O Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ) mantém um acervo singular com mais de 5.600 discos de vinil, muitos deles raríssimos, que funcionam como instrumento terapêutico e espaço de inclusão social para pacientes. A discoteca fica na Gamboa, na Zona Sul do Rio, e avança para se tornar um Ponto de Cultura aberto à visitação.
O acesso à música integra a rotina de tratamento e cria conexões com lembranças afetivas e trajetórias pessoais. O espaço fica sob os cuidados de Rafael Carvalho da Silva, paciente psiquiátrico em tratamento desde 2013.
Morador da Gamboa, ele assumiu a responsabilidade pela discoteca e organiza o funcionamento do acervo.

Gosto de ouvir música desde pequenininho, uns 4 ou 5 anos. Primeiro os discos, depois as fitas cassetes e, mais tarde, os CDs. Quando eu chego na discoteca, ligo a rádio, pra tocar no hospital inteiro. É por isso que colocaram aquela vitrola pra eu poder ir fora do alcance lá do hospital”, conta.
Além de cuidar do espaço, Rafael também seleciona a programação da rádio interna do CPRJ. Vascaíno declarado, ele tem Milton Nascimento como principal referência musical.
“Adoro a coletânea dos primeiros discos dele, de 1967 a 1986”, diz. A programação ainda inclui homenagens a artistas em datas de aniversário, estratégia que aproxima pacientes da história da música brasileira.
Três irmãs doaram os primeiros vinis
O acervo começou a se formar em 2012, a partir da doação feita por três irmãs, então com 100, 97 e 92 anos. A entrega da coleção ao hospital ganhou repercussão e impulsionou novas contribuições.

Desde então, a discoteca cresceu de forma contínua e passou a reunir obras de selos históricos, como o Selo Festa, responsável por registrar a produção literária e musical brasileira entre 1955 e 1971.
Hoje, o espaço abriga discos com gravações de poemas de Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade, além de contos de Machado de Assis, peças teatrais, álbuns raros da MPB, música internacional, registros de orquestras e trilhas sonoras de novelas.
“No acervo de vinil, que foi o pontapé inicial, tem muita preciosidade. São muitos discos de poetas, a gente lê as poesias, ouve, comenta. É uma experiência estética completa”, explica o diretor-geral do CPRJ, Francisco Sayão, médico psiquiatra e entusiasta da música em vinil.

Cultura como política permanente de cuidado
A música não ocupa um espaço isolado dentro do CPRJ. Ao longo dos anos, a unidade consolidou práticas artísticas como parte da política de cuidado em saúde mental. Vinculado à Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) e sob gestão da Fundação Saúde, o hospital desenvolve oficinas terapêuticas de música, dança, yoga, artesanato, bordado e pintura.
Nesse contexto, o CPRJ se prepara para formalizar um processo que já ocorre na prática. Durante o Janeiro Branco, mês dedicado à conscientização sobre saúde mental, a unidade avança para se tornar oficialmente um Ponto de Cultura aberto à visitação pública.

Entre os destaques da programação está o grupo musical Harmonia Enlouquece, formado por usuários da rede de saúde mental e que completa 25 anos de trajetória em abril de 2026. O grupo recebeu recentemente o Prêmio Asas, por meio da Política Nacional Aldir Blanc no estado do Rio de Janeiro.
Francisco Sayão explica que o hospital já atua como Ponto de Cultura informal desde 2015. Nesse período, a discoteca abriu mensalmente para eventos que reuniram pacientes do CPRJ, dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs), do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Instituto Municipal Philippe Pinel e de outras instituições.
“Agora, com o reconhecimento oficial do Prêmio Asas, concedido ao grupo musical Harmonia Enlouquece, a proposta é expandir o trabalho. A ideia é ampliar o acesso também à comunidade do entorno, abrindo o espaço no fim da tarde e à noite durante a semana”, afirma.
Programação comemorativa de 25 anos
A programação comemorativa pelos 25 anos do Harmonia Enlouquece acontece em abril, no próprio CPRJ. A agenda inclui o lançamento do álbum “Quinto dos Infernos”, além de exposição e outras ações culturais que devem marcar a abertura definitiva do espaço à cidade.






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