O senador Ciro Nogueira (PP-PI) destinou pelo menos R$ 136,5 mil de recursos do Senado à WT Administração de Imóveis e Bens, empresa do advogado Willer Tomaz. O dinheiro foi usado no pagamento de um complemento de R$ 3,5 mil mensais do auxílio-moradia recebido pelo parlamentar desde 2023, segundo reportagem publicada pelo UOL nesta sexta-feira (2).
Tomaz foi alvo de buscas da Polícia Federal na Operação Sem Desconto, que investiga fraudes relacionadas a descontos indevidos de aposentados e pensionistas do INSS. O advogado também mantém relações pessoais e comerciais com personagens que aparecem em outras investigações, entre eles o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e pessoas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Ciro, que foi ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro, mora desde abril de 2021 em uma casa de 632 metros quadrados em Brasília. O imóvel havia sido adquirido pouco antes pela WT por R$ 4,5 milhões.
Benefícios chegavam a R$ 9 mil por mês
Além do complemento de R$ 3,5 mil, Ciro recebia R$ 5,5 mil mensais de auxílio-moradia. O Senado informou ao UOL que os dois benefícios só podem ser destinados ao aluguel de um mesmo imóvel.
Com isso, os recursos públicos relacionados à moradia do senador poderiam chegar a R$ 9 mil mensais e somar cerca de R$ 350 mil durante o período analisado, conforme cálculo feito pelo UOL. Os recibos referentes ao auxílio-moradia de R$ 5,5 mil, porém, são mantidos sob sigilo.
Dados oficiais do Senado confirmam que Ciro utilizou auxílio-moradia durante cinco meses de 2026 e não ocupou imóvel funcional nesse período. Atualmente, o relatório de benefícios da Casa registra que o parlamentar não recebe auxílio-moradia nem utiliza residência funcional.
Os pagamentos do auxílio e do complemento foram interrompidos em junho. No mês anterior, Ciro havia sido alvo de uma fase da Operação Compliance Zero, investigação relacionada ao Banco Master.
O senador foi procurado pela reportagem do UOL, mas o portal afirma que ele não comentou o caso.
Empresa recebeu complemento por 39 meses
Ciro possui apartamento em Brasília declarado à Justiça Eleitoral pelo menos desde 2018. Nas eleições deste ano, informou patrimônio total de R$ 34,6 milhões.
Entre junho de 2019 e abril de 2021, o parlamentar utilizou imóvel funcional do Senado. Depois, mudou-se para a residência pertencente à empresa de Tomaz. Reportagem da Folha de S.Paulo publicada em 2021 apontou que o aluguel da casa era de R$ 15 mil mensais.
Quando se licenciou do mandato, em agosto daquele ano, para assumir a Casa Civil, Ciro deixou de ter direito aos benefícios do Senado. Após retornar à Casa, em dezembro de 2022, voltou a receber auxílio-moradia.
Em março de 2023, passou a utilizar também o complemento de R$ 3,5 mil custeado pela cota parlamentar. Foram 39 meses de pagamentos destinados à WT, alcançando R$ 136,5 mil. A última parcela foi registrada em maio deste ano.
Willer Tomaz afirmou, em nota, que “os aluguéis são pagos diretamente por eles (inquilinos), e não cabe à locadora comentar sobre suas fontes de renda”.
“A relação com os inquilinos é regida por contratos regulares, firmados a valores de mercado e protegidos por confidencialidade, nos termos da legislação de proteção de dados”, afirma a nota de Tomaz.
Negócios de Tomaz entram no radar das investigações
A WT também é proprietária de um apartamento utilizado por Flávio Bolsonaro durante a campanha presidencial deste ano, segundo reportagem da revista piauí. O imóvel havia pertencido a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e apontado pela PF como operador financeiro do banqueiro.
Tomaz comprou o apartamento em fevereiro por R$ 3,5 milhões. Segundo a apuração publicada pelo UOL, Zettel havia adquirido o mesmo imóvel por R$ 5,5 milhões menos de um ano antes. A WT possui 22 imóveis no Distrito Federal, de acordo com registros oficiais consultados pela reportagem.
Ciro também aparece nas investigações relacionadas ao Master. A apuração da Polícia Federal analisa suspeitas envolvendo negócios e repasses ligados ao grupo de Vorcaro. O senador apresentou uma emenda parlamentar que beneficiava o banco.
Tomaz, por sua vez, já esteve no centro de outras apurações. Em 2021, foi citado durante a CPI da Pandemia, quando senadores discutiram a quebra de seus sigilos bancário e fiscal. Em 2017, foi preso durante a Operação Patmos, investigação relacionada à JBS. Ele foi solto menos de três meses depois, e a denúncia apresentada contra o advogado acabou rejeitada pela Justiça.







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