China nega acusações de trabalho forçado e critica novas tarifas propostas pelos EUA: ‘Manipulação política’

Pequim contesta relatório estadunidense que inclui Brasil entre 60 países sob risco de sobretaxa de 12,5% e classifica medida como unilateral

A tensão comercial entre Estados Unidos e China ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira (3), após o governo chinês rebater publicamente acusações feitas por Washington sobre o suposto uso de trabalho forçado em cadeias produtivas. A reação ocorre um dia depois de os Estados Unidos divulgarem um relatório que poderá resultar na aplicação de uma nova sobretaxa de 12,5% sobre produtos importados de cerca de 60 países, incluindo China e Brasil.

A proposta foi apresentada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) e integra uma estratégia mais ampla de endurecimento das políticas comerciais dos EUA com base em critérios relacionados a direitos trabalhistas e rastreamento das cadeias globais de produção.

Pequim rejeitou integralmente as conclusões do relatório e acusou Washington de utilizar o tema para fins políticos.

“Não existe o chamado trabalho forçado na China, e nos opomos ao uso disso como desculpa para manipulação política”, declarou Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, durante entrevista coletiva.

A manifestação representa a primeira resposta oficial da China após a divulgação do documento estadunidense.

Nova frente da disputa comercial

O relatório divulgado pelos Estados Unidos concluiu que 60 economias não adotam mecanismos considerados adequados para impedir a entrada ou a circulação de produtos fabricados com mão de obra forçada.

Além da China e do Brasil, a lista inclui países como Índia, Japão, Reino Unido e Coreia do Sul.

Segundo o governo dos EUA, a ausência de sistemas eficientes de fiscalização favorece a manutenção de práticas associadas ao trabalho escravo moderno e cria condições de concorrência consideradas injustas para trabalhadores e empresas dos Estados Unidos.

Como consequência, Washington propôs uma tarifa adicional de 12,5% sobre todas as importações provenientes desses países.

A medida foi fundamentada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, instrumento frequentemente utilizado pelos Estados Unidos em disputas comerciais internacionais.

A mesma legislação já foi empregada pelo governo estadunidense em outras iniciativas recentes, incluindo propostas tarifárias direcionadas a produtos brasileiros.

Ainda não está definido se a nova sobretaxa será acumulada com outras tarifas já existentes ou em discussão.

China nega irregularidades

A reação de Pequim foi imediata.

O governo chinês afirmou que as alegações apresentadas pelos Estados Unidos carecem de fundamento e classificou a iniciativa como uma tentativa de instrumentalizar questões trabalhistas para justificar novas barreiras comerciais.

Autoridades chinesas argumentam que o país segue sua legislação trabalhista e rejeitam acusações recorrentes feitas por governos ocidentais sobre supostas violações em cadeias produtivas.

A fala da porta-voz Mao Ning reforça a posição adotada por Pequim nos últimos anos diante de críticas internacionais relacionadas ao tema.

Ao mesmo tempo, a China voltou a criticar medidas unilaterais adotadas por Washington e sinalizou que continuará defendendo seus interesses econômicos em fóruns internacionais.

Mercados acompanham cenário com cautela

Os mercados financeiros da Ásia reagiram de forma mista às novas incertezas envolvendo o comércio global.

Em Hong Kong, o índice Hang Seng encerrou o dia em queda de 1,6%, refletindo a preocupação dos investidores com possíveis impactos das novas barreiras comerciais.

Nas bolsas da China continental, porém, o desempenho foi positivo. O índice CSI300 avançou 0,5%, enquanto o índice de Xangai registrou alta de 0,2%.

O setor de tecnologia ajudou a sustentar os ganhos, especialmente empresas ligadas à indústria de semicondutores, beneficiadas por expectativas favoráveis relacionadas ao crescimento da demanda por inteligência artificial.

Além das questões comerciais, investidores também reagiram a indicadores econômicos considerados positivos para a segunda maior economia do mundo.

Economia chinesa apresenta sinais de recuperação

Dados divulgados nesta semana mostraram que o setor de serviços da China registrou em maio seu ritmo mais forte de expansão em três meses.

O resultado foi impulsionado pelo aumento de novos negócios e por uma melhora na demanda internacional por serviços chineses.

O desempenho reforçou avaliações mais otimistas de instituições financeiras sobre o mercado local.

Analistas do Goldman Sachs mantiveram uma visão favorável para as ações chinesas negociadas no mercado doméstico, conhecidas como A-shares.

Entre os fatores apontados pelo banco estão a melhora das perspectivas de crescimento econômico e a forte exposição das empresas chinesas ao setor de tecnologia, especialmente às atividades relacionadas à inteligência artificial.

Brasil também está na lista

A inclusão do Brasil entre os países potencialmente atingidos pela nova tarifa chamou atenção do setor produtivo e de especialistas em comércio exterior.

De acordo com o relatório dos EUA, o país não teria mecanismos considerados suficientes para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado em outras partes do mundo.

O governo dos Estados Unidos sustenta que falhas de fiscalização em diferentes países acabam contribuindo para a manutenção de práticas ilegais nas cadeias globais de fornecimento.

Por enquanto, a medida continua em fase de consulta pública.

O governo dos EUA receberá manifestações e sugestões até o próximo dia 6 de julho. Em seguida, realizará audiências públicas marcadas para 7 de julho antes de decidir se as tarifas serão efetivamente implementadas.

Até lá, governos e setores econômicos dos países afetados acompanham as discussões com atenção, diante do potencial impacto da proposta sobre o comércio internacional e sobre as relações econômicas entre os Estados Unidos e importantes parceiros comerciais.

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