Três pessoas continuam foragidas após a operação da Polícia Federal e do Ministério Público que levou à prisão do deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Joias (MDB), nesta quarta-feira (3). Entre os procurados estão dois dos principais chefes do tráfico no Rio: Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, líder do Complexo do Alemão, e Lacoste, que comanda o Morro da Serrinha, em Madureira.
O parlamentar é investigado por tráfico de drogas, corrupção, lavagem de dinheiro e negociação de armas com o Comando Vermelho (CV). Ele foi detido em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, Zona Oeste. No total, outras 15 pessoas foram presas, entre elas policiais militares, um delegado da Polícia Federal e um ex-secretário de Estado (veja a lista abaixo).
Segundo os investigadores, o parlamentar teria trocado US$ 9 milhões em espécie para reais a pedido de Pezão. De acordo com denúncia do Ministério Público, o grupo mantinha vínculos estáveis com o CV e atuava em áreas como os complexos da Maré, Alemão e a região de Parada de Lucas.
As acusações incluem intermediação de compra e venda de drogas, armas e equipamentos antidrones, além da movimentação de grandes quantias para financiar a facção.
Quem é Pezão?
Luciano Martiniano da Silva, o Pezão, está foragido há 15 anos. Ele é apontado como chefe do Complexo do Alemão, reduto histórico do CV. Em 2022, uma tentativa de captura resultou em uma operação policial com 18 mortos.
Pezão foi preso em 2005 pelo Departamento de Repressão a Entorpecentes (DRE), quando ainda controlava o tráfico na favela da Grota, no Alemão. No entanto, saiu da prisão em 2008 por decisão judicial.
Dois anos depois, voltou a ser procurado quando as forças de segurança ocuparam o conjunto de favelas na época da pacificação. Segundo a polícia, chegou a se esconder no Paraguai, mas teria retornado ao Brasil em 2022.
Atualmente, responde a processos por tráfico de drogas e homicídios, além de diversos mandados de prisão em aberto.
Quem é Lacoste?
Wallace Brito Trindade, conhecido como Lacoste, é o principal nome do Terceiro Comando Puro (TCP) no Complexo da Serrinha, em Madureira. A região, formada pelas comunidades da Serrinha, Fazenda, Patolinha, São José e Dendezinho, vive sob o domínio do criminoso há anos.
Apesar do sigilo em torno de sua rotina, Lacoste foi alvo de uma operação da Polícia Civil em 2019, que revelou parte do seu estilo de vida. Agentes localizaram uma residência do traficante no alto da Serrinha: casa com piscina, área gourmet, terraço com vista panorâmica e muros grafitados com imagens de jogadores do Flamengo.
Em 2021, o nome de Lacoste voltou ao radar da polícia com a descoberta de um plano de expansão territorial. O projeto, ainda em fase inicial, pretendia anexar ao domínio da Serrinha comunidades vizinhas, então controladas pelo Comando Vermelho (CV), como os morros da Congonha, Cajueiro e Vaz Lobo.
A ideia era formar uma nova área estratégica do TCP, batizada de Complexo de Jerusalém, numa alusão ao já consolidado Complexo de Israel, reduto comandado por Peixão. No entanto, o plano não foi adiante.
De acordo com as investigações, uma das suas táticas de conquista é cooptar rivais: traficantes do CV são abordados com propostas de trocar de lado mediante promessas de maior fatia nos lucros do tráfico.
A denúncia do MPRJ
A Procuradoria-Geral de Justiça denunciou o deputado e outros quatro acusados por associação para o tráfico e comércio ilegal de armamento restrito. O Órgão Especial do TJ-RJ autorizou quatro mandados de prisão e cinco de busca e apreensão em endereços na Barra da Tijuca, Freguesia e Copacabana.
Segundo os investigadores, o grupo mantinha laços estáveis com o CV, atuando nos complexos da Maré, Alemão e em Parada de Lucas. Além de intermediar drogas e armas, eles teriam fornecido equipamentos antidrones para dificultar operações policiais e movimentado grandes quantias em dinheiro vivo para financiar a facção.
Para o MPRJ, o parlamentar utilizou o mandato para favorecer a organização criminosa, inclusive nomeando comparsas para cargos na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
A Operação Bandeirantes contou, também, com o apoio da Policia Civil. O secretário da instituição, Felipe Cury, disse que o parlamentar já foi preso pelos mesmos crimes em 2017.
“Esse indivíduo, ele não estava representando os interesses da população do estado do Rio de Janeiro. Ele estava representando os interesses do Comando Vermelho, de uma facção criminosa”, declarou.
Na época, TH foi acusado de pagar propina a policiais, traficar armas e drogas e antecipar operações a facções.
Operação da PF
A Operação Zargun, conduzida pela Polícia Federal, pretendia cumprir 18 mandados de prisão preventiva e 22 de busca e apreensão, além do sequestro de bens avaliados em R$ 40 milhões.
Os investigados vão responder por organização criminosa, tráfico internacional de armas e drogas, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.
Lista dos presos
A operação encerrou com 15 presos. Confira a lista com os nomes divulgados até o momento:
- Gabriel Dias de Oliveira, o Índio, apontado como um dos chefes do Comando Vermelho;
- Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o Dudu, assessor parlamentar de TH;
- Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário de Esportes;
- Delegado de Polícia Federal Gustavo Stteel
- Cabo Wallace Menezes Varges Tobias, do Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope);
- Soldado Wesley Ferreira da Silva, do 31º BPM (Barra da Tijuca)
- Cabo Alexandre Marques dos Santos, do 4º BPM (São Cristóvão)
- Kleber Ferreira da Silva, ex-PM
- Rodrigo Costa Oliveira, PM
Governador Claudio Castro se manifesta
TH chegou à Alerj em 2024, assumindo a vaga do deputado Otoni de Paula Pai, falecido em maio daquele ano. O primeiro suplente, Rafael Picciani, preferiu permanecer como secretário de Esporte e Lazer do governo Cláudio Castro, abrindo espaço para Thiego.
Por meio das redes sociais, Castro determinou a volta de Picciani.
“Por minha determinação, o deputado estadual Rafael Picciani está retomando seu mandato na Assembleia Legislativa. Ele substitui o deputado estadual TH Joias, preso hoje em ação conjunta das polícias Civil e Federal e do Ministério Público. O retorno de Rafael já estava previsto, mas, diante da operação realizada hoje, decidimos antecipar. O trabalho integrado deixa um recado muito claro: a lei vale para todos”, pontou o governador.
A reportagem tenta localizar a defesa de TH e os demais citados, o espaço segue aberto para eventuais manifestações.
Nota do MDB
“Diante das notícias de que o deputado suplente TH Joias está sendo procurado pela polícia, com mandado de prisão por suspeita de tráfico de drogas, corrupção e lavagem de dinheiro, além de negociar armas para o Comando Vermelho (CV), o MDB decidiu expulsar o parlamentar.
TH, que já não seguia a orientação partidária em seus posicionamentos e votações na Assembleia Legislativa do Rio, não fará mais parte dos nossos quadros.”
Nota da Polícia Militar
“A Corregedoria Geral da Corporação efetuou a prisão de três policiais militares nesta manhã, em desdobramento de uma ação da Polícia Federal, Ministério Público e Polícia Civil em andamento nesta quarta-feira (3/9), no Rio de Janeiro. Outros dois policiais foram presos na ação pela Polícia Federal. Os policiais serão conduzidos para a Unidade Prisional da SEPM. O Comando e a Corregedoria da Corporação continuam acompanhando e apoiando as investigações .
Ressaltamos que o comando da Corporação não compactua e nem tolera quaisquer desvios de conduta, cometimento de crimes ou abuso de autoridade praticados por seus entes, punindo com rigor os envolvidos quando constatados os fatos”.






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