesse alemão no português, especificamente, antecede a chegada da FEB à Itália. O tráfego naval de Espanha, Portugal e Brasil era monitorado desde 1939 pela estação fixa Feste 3 em Euskirchen. No início de 1943, a companhia de inteligência de longo alcance FAK 624 foi formada em Montpellier, na França, para apoiar as interceptações. 

Mas o português brasileiro ocupava um nicho especial: era uma língua conhecida pelas estações fixas alemãs, mas para a qual havia escassez aguda de tradutores especializados no campo de batalha. 

Mas a inteligência alemã não tinha um departamento inteiro dedicado ao português? 

Não exatamente um departamento exclusivo, mas havia uma estrutura organizacional dedicada ao monitoramento das comunicações brasileiras, algo incomum para um país sul-americano de participação relativamente tardia na guerra. 

O problema maior não era a infraestrutura de interceptação, era a interpretação. De acordo com documentos do exército dos Estados Unidos, os americanos “não encontraram dificuldade especial em incorporar as tropas brasileiras, exceto aquela imposta pela escassez de pessoal capaz de falar português”, e esse mesmo problema afligia os alemães com muito mais intensidade. 

A Wehrmacht tinha linguistas de espanhol em abundância (fruto da ação da Condor Legion na Guerra Civil Espanhola), e para estes veteranos o português europeu era acessível. Mas o português brasileiro galego, coloquial, das praias da Guanabara, do sertão nordestino, do mato-grossense, do caipira paulista? Essa era uma fronteira linguística que os nazistas simplesmente não tinham cruzado. 

A 148ª Divisão Alemã afirmou que a comunicação dos brasileiros era a maior dificuldade no teatro de guerra italiano? 

É preciso ser rigoroso aqui: existem sim documentos originais desse relatório específico, mas eles não estão disponíveis em fontes abertas verificáveis em inglês ou português. As afirmações atribuídas a esse documento circulam sobretudo em fontes secundárias brasileiras ou norte-americanas. 

Segundo estas fontes, o informe dizia: “a linguagem operacional deles não corresponde a nenhum padrão conhecido. Suspeitamos de um código baseado em referências culturais e dialetos regionais não acessíveis a não nativos”. A gente pode até não poder confirmar a veracidade do relato mas, cá entre nós, que ele faz sentido, faz. 

O que se pode afirmar com segurança é que a 148ª Divisão de Infantaria Alemã era a principal unidade adversária dos brasileiros na Itália, e foi exatamente essa divisão que acabou se rendendo à FEB em Fornovo di Taro em abril de 1945. O mais prudente é tratar a citação específica da “maior dificuldade” como plausível e compatível com o que sabemos sobre as operações de inteligência da Wehrmacht, mas, segundo historiadores como Max Hastings, não inteiramente verificável sem acesso ao arquivo original. 

Rendição da 148ª Divisão Alemã para a FEB (Crédito: Reprodução)

A galinha chorou em Monte Castelo 

A Batalha de Monte Castelo foi uma das mais importantes operações da FEB. Após várias tentativas frustradas entre novembro de 1944 e fevereiro de 1945, as tropas brasileiras conseguiram conquistar a posição estratégica, que fazia parte da Linha Gótica alemã. 

Segundo registros históricos, que variam apenas em pequenos detalhes, em determinado momento da batalha os alemães capturaram a seguinte transmissão brasileira: “achei onde a galinha bota ovo grande. Tá no galinheiro ao lado da igreja. Manda o gato pra lá”. 

Parece até piada, mas o relatório da inteligência alemã registrou: “conversa sobre criação de aves, sem relevância militar alguma”. Minutos depois um ninho de artilharia nazista foi obliterado por um tanque aliado. 

Sobrava até para o exército norte-americano 

Histórias surreais e, de certa forma, hilariantes como essas se encontram às dezenas em relatos de pracinhas, soldados norte-americanos que lutaram na Itália, relatórios militares ou reportagens de época. Uma das melhores aconteceu durante a Operação Encore, uma ofensiva conjunta entre a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária brasileira e a 10ª Divisão de Montanha americana, uma das unidades de elite dos Aliados, em 18 de fevereiro de 1945. 

Em dado momento, o comando recebe uma mensagem do front: “São Jorge está montado, a princesa está no castelo e o dragão está cuspindo fogo perto da igrejinha. Mandem os cavaleiros agora”. O oficial de ligação norte-americano, que falava português europeu entrou em parafuso, e saiu em disparada atrás de um militar brasileiro, que lhe explicou na maior tranquilidade: “Temos um tanque posicionado diante de uma torre de artilharia e precisamos de reforços”.  O norte –americano ficou furioso e reclamou: “Mas porque não falam isso direito?” E o brasileiro só soube responder: “nós falamos”. 

Óbvio que com todas as mudanças no idioma 80 anos depois da guerra, você também não entendeu o recado do cria. Mas para os brasileiros dos anos 1940, aquelas metáforas faziam total sentido. 

Pracinha brasileiro em ação: a cobra estava fumando (Crédito: Reprodução)

Alguns brasileiros trocaram de lado no balcão? 
 

Sim, mas quando já era tarde demais. Diante da absoluta incompreensão do que dizia aquele idioma cheio de fluência e musicalidade, os alemães foram procurar em suas fileiras quem falava aquela língua confusa. 

Encontraram filhos de imigrantes alemães, cujos pais haviam mudado para o Sul do Brasil, mas que retornaram à Alemanha para cerrar fileiras ao lado do Eixo. Não existe um número oficial de quantos brasileiros viraram casaca, mas os documentos registram que eles chegaram à Itália quando a vaca já tinha ido pro brejo. 

No fim das contas… 

A Força Expedicionária Brasileira chegou à Itália em julho de 1944, somando ao final cerca de 25.700 homens engajados. Durante os oito meses da campanha italiana, a FEB conseguiu fazer 20.573 prisioneiros do Eixo, sendo dois generais, 892 oficiais e 19.679 praças. O Brasil perdeu 948 de seus próprios homens mortos em ação em todos os três serviços durante a campanha italiana. A aviação brasileira, pelo 1º Grupo de Aviação de Caça, voou um total de 445 missões, 2.550 surtidas individuais e 5.465 horas de voo de combate. 

A captura de Monte Castelo em fevereiro de 1945 ajudou a romper a Linha Gótica e abriu o caminho para a ofensiva final aliada no norte da Itália. A FEB participou plenamente da ofensiva e, em combates pesados nos últimos dias da guerra, capturou mais de 15.000 soldados alemães.  

O retorno ao Brasil, porém, foi amargo: os veteranos não militares, que foram dispensados ao retorno, foram proibidos de usar suas condecorações ou uniformes expedicionários em público. Os veteranos militares profissionais foram redistribuídos para regiões de fronteira ou áreas distantes dos principais centros urbanos.  

Getúlio Vargas temia o poder político de um exército vitorioso, e tratou de dissolvê-lo o mais rápido possível antes que a cobra fumasse também no Palácio do Catete.

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