Chico Alencar: a coragem cívica como forma de amor ao povo

Mais do que um político, Chico Alencar é um homem inteiro, uma biografia viva da coerência, da generosidade e da coragem cívica

* Paulo Baía

Em tempos sombrios, quando a política se desfigura em pragmatismo brutal ou mercadoria vulgar, há nomes que se erguem como fiéis testemunhos de que ainda é possível fazer da vida pública uma missão. Chico Alencar é um desses nomes. Mais do que um político, ele é um homem inteiro, uma biografia viva da coerência, da generosidade e da coragem cívica. Sua trajetória é um longo e luminoso gesto de amor ao povo. Não ao povo abstrato das retóricas fáceis. Mas ao povo concreto: o que mora em favelas, o que se agarra às beiradas da cidade e da dignidade, o que sobrevive da informalidade, o que acredita na democracia como a possibilidade, ainda que remota, de ser incluído no direito à vida plena.

Chico faz política como quem reza. Como quem canta. Como quem ensina. Como quem constrói um mundo novo nas pequenas práticas do cotidiano. Seus passos atravessam as vielas dos morros do Rio de Janeiro, mas também percorrem os corredores do Congresso Nacional com a mesma humildade, a mesma atenção ao outro, o mesmo ouvido atento ao clamor dos invisíveis. É um homem que nunca se afastou do chão. Um político que conhece os nomes, os rostos e os dramas daqueles por quem luta. Sua vocação é pública, mas sua alma é de praça, de sala de aula, de biblioteca, de assembleia popular.

Max Weber falava da ética da convicção e da ética da responsabilidade como formas de medir o agir político. Chico Alencar, no entanto, é mais do que essas categorias. Sua presença na vida pública encarna uma terceira via: a ética da escuta, a ética do encontro. Ele não se fecha em doutrinas, nem se perde no cálculo frio da realpolitik. Dialoga com todas as forças do espectro ideológico brasileiro, com firmeza e respeito, sem nunca perder o fio de sua coerência. É um homem de esquerda que não teme conversar com a direita, se a pauta for o bem comum. É um homem de convicções profundas, mas jamais dogmático. Sua bússola está sempre voltada para os mais pobres. Tudo o que faz é medido pelo impacto que terá sobre os mais frágeis. Seu compromisso não é com siglas, mas com a decência. Com o Brasil real. Com o Brasil que sonha, que sofre e que insiste em viver.

Desde os tempos em que participou da reconstrução das associações de moradores na cidade e na região metropolitana do Rio de Janeiro, Chico mostrou que o poder pode brotar de baixo. Que as grandes transformações sociais nascem da mobilização coletiva, do afeto partilhado, da esperança plantada em terreno árido. Nunca abandonou essa origem. Ao contrário, fez dela sua identidade. Na sala de aula, como professor de história, formou jovens para o pensamento crítico e o compromisso ético. Nos livros que escreveu, traduziu conceitos complexos em palavras acessíveis, em linguagem que convoca. Nas tribunas que ocupou, foi sempre o orador da verdade incômoda, mas necessária.

Como parlamentar, seja na câmara de vereadores do Rio, na Assembleia Legislativa do Estado ou na Câmara Federal, Chico é o mesmo homem. Não se corrompeu. Não se acomodou. Não se rendeu aos atalhos fáceis. Sua coragem cívica, muitas vezes solitária, ecoa nos votos contrários às barganhas do poder, nas denúncias firmes, nas propostas alternativas, nos gestos simbólicos de resistência. Nunca usou um mandato como escada. Sempre foi, e segue sendo, ponte. Entre os de cima e os de baixo. Entre os que decidem e os que padecem. Entre o Brasil que é e o Brasil que poderia ser.

Chico Alencar é também um católico praticante. Sua fé é discreta, mas constante. Uma fé que se revela no modo como olha o outro, no modo como caminha com os que sofrem, no modo como transforma a espiritualidade em ação política concreta. Mas Chico não é um teocrata. Não confunde Estado e religião. Não impõe dogmas. Sua religiosidade é vivida como fonte ética, não como plataforma de poder. A oração que o guia é a que se realiza em gesto público, em solidariedade ativa, em escuta dos oprimidos. Sua espiritualidade, longe de ser um muro, é uma janela aberta para o mundo. Com ela, não julga. Com ela, acolhe. Com ela, combate a injustiça e a desigualdade com a mesma indignação com que lê o evangelho de um Cristo pobre, humaníssimo, insubmisso à lógica dos impérios.

Sua vida é prova de que é possível ser radicalmente republicano sem ser frio. De que é possível agir com paixão sem perder o rigor. De que é possível ter lado sem perder o espírito público. Em um tempo em que a política virou palco de vaidades e espetáculo de horrores, Chico Alencar permanece como figura rara, talvez única, que inspira confiança, admiração e esperança. Não por ser infalível, mas por ser humano demais. Por errar sem arrogância. Por acertar sem soberba. Por seguir, dia após dia, ao lado dos esquecidos, dos oprimidos, dos que não têm voz.

Sua presença entre nós, no tempo presente, é alívio e desafio. Alívio, porque nos lembra que há outro modo de estar na política. Desafio, porque nos obriga a perguntar por que tantos se afastaram desse caminho. Chico caminha devagar, com fala mansa e olhar firme. Mas seu passo é firme como o de um andarilho que sabe para onde vai. E o lugar para onde vai é sempre o mesmo: onde houver injustiça, ele estará. Onde houver silêncio cúmplice, ele falará. Onde houver medo, ele oferecerá coragem.

Há homens que brilham como fogos de artifício. Estouram, encantam, desaparecem. E há os que brilham como candeias. Simples, constantes, persistentes. Chico Alencar é candeia. Sua luz não cega, mas guia. Seu brilho não é para si, mas para os outros. Em sua vida, política não é profissão. É vocação. É missão. É gesto de cuidado com a cidade, com o país, com a humanidade.

Enquanto houver injustiça, sua luta será necessária. Enquanto houver miséria, sua presença será esperança. Enquanto houver um povo a ser escutado, ele continuará, atento, inteiro, generoso, lutando. Por isso, este artigo não é apenas um retrato. É uma homenagem. É um agradecimento. É a afirmação de que, sim, ainda é possível acreditar. Porque Chico Alencar existe. E isso já é um milagre da política.

* Sociólogo, cientista político e professor da UFRJ

Mais recentes

Descubra mais sobre Agenda do Poder

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading